
Open Book por Darren Thompson.
Estou um tanto comovido como quem lê “Meu pé de laranja lima”. Pudera. Leio “Meu pé de laranja lima”. Leio em voz alta para mim e para minha mãe. Ela consegue entender alguns fatos que acontecem e têm lá um vocabulário que eu só alcancei no dicionário, e ela na vida.
Estava ainda há pouco na cozinha, eu num banco, minha mãe no outro do outro lado da mesa. Na casa que meu pai construiu no final da vila, na rua principal onde passam carros, e carros, e ônibus para todos os lugares. Colocar-nos morando ali foi uma vitória de meu pai. Casa própria, quatro quartos, terraço que era para brincar e seria para colocar mesa de sinuca, e totó, e pingue-pongue. Pra lá com essas definições físicas da casa quando dentro de nós não era uma cozinha, era uma capela, um velório e os natais.
Ela lembrou de um natal ingrato que passamos, do qual eu não tenho lembrança mesmo com as descrições feitas. Meu pensamento girou pelo capitalismo durante a leitura e durante as recordações de minha mãe. Passeei pelas injustiças do mundo no que fotografava as ocorridas no livro e nas lembranças de minha mãe. Tristezas escondidas de minha infância e absorvidas agora por este homem de 31 anos.
Ela tratava de alguma coisa sobre o desejo de meu irmão ter uma bicicleta e o contentamento de minha irmã com um biquíni, eu ganhei outro presente. Não sabemos mais desse se era um jogo, um carrinho… Pelo que sei, nunca amanheci um aniversário de cristo com sapatos vazios.
Meu pai, quando ainda