
por Victor Mora
Ela era, sendo a mais velha da vizinhança, a que liderava os menores nas brincadeiras e, ocasionalmente, tomava conta dos pequeninos por uns trocadinhos.
Era ela também a mais traquinas dentre eles todos, e a que ensinava aos outros os piores palavrões e conduta, razão pela qual era adorada por eles, como uma rainha.
Ocupações perigosas eram sua especialidade. Ela que, heroicamente, assumia a culpa por todos os malfeitos, acostumada que estava em enfrentar as consequências por seu mau comportamento.
Ela, que andava com um bracelete de localização preso às canelas, medida imposta pelo juiz de menores depois da ducentésima vez em que ela arrumou problemas na escola, envolvida quer estava com a fina flor da delinquência infantil local.
Sua mãe, uma ex-viciada em crack, numa luta diária para não cair de novo nas garras do vício, apegando-se as atividades comunitárias da igreja local como um náufrago a uma bóia tentava, sem muita experiência dar å filha alguma orientação, embora sem qualquer convicção de sucesso, posto que os dois filhos mais velhos estavam cumprindo pena em prisão estadual, o que atestaria sua incompetência em educar a prole.
Ela, que linda em sua negritude, alta e magra como uma dessas top models, rosto de anjo com lábios carnudos e olhos amendoados emoldurados por cílios tão definidos que pareciam postiços, tinha tudo para, de acordo com as observaçoes dos idosos da comunidade que, de suas cadeiras espalhadas na calçada, observavam-na brincar com os mais novos, tinha tudo para virar presa de um dos bandidos da região, ter filhos antes de completar a maioridade apenas para vê-los entregues ao sistema e terminar como os irmãos, vendo o sol nascer quadrado.
Ele, um tanto mais novo que ela, fazia parte do grupo de meninos que, amigos de meu menino do meio, viviam aqui em casa, meu apartamento sendo como um extra-cõmodo de sua prórpria casa, especialmente durante as férias escolares.
Ele, que muitas vezes eu vi correr escada abaixo e escada acima, para quem eu mantinha um jogo extra de lençóis e toalhas, nunca sabendo onde ele passaria a noite, se na minha casa ou na de sua mãe.
Ele, a quem muitas vezes me surpreendi chamando a atenção, da mesma maneira com que costumo chamar a atenção dos meus próprios filhos. Ele, infinitamente mais educado, organizado e prestativo do que meus rebentos dentro de minha casa.
Ele que, quando meu mais novo nasceu, passava horas brincando com ele, mais terno e carinhoso do que o próprio irmão.
Cuja mãe, também batalhando o vício, mas sem muito sucesso, apesar de amá-lo e fazer o melhor que sabia para educá-los decentemente, muitas vezes se comportava pior do que os filhos, não raro agindo como se fosse ela a cria e, o menino, seu pai… E pai dos irmãos mais novos.
Um menino cujo pai só quis conhecê-lo quando estava å beira da morte, que ocorreu dias depois do primeiro encontro.
Alguém que eu vi crescer, brincar, rir, mas também ter medo, chorar, explodir em zanga e encolher-se em tristeza.
Seis anos se passaram desde que eu me mudei para essa vizinhança. Nesse tempo, muita coisa mudou, pessoas se mudaram, novas e velhas caras se misturam, a vizinhança hoje bem mais tranquila do que antes.
A menina, cuja família se tinha mudado há dois anos para o outro lado da cidade, meu marido encontrou-a ontem. No trabalho.
Com 21 anos, linda como sempre, acabou de se casar com um sujeito honesto, e tendo, ao contrário do que se pensava, terminado o segundo grau em vez de engravidar na adolescência, trabalha no mesmo campo que meu marido, tomando conta de deficientes mentais, estudando para se tornar assistente social, sem a menor intenção de trazer criancinhas ao mundo antes de atingir seus objetivos.
O menino, hoje com 18 anos recém-completos, partiu-me o coração. Nos intervalos entre o trabalho no clube local como salva-vidas e os cuidados com o seu filho recém nascido, cuja mãe tem apenas 15 anos, ainda brinca de baseball no quintal de casa, com os mais novos. Como o menino que ainda é. Como o menino que sempre foi… Precocemente assumindo (ou sendo imposto) responsabilidades de adulto.
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