Lavando o passado… deixando quarar

Lavadeira por Enrico Bianco

Lavadeira por Enrico Bianco

por Sônia (Anja Azul)

“Ensaboa mulata ensaboa ensaboa ….Tô ensaboando!”
Mamãe era inventiva na hora do aperto tinha a saída.
Lavava roupa “pra fora”.
Com água do poço de água salobra.
Memórias de um imenso quarador gramado coberto de roupas rebrilhando ao sol cheiro de sabão hummmm anis…. bonequinhas de anis (ou seria anil?).
Meu sonho era conseguir pegar umas e brincar.
Difícil mesmo. Melhor era me contentar em roubar colheradas do leite em pó doado pela Legião e guardado a sete chaves…
A noite vinha o melhor…
A mãe na frente e eu e o mano atrás…vamos equilibrando trouxas de roupa cheirosa pra entregar…
Atravessar o campo deserto… no escuro… uma façanha.
Mano sempre zombando cutucando… jogando pedrinhas e gritando òia a cooobra! Só pra me ver gritar!
Mãe resolvia…distribuía dois cascudos com uma só mão.
Era pra já!
Mas aquela noite não foi legal.
Chegando lá, madame cismou: Tá faltando uma camisa.
Mamãe acabrunhada!
Eu detestava que humilhassem minha mãe.
E agora?
Se dependíamos do pagamento pra jantar aquela noite?
Ai que remorso! Fizemos tanta folia no caminho…
Será que deixamos cair?
Voltamos… tateando no escuro daquele campo sem fim… onde onde?
- Mamãe não chora que a gente acha!
Achamos não.
Era dormir sem comer… esperar o dia raiar.
Cedo… bem cedo… Ela sozinha achou… a bendita camisa trouxe pra casa relavou… passou…
E foi entregar com orgulho.
E a vida seguiu seu curso.

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