Vale abrir este estudo com uma “pérola” historicamente documentada da expressão da perplexidade masculina diante de uma das mais antigas formas de arte corporal, a maquiagem, em carta publicada no jornal britânico The Spectator em 1711 ( Fonte: http://www.spnetshop.com.br/vcsabia_hmaquiagem.htm).
“Senhor, estou pensando em largar minha mulher e acredito que quando o senhor considerar o meu caso, a sua opinião será a de que minhas pretensões ao divórcio são justas. Nunca um homem foi tão apaixonado como eu pela sua fronte, pescoço e braços alvos, assim como a cor azeviche (N.E.: extremamente negros) de seus cabelos. Mas para meu espanto descobri que era tudo feito de arte: sua pele é tão opaca com esta prática, que quando acordou de manhã, mal parecia jovem o suficiente para ser mãe de quem levei para a cama na noite anterior. Tomarei a liberdade de deixá-la na primeira oportunidade, a menos que seu pai torne sua fortuna apropriada às suas verdadeiras, e não supostas, feições…”.
O decepcionado senhor britânico do século XVIII usa a palavra correta para descrever o ato de maquilar-se: arte. Arte no corpo, a corporalidade como suporte para auto-expressão, formação de identidade, diferenciação, identificação com um grupo, enfim, como mensagem.
Ressaltemos de início que o processo comunicativo vai além das palavras e do clássico esquema Emissor |> Codificação |> Mensagem |> Canal |> Decodificação |> Receptor.
Uma das preocupações da pesquisa contemporânea em comunicação reside justamente nos aspectos ocultos da linguagem, aqueles que são culturalmente inscritos nos movimentos e posturas corporais, sejam eles inconscientes ou cuidadosamente planejados. Ganha cada vez mais relevância a pesquisa das chamadas paralinguagens, isto é, as linguagens não-verbais: cinética – gestos, posturas e movimentos; tonalidades e características da voz; proxemia – estudo do significado das distâncias entre os corpos durante o processo de comunicação; e o próprio uso como do corpo como mídia, isto é, meio de transmissão da mensagem: maquiagem, tatuagem, vestuário, etc. (O’Neil, 2005)
Neste série de artigos, introduziremos alguns conceitos deste último campo de pesquisa em sua relação com as formas de arte corporal.
A SEMIÓTICA DA MODA
A moda pode ser considerada como um processo de comunicação, de manifestação simbólica. As roupas podem criar identidades, externar códigos e transmitir mensagens. Varia nas diferentes culturas o significado e a simbologia das roupas. Elas serve para distinguir a classe social de quem a usa, representando o indivíduo dentro da sociedade, sendo uma forma de distinguir o grupo a qual pertence.
O vestuário participa da constituição da identidade individual, proporcionando a criação de um estilo próprio, uma representação de si mesmo na sociedade e no grupo em que convive. O indivíduo pode ser autônomo na decisão quanto a seu modo de vestir, embora não possa isentar-se de influências externas. (SOUZA, 2003).
Diariamente, o ser humano é bombardeado por códigos, mensagens – informações -sejam elas sonoras, verbais, visuais e do próprio vestuário. A moda e o vestuário criam códigos que transmitem e recebem mensagens, imperam na comunicação da sociedade atual. O vestuário deve ser entendido como um veículo ideológico, através do qual se estabelece uma identidade individual e expectativas de comportamentos sociais.
Segundo Monteiro (2003:1), “Quando o consumidor decide comprar a roupa, ele não está comprando apenas alguns pedaços de panos bem costurados. Ele está comprando sua própria alma”.
“Estilo” é o que faz a pessoa se sentir única e dizer ao mundo “sou singular”. A pessoa que se veste com um determinado estilo está mostrando muito mais do que uma maneira de vestir, está mostrando o seu modo de ser, viver e de agir. Estilo é muito mais do que moda ou modismos, é uma escolha pessoal e particular, uma preferência, uma expressão de desejos, fantasias e humores. A moda é passageira, é a oferta atual da indústria da moda em um determinado momento, mas o estilo é permanente.
Ao comprar uma peça de roupa, o consumidor busca a diferenciação e a mensagem que pode transmitir através dela. Ela representa um traço de individualidade, uma forma de se diferenciar das outras pessoas em função do que está usando.
Monteiro (2003) afirma que as roupas são consumidas por questões além de sua utilidade, com significados simbólicos de gosto, estilo de vida e identidade. No decorrer da história da moda, verificou-se que ela se comporta como um código em um processo de metalinguagem. A roupa é um código de linguagem mesmo quando não é usada para combinar, se usada de forma displicente, essa forma informa a displicência de quem a usa. Usar ou não uma camisa indica um estado de espírito, pois estar sem camisa indica um despojamento material, uma solidão moral; já dar a sua própria camisa significa generosidade sem limites, é partilhar sua intimidade. Já o material de que é feita uma camisa demonstra a classe social e o grupo a que se pertence.
