As Mãos Estendidas do Universo Sexual Paralelo

Entrevista com Rocca Stockler – por Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann

Rocca Stockler, no depoimento publicado acima, conta sua vivência entre grupos cujo comportamento social e sexual as transforma em vítimas de preconceitos nem sempre justificados, gente que é rotulada de forma infame, mas que são capazes de estender as mãos, às vezes com espírito mais solidário do que aqueles que a sociedade rotula como “bons rapazes”, “boas moças”, “cidadãos exemplares”.

Ela não é a única. Em 31 de agosto deste ano, marquei minha volta ao Multiply com um pequeno texto de acesso restrito intitulado “Sim, eu sou racista”:

“Sou homem, heterossexual, branco (bem, pelo menos para os padrões do IBGE, defino-me etnicamente como “vira-lata”) e católico (para efeito de preenchimento de formulários).
Passando minha vida em revista, reparo que, sempre que passei por apertos, quem me estendeu a mão e foi legal comigo foi “a mulher”, “a prostituta”, “o viado”, “o crioulo”, “o crente”, “o judeu”. Então, confesso meu racismo. Com algumas exceções, é claro, não suporto homens heterossexuais brancos e católicos. Ô raçazinha inútil que não serve pra nada…”.

Trata-se, obviamente, de uma ironia. Também tenho ótimos amigos homens heterossexuais brancos e católicos.

Ao conhecer a história de vida de Rocca Stockler, decidi que PRECISAVA saber suas idéias a respeito. Conversamos sobre o assunto e a Géh conduziu o bate-papo que vocês lerão agora, com exclusividade para o gehspace:

Géh: Comparando com a sua experiência de vida, qual a sua opinião sobre o texto do Alexei? A “minoria”, os marginalizados, são mais solidários, com quem está passando por problemas?

Rocca: Por problemas todo mundo passa, poucos encaram. Acredito que a minoria já é maioria. Existe uma ‘hierarquia’ de rótulos sociais, não há mais maioria e minoria. O ponto X, ou G, seria o preconceito que também está em todos os cantos. Sim, são as putas, os travestis, os drogados, eu, você… Essa questão abrange uma quebra de limite pessoal e não maiorias e minorias.

Géh: “Minorias” talvez realmente não seja o termo adequado, e sim os que sofrem de “preconceitos”.

Rocca: Essa moeda tem mais de dois lados. Existe um fator primordial: até certa idade, o humano, em sua inocência, caminha com um cabresto. Alguns passam o resto da vida usando essa limitação. Outros encaram de frente quando percebem ser diferentes daqueles que mantém um cabresto (tradicionalismo arcaico). Quando isso acontece junto vem uma quebra do limite normal, é quando você passa a se defender em postura, quando você percebe que não tem mais como estar feliz junto aos que mantém o tal cabresto. Quando rola isso é como se abrissem uma janela num quarto em que só existia uma porta. Infelizmente, o diferente assusta, e a sobrevivência faz você buscar estar com iguais até mesmo como defesa. E, diferente do cabresto que é repleto de problemas sabiamente ocultos, a violência destinada aos “diferentes” é totalmente explicita.
Lógico que, quando você é alvo de toda penalidade por encarar de frente ser o que é, seja o que for, você se torna infinitamente mais humano. Assim como perde o medo de estar entre humanos. Você passa a viver no limite porque ultrapassou o limite que conhecia na época que se desconhecia.

Géh: Sabe, vou contar algo que eu senti quando fui a primeira vez em uma boate gay, na verdade, até então, a única. Eu era a única mulher. Os homens eram sarados, lindos maravilhosos e gays. Um grande amigo meu veio me visitar no rio e eu disse que gostaria de conhecer uma boate gay. Procuramos uma e lá fui eu, o Alexei, meu amigo com o namorado. Eu fui tratada com tanta gentileza, não sei o que eu esperava, talvez por ser a única estranha no ninho.

Rocca: Levou um susto com a forma que foi tratada?

