Fim de tarde, hora de fechamento do salão de beleza. Horário ideal para uma reflexão sobre os significados da arte de produzir beleza no corpo das mulheres, mais especificamente, na cabeça: o corte cabelo e seus significados. No papo com Luana de Oliveira, fonoaudióloga, atriz e gerente de um salão de beleza, com aparência deslumbrante e simpatia sem igual em pleno final de um dia cansativo, conversamos sobre diversos aspectos antropológicos e psicológicos do trabalho naquele que, talvez, seja um dos mais antigos e tradicionais templos da transformação do projeto corporal feminino, em que a busca de uma nova imagem para o ego se ergue em refinada categoria de arte e corporalidade.
Logo no primeiro minuto do bate-papo, fomos interrompidos por uma cliente tardia, algo hesitante, em busca de informações sobre um produto específico. Começamos a conversa a partir desse “estudo-de-caso”. Perguntei a Luana o que exatamente procurava a cliente, a começar pelo produto.
Luana: O produto que ela veio procurar é a “escova de maracujá”, um produto que está na moda, uma verdadeira febre no Rio de Janeiro, junto com a escova de chocolate. É um tratamento profundo, que sela as cutículas e retira a porosidade dos cabelos, deixando-os mais maleáveis. Dependendo do tipo de cabelo, o volume pode até diminuir. É preciso repetir mensalmente, pois é realmente um tratamento. Enfim, entrou na moda o conceito de que bonito é o cabelo liso e a mulherada está toda procurando alisar o cabelo.
Alexis: Mas vejo que vocês fazem “permanente” também!
Luana: Fazemos, mas é um serviço muito menos procurado, mais freqüentemente por senhoras de mais idade. As mulheres mais jovens estão preferindo alisar.
Alexis: E a que você atribui essa moda?
Luana: Olha, é uma questão de acompanhar o movimento coletivo. São atrizes, programas de TV comentando o uso do produto… E aí, a procura aumenta muito. A gente tem que ficar muito antenado com os modismos e tendências para disponibilizar os produtos no salão assim que as clientes começarem a procurá-los.
Alexis: Agora, em termos gerais, o que as clientes procuram em salão de beleza, independentemente do serviço ou do produto que vão comprar?
Luana: Certamente, é uma satisfação psicológica. Abordando a questão do ponto-de-vista do teatro, noto toda uma representação de um papel. Por exemplo, muitas mulheres chegam aqui, mesmo as de classes mais altas, reclamando de falta de dinheiro… Outras vêm ao salão chorando porque perderam o namorado… Não vejo como uma mera questão de estética, algo que se limite a “deixar as unhas mais bonitas”, no caso da manicure, por exemplo. Relaciona-se mais a uma busca pela melhoria da auto-estima e eu noto isso pela postura corporal com que elas entram aqui, com os ombros encurvados, e a postura com que elas saem, mais empinadas, eretas, o peito erguido, a cabeça erguida e um sorriso no rosto.
Alexis: E sobre o bate-papo que rola durante o processo?
Luana: Em geral, fala-se sempre sobre as mesmas coisas (risos)… Mas a gente tem como política aqui evitar discussões sobre temas polêmicos, que possam tumultuar o ambiente. Porque há pessoas que sabem conversar sobre um tema respeitando os diversos pontos-de-vista. Mas há outras pessoas que se irritam e querem convencer as outras de que estão certas. Então, eu fico procuro ficar ligada na reação das clientes e sinalizo para os funcionários que mudem o rumo da conversa.
Alexis: Você pode contar um caso?
Luana: Tivemos uma funcionária que era fanática religiosa e queria converter as clientes. Então, não sei nem dizer como ela conseguia isso, mas a partir de qualquer assunto, ela conseguia chegar na igreja e começava o tumulto. Essa funcionária não conseguia se controlar e magoou muitas clientes durante o período em que esteve aqui. Por exemplo, ela expressava de forma muito preconceituosa. Com essas posições extremistas, radicais, preconceituosas, não é possível manter um clima agradável entre os funcionários e, principalmente, com as clientes, para que elas se sintam bem e queiram voltar ao salão.
Alexis: E como é que se produz esse clima agradável?
Luana: A palavra mais usada pelas clientes é “energia”, eles dizem que aqui tem uma “energia positiva”. Olha, não é que todos os dias a gente esteja se sentindo bem e com alto astral, isso não é possível, há sempre aquele dia em que alguma coisa incomoda, algo de ruim acontece, enfim, você não está se sentindo bem. Mas eu procuro abstrair, porque o cliente não precisa saber que eu tenho um problema, então atendo sorrindo, procurando ser o mais atenciosa possível e transmito essa atitude para os funcionários. Eles têm abertura para desabafar algum problema comigo mas, quando chega a cliente, vamos vestir o sorriso.