Na opinião de Aragão (2003), a roupa é uma extensão muito íntima do corpo, exercendo a função de interface e representação do indivíduo, atiçando os todos os sentidos humanos, em especial a visão. A moda pode tornar-se sinônimo de provocação, escândalo ou surpresa no seu uso cotidiano.
Partindo do princípio que cada indivíduo é único, a criação do estilo próprio é uma escolha, um eleger de alguns itens dispensando-se outros dentro da tão variada oferta de moda. Selecionar, separar, organizar, até decidir o que combina com seus traços, é uma escolha proposital, precisa, de forma consciente e coerente. Através da escolha do estilo do vestuário, pode-se saber a que “tribo” pertence a pessoa, sua identidade social e modo como ela deseja ser tratada.
A roupa é uma forma de linguagem, faz parte da necessidade de ver e ser visto. Ela fornece uma insinuação visual para a cultura da classe social do usuário. É importante salientar que a compra de uma peça do vestuário é na verdade um ato complexo e cheio de significações.
Para Pitombo (2003), a moda, enquanto manifestação simbólica, refere-se ao significado sugerido pela indumentária, sendo que a noção do que realmente a roupa revela é muito singular em relação àquele que a veste. Ou seja, em muitas situações, a indumentária, ao invés de tornar transparente, esconde e camufla, criando muitas vezes uma falsificação do eu, não se deixando ver que se realmente é, mas o que se gostaria de ser, como no caso mencionado no início deste artigo.
Por exemplo, uma mesma mulher, pela manhã, por ser vista vestida ao estilo executivo ao caminho do trabalho; no fim da tarde, vestindo-se em estilo active wear para ir à academia e, a noite, em estilo clubber para ir à boate. As pessoas escolhem as roupas para transmitir uma mensagem; em um mesmo dia a mesma pessoa pode usar vários estilos, adequando-se ao grupo com qual vai se relacionar, ou até, à mensagem ou impacto que deseja transmitr ou provocar.
Atualmente a moda é um reflexo do fim das identidades fixas. Como pode se perceber no exemplo, o indivíduo pode participar de vários grupos ou “tribos” através da escolha pessoal do que vai vestir e do que quer transmitir.
Mendonça (2003), afirma que a moda é a comunicação do século XXI, pois estipula os horários e os estilos dos programas a serem transmitidos pelos veículos de comunicação de massa, especialmente a televisão; dita o visual dos apresentadores e cria todo um clima de “sedução da moda”, ou seja, dita a moda e seduz os consumidores. Neste ambiente de sedução, através da comunicação de massa, vendem-se sonhos e criam-se costumes que, em pouco tempo, tornam-se necessidade de todos.
Outros aspectos interessantes para análise referem-se à moda e seu contexto simbólico: o modo como as griffes vendem a moda como um sonho de consumo, a venda de um ideal imaginário, as telenovelas e as suas influências na moda popular.
Bérgamo (1998) escreve que a característica principal da disposição das peças do vestuário nas vitrines dos shoppings-centers é a composição de conjuntos. Dependendo da promoção da loja, uma saia pode vir acompanhada de um cinto ou um sapato: a imagem de uma vitrine é sempre a composição de um conjunto e nunca simplesmente de uma única peça.
As lojas dos shoppings vendem peças que podem formar conjuntos, não necessariamente da mesma marca, com a idéia principal de vender um estilo. As lojas de griffe, não colocam somente suas roupas à venda, elas tem o objetivo principal de vender um ideal, um sonho de consumo, agregando valor à marca e, conseqüentemente, às roupas que vendem.
Em resumo, vemos que a moda representa uma das muitas formas em que arte e corporalidade combinam-se para formar um “projeto corporal” (Pérez, 2006) de alteração das formas naturais do corpo para transmitir mensagens. Certamente, a arte a que se referia o noivo decepcionado da história do início do artigo incluía, também, peças de vestuário cuidadosamente planejadas para produzir no corpo da noiva o efeito desejado. Nos próximos artigos desta série abordaremos essas outras formas de arte corporal.
Referências:
ARAGÃO, Mariana. Entrevistas. Disponível em: <http://www.santamoda.com.br/revista/entevista_AnaMerydeCarli.htm>. Acesso em: 17 fev. 2003.
BERGAMO, Alexandre. O campo da moda. 1998, v.41, p.137-184. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77011998000200005&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0034-7701. Acesso em: 14 maio 2003.>
MENDONÇA, Flávia Vasconcelos de. Moda é a comunicação do século XXI. Disponível em: <http://www.dominiofeminino.com.br/moda/flavia_moda.htm>. Acesso em: 10 mar. 2003.
MONTEIRO, Gilson. A metalinguagem das roupas. Disponível em:
<http://bocc.ubi.pt/pag/monteiro-gilson-roupas.html>. Acesso em: 18 fev. 2003.
PITOMBO, Renata. A moda enquanto manifestação simbólica. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/sentido/moda.html>. Acesso em: 07 maio 2003.
SOUZA, Maria Luiza Feitoza de. Grupo de estudos de semiótica da moda. Disponível em: <http://www.pucsp.br/pos/cos/moda/resenha.htm>.Acesso em: 28 fev. 2003.