Géh: Sem brincadeira, nunca em nenhum outro lugar me senti tão bem. Em boates heteros, por exemplo, nunca me cederam a mesa o ambiente estando lotado. E lá cederam.

Rocca: Você assumir ser o que é, é uma forma de respeitar ser o que são. Não há por quê gerar preconceito quando se luta contra. Mas há muito preconceito nesse mundo “excluso” também, aí entra o terceiro lado da moeda. Preconceito entre os “exclusos” [uso essa palavra por não achar outra]. O dedo humano infelizmente não se contenta. Não generalizo, mas sei que existe, e existe forte.

Géh: Sim. Mas lembro sempre de uma frase: quando se aponta um dedo para uma pessoa, três dedos se voltam contra você mesmo.

Rocca: Por isso o problema não finda. Um ponto chave nisso tudo: Sim: foram as pessoas “da rua” que mais me deram a mão, independente de quem eu era, e do que fazia entre eles. Não se questiona muito. Mas também temos que levar em consideração que as pessoas com cabresto não estão nas ruas. Contrário. Elas temem um olhar fixo – ao menos sempre abaixaram a cabeça pros meus – Deve ser o tal medo do desconhecido. Talvez se eu não tivesse sido abortada do ambiente família precocemente, hoje eu poderia ser alguém que estranha as pessoas que fizeram parte da minha vida.

Géh: É mais fácil o confortável do que se conhece, do que descobrir o novo.

Rocca: Sim. Mas rola um pra que, né? Não há necessidade de apenas conhecer. Pode haver curiosidade, mas não necessidade. Querendo ou não, é um “olhar” de impacto, e muitas vezes sempre mostram só a parte ruim desse mundo. A única coisa que mostram e acaba por atrair a todos, por curiosidade, é a tal “parada gay”, mas isso é algo que não sinto como positivo pra nenhum dos lados. Géh: O pior de tudo é o ser humano ter a mania de criar “rótulos”, e esses rótulos que levam ao preconceito. Esquecem que todos são humanos, tem sentimentos…

Rocca: A parada gay é um rótulo criado pelos próprios. Olha o paradoxo? É uma vitória de uma batalha eterna. As leis pouco favorecem o mundo GLS. Essa luta é complicada porque além das nossas leis serem do tempo da pedra, elas passam a alimentar o caos dentro da vida daquele casal homossexual que só quer andar pela praça da republica em paz como qualquer casal faz. Parada gay, o manifesto, é uma forma que acharam para conseguir espaço e paz. Só que há uma contramão de intenção. Decretar um dia do ano para o orgulho gay é você assinar ser excluso no cotidiano de 365 dias do ano.

Géh: É tão fácil julgar sem conhecer…

Rocca: Sempre fácil. Tudo é fácil quando feito frente uma televisão. Estendendo mais o assunto: quantos “pais de família” pagam putas e travecos para serviços prestados? Inúmeros. Só que isso é algo que o “pai de família” jamais vai assumir no almoço de domingo. A melhor maneira de se defender é agredir, logo ele vai ser o primeiro a desrespeitar a pessoa que ele busca pra ter prazer. Não defendo nenhum dos lados, mas sei que existem muitos ângulos. Literalmente.

Géh: Já senti muito preconceito por ter “blogs com poesias eróticas”. Era o mesmo que estampar “ela quer dar, é puta… etc”. E pior nem é isso, mas sim a energia negativa que recebi quando muitos destes “fãs” souberam que casei. É o tal do fio da navalha, você tem que andar e tomar cuidado pra não cair pro lado errado.

Rocca: Porra, criam todo um fetiche. “O rito faz o mito”. Acham que você é um ícone a ser seguido, quando na verdade você tá de meião no chão e calcinha branca de algodão. Mas o ícone jamais. Não é?

Géh: Falou e disse, quase me descreveu.