Alexis: Por outro lado, as clientes costumam se abrir com vocês, como se fossem psicólogos, não?
Luana: É verdade. Há clientes que vêm para cá para realmente se abrir com a gente, conversam sobre os problemas, expõem sua vida sem vergonha nenhuma, falam sobre tudo. Observo que isso é mais freqüente com as manicures. Quando a gente percebe que elas estão falando baixinho, para não serem ouvidas mesmo, já imaginamos que está rolando um desabafo. Por incrível que pareça, aqui, a gente conseguiu abolir a fofoca. Já teve, mas fizemos um trabalho de conscientização e o clima está bem diferente. Realmente, o que a cliente conta ali para a manicure ninguém fica sabendo depois.
Alexis: Então, com a manicure, há uma relação mais próxima, de “pé-de-ouvido”, até pela proximidade física em que acontece o trabalho.
Luana: Exatamente. Também há uma intimidade maior por ocorrer um toque de pele com pele, há uma troca de energias naquele momento e a mulher sente como se aquele toque delicado fosse uma carícia e isso favorece a aproximação.
Alexis: E sobre a amizade entre clientes? Isso costuma acontecer?
Luana: Ultimamente, tem acontecido com menos freqüência. Já aconteceu muito de duas clientes se conhecerem e passarem até a combinar para se encontrar aqui no mesmo horário e, quando calhava de uma delas não aparecer, até cobravam da gente: “Onde está aquela senhora que vem sempre no mesmo horário que eu”? E pedem que a gente mande beijos, abraços, quando a virmos em outro horário. E quando a gente passa o recado, a outra fica toda animada.
Alexis: E sobre o significado do tratamento? Por exemplo, você disse que as mulheres com cabelo ondulado, hoje, estão procurando alisá-los. O que exatamente elas estão procurando?
Luana: Elas dizem que querem “mudar a cara”. Dizem que estão cansadas do cabelos, que estão sempre com a mesma cara e querem mudar. Há clientes que perguntam se o resultado é para a vida inteira. Eu digo que não, o cabelo vai crescer e vai voltar ao que a genética determinou para a raiz do seu cabelo. Algumas declaram que vão procurar emprego e que querem estar mais bonitas, outras alegam que o cabelo ondulado não é adequado para certas ocasiões.
Alexis: Se a gente pensar bem, essa expressão “mudar de cara”, apesar de ser um clichê com o qual a gente está tão acostumado que nem nota, é muito interessante, porque expressa algum desejo mais profundo, né? Porque, se levarmos ao pé da letra, essa vontade de mudar de cara lembra aquele filme, “O Máskara”!
Luana: (risos) É, dizem que estão cansadas do cabelo, cansadas da própria “cara”.
Alexis: Eu noto que você tem aqui, como em todos os salões, referências visuais de cortes de cabelo e maquiagem: pôsteres, revistas… Elas pedem cortes “iguaizinhos” ao da revista?
Luana: Normalmente, os cortes mais pedidos são os que estão em moda na televisão. Quando tem uma novela que “estoura” em interesse e há uma atriz que tem um corte mais diferente, elas correm aqui para pedir o corte “daquela atriz da novela tal”, principalmente da Rede Globo. Nunca me pediram um corte de uma novela de outra emissora…
Alexis: Pois é, aí eu te pergunto: tecnicamente, é impossível reproduzir o mesmo corte de cabelo, cada cabelo é diferente do outro…
Luana: E cada rosto é um rosto diferente.
Alexis: Então, é realmente impossível que um corte fique “igualzinho” ao da revista ou da novela…
Luana: É uma situação delicada e há clientes que ficam aborrecidas quando a gente diz, por exemplo, que “esse corte não combina com seu rosto”. Nesse caso, a gente tem que explicar detalhadamente o motivo, mostrar outros cortes que seriam melhores para o rosto dela. Porque é como se o rosto fosse pintura e o cabelo fosse a moldura. Também há algumas clientes que pedem coisas que são tecnicamente impossíveis, como um relaxamento de cachos por exemplo, mas já tendo usado recentemente outra química no cabelo. Isso não pode, vai estragar o cabelo da pessoa, a gente explica que o cabelo pode até cair, dependendo do caso. Nesses casos, quando a cliente insiste, nós somos taxativos: aqui a gente não faz de jeito nenhum. Então, elas ficam aborrecidas, saem daqui pisando duro, mas é melhor do que a gente estragar o cabelo da pessoa.
Alexis: Bom, mas e quando é possível fazer? O fato de que não vai ficar idêntico não causa frustração? Como lidar com isso?
