
Sand Dress por Selena Engelhart
Fui uma das primeiras a chegar. Subi a escada de piso bruto, escada estreita que dava para o terraço.
Desci, não sei por qual motivo e, ao retornar, fui impedida de subir novamente.
Postada em frente à escada, uma recepcionista com uma tabuleta na mão, conferia a lista de convidados.
- A senhora não pode subir, este lugar está reservado a convidados especiais.
- Eu só vim pegar algo que esqueci. Olhe, meu nome está aí, embaixo do nome das duas moças que subiram antes de mim.
O guarda, ao lado, fez sinal para que eu passasse.
O terraço dava para um vasto gramado, cintilante como esmeraldas. À esquerda, via-se um espetáculo circense e, à direita, mesas ladeadas de cadeiras brancas, pessoas sentadas e crianças brincando no chão.
Curiosos penduravam-se nas sacadas e janelas de um prédio vizinho.
Mais tarde, já no térreo, um homem de pele clara, excessivamente alegre devido ao álcool, abraçava a todos com entusiasmo.
- Zélia, você pode pegar carona com ele.
Segurei fortemente a mão de minha mãe e saí, apressada.
Encostado ao prédio, um vestido estendido ao chão e um par de sapatos do mesmo tom. Logo em seguida, mais dois vestidos e dois pares de sapato, todos em cores neutras e arrumados do mesmo modo.
Segurando ainda a mão de minha mãe, afastei-me. Minha mãe parecia ter 40 anos. Magra, cabelos castanhos até os ombros. Bem diferente dos seus quase 90 anos e cabelos de algodão.
Caminhando à nossa frente, duas moças trajavam os mesmos vestidos que antes vira no chão. Só os sapatos eram outros. Calçavam sapatos pretos. Sem pressa, atravessaram a rua e desapareceram.
No caminho, surgiu uma subida, abrupta. Estendendo a mão, pedi ajuda a Henrique. Não fui atendida. Tive que seguir sozinha.
Depois de atravessar a saliência, sombreada por pinheiros e cedros, sob o céu cor de anil, o espelho d’água coriscava a luz direta do sol. Era um lago extremamente límpido. Através da água luminosa, percebia-se algo estranho – sinistro.
Vi dois carros submersos e o corpo de um homem de pele clara, o mesmo que tinha visto anteriormente, boiando sem vida.
Dentro de uma caminhonete, cabelos ao vento, virei para o motorista e disse:
- Se eu tivesse pegado carona com ele também estaria morta!
Ao acordar, um pressentimento muito forte. Perda.