Rocca: Sinto que o problema real é o mais oculto. Acontece que chega um ponto que não há como ver e, se há, não existe mais pique pra mudar. Exemplo: um homossexual que sofreu a vida inteira o lance de exclusão. De repente ele percebe que pode usar isso a favor e cria uma persona em cima. Já que vai apanhar que seja com glamour né? E assim ele continua sendo o que sempre foi, com a diferença que passa a ter paz. Por que isso? Porque a geração que está vindo, aqueles que teriam de estar formando um caráter, se não tivessem perdendo o que sobra nos embalos de qualquer um, olham esse homossexual como um ícone. É quando fode tudo. É quando o ícone encontra a tal paz, afinal querendo ou não existe admiradores e isso é uma retaguarda. Mas é também quando uma geração começa a “estar como” algo que jamais vão vir a ser.
Essa questão social é um assunto que eu posso passar a vida inteira pensando sobre e jamais vou chegar ate a raiz. É complexo demais. Mas dentro desse complexo eu vejo o erro na tal expressão “Tem um elefante na sala de estar” saca? Tudo é uma questão de raiz.
Eu estive entre eles. Não sou um deles e sempre fui, porque pra mim são as pessoas com quem mais troquei vida. Mas eu nunca saí de casa por ser gay, ou puta ou traveco ou traficante… E quando saí não virei nenhuma dessas coisas. Eu me tornei um item a mais entre eles. Acho que fui a garota precoce que estava perdida e encontrou apoio destas pessoas.

Géh: É uma experiência que a gente leva pra vida toda né?

Rocca: Completamente. Deixa de ser uma experiência e passa a ser você. Quando abrimos janelas dos limites humanos nunca mais as fechamos.

Géh: É quando você conhece uma nova história (realidade). Você se torna parte dela…

Rocca: E não só essa. Tem muita coisa que não vivi ainda. Hoje em dia eu tenho que aprender a fazer as coisas leves que não fiz aos 17 anos, mas já sou uma 2.9 quase 3.0. Fica difícil.

Géh: Fala aí velha. [risos]. Estou com 2.7 e me surpreendo. A cada dia quero aprender mais, só espero ter sabedoria para saber o que fazer com o que eu aprender.

Rocca: Você tocou num ponto fundamental, o qual vem do berço: Caráter. Sabedoria. Andar por coisas desconhecidas, ser parte, mas não mudar sua referência. Às vezes eu brinco que, quando vou embora não olho pra trás, mas a real é que o “atrás” está um passo a frente. Eu, todos, tive tudo pra me afundar. Não há dúvidas de que o ambiente proporcionava rumos que desconheço, por sorte me mantive sendo o que sempre fui.

Géh: Uma pontinha das coisas novas que estou aprendendo tento deixar aqui no Géh. Sinto que algumas outras não cabem neste espaço, mas sei que se aprender só pra mim não terá valido a pena. É preciso passar um pouco para os outros. São coisas que tenho pensando, idéias que surgem ainda sem forma. É exatamente isso o que você passa para as pessoas, e é muito bom. É uma energia boa. Esta no coração, na intenção, no caráter e na cabeça…

Rocca: Não é fácil. Se eu falar que é estaria mentindo. Tem uma multidão que pega pesado pro meu lado, sem falar os que se afastam. Quando eu comecei a escrever sobre a vida não pensei estar fazendo o que vejo hoje. Cheguei num ponto que percebi não poder ultrapassar e isso machuca. Escrevi a casca, não posso quebrar o ovo. Até porque sinto que, se eu quebrar o ovo, vou transformar em perda tudo que um dia foi ganho. Percepção é cisco no olho. Você suporta alguns. Mas todo dia não há como.
Eu entendo seu receio em relatar o que está vivendo. Caminhamos numa linha tênue. Tem que ter muito cuidado pra não se deixar agredir por não ter conseguido passar o fato de fato.

Géh: Nem todos estão preparados pra ler, e se mostrar também te torna vulnerável. Mas pode apostar uma coisa: assim como pra você foi importante o apoio recebido naquela fase da sua vida. Pra eles foi importante em dobro poder te ajudar… E saber que alguém que fazia parte do “outro lado” soube andar no mundo deles também.

Rocca: Eu já era um deles.

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