Luana: É preciso reparar muito na cliente. Se é um tipo muito exigente, que quer daquele jeitinho que aparece na foto ou na novela nos mínimos detalhes, a gente tem que explicar para ela que o resultado não vai ser exatamente o que ela espera. Por exemplo, vou ter que explicar que, como o cabelo dela é volumoso e o da modelo ou atriz é mais ralo, o resultado vai ficar diferente. A gente precisa ter muito cuidado e explicar cada detalhe, para não frustrar a cliente e para que, no final, ela fique satisfeita com o resultado.
Alexis: Bom, quando uma cliente expressa o desejo de ter um corte “igualzinho” ao de uma atriz de novela, certamente é porque ela ter alguma coisa em comum com a atriz ou com o personagem que ela está representando e, de certa forma, ela quer expressar um significado como “eu também sou assim”. Essa expectativa sempre pode envolver um certo grau de frustração e você procurar lidar com isso didaticamente.
Luana: É. Até hoje, nunca vi uma cliente com esse perfil sair daqui triste com o resultado. Porque se a gente explica detalhadamente porque e como vai ficar, até a cliente mais perfeccionista vai entendendo o trabalho do profissional, quais são os limites do que pode ser feito e acaba gostando do resultado. Mexer com o cabelo é um trabalho muito sério, muito mais difícil do que as unhas, por exemplo. Não que a manicure não mexa com a auto-estima mas, se você errar no corte do cabelo, a pessoa vai ficar com MUITA raiva.
Alexis: Desenvolve um pouquinho essa entidade mítica, o Cabelo…
Luana: (risos) É uma ligação afetiva muito séria. Pode não parecer, mas os homens são tão ou mais exigentes quanto as mulheres. Ficam preocupados com a nuca, a altura das costeletas, olham e avaliam muito… Acho difícil falar sobre esse assunto…
Alexis: Ok, então fale um pouco da sua relação com os seus cabelos.
Luana: Ah, depois de passar tanto tempo aqui dentro, eu até me desliguei um pouco. Claro que eu cuido; fiz uma escova para alisar neste fim de semana, meu cabelo é todo cacheadinho, todo mundo prefere ele cacheado e eu também. Cabelo cacheado dá um ar mais inocente, mais “menininha”. Já o cabelo escovado tem um estilo mais “mulherão”.
Alexis: Então, mesmo gostando dos cabelos cacheado, você também resolveu “mudar de cara”?
Luana: (risos): É neste fim-de-semana deu vontade de fazer uma escova e pedi para minha mãe fazer para mim. De vez em quando faz bem…
Alexis: Essa decisão de “mudar de cara” mudando o corte é impulsiva?
Luana: Pessoalmente, olha, minha mãe trabalha neste ramo há mais de trinta anos… E eu não gosto de que fiquem mexendo no meu cabelo. Não gosto de mudar o corte, não gosto que digam que vão tirar meus cachinhos para fazer escova progressiva. E, sinceramente, quando alguém vai mudar o corte de cabelo tem que pensar muito antes de fazer. Por exemplo, uma “escova definitiva”, que é diferente da “escova progressiva”: a escova progressiva alisa por etapas o cabelo, já a escova definitiva alisa de uma vez só. Então, é uma decisão que a cliente tem que querer mesmo. Quando ela chega aqui e diz “eu quero uma definitiva”, nós perguntamos várias vezes se ela têm certeza de que é exatamente isso que ela quer. Explicamos que os cachinhos “vão embora de vez”, não adianta chorar nem voltar aqui pedindo de volta os cachinhos de seu cabelo porque não vai ser possível. O mesmo vale para mudanças radicais no corte. Porque o corte de cabelo modifica muito o rosto da pessoa e, se mudar demais, pode causar um choque.
Alexis: E sobre o lado artístico propriamente dito? Gostei muito da comparação dos cabelos com a moldura. Você falar sobre o lado técnico da estética, de composição do rosto com o corte, enfim, o que se leva em conta para produzir beleza, independemente de moda?
Luana: Olha, a gente precisa observar o conjunto. Por exemplo, às vezes entra uma cliente mais tímida, recatada, pedindo um corte radical. A gente explica que o corte que ela está pedindo não combina com a personalidade e que ela não vai gostar disso depois e procuramos mostrar um corte que realmente tenha a ver com a pessoa. Há mulheres que têm uma vida muito agitada e vão precisar de um corte mais prático, que ela não precise gastar muito tempo penteando cada parte do cabelo. Se o profissional trabalhar observando a personalidade da cliente, ele a conquista. Se não reparar nisso, perde a cliente na hora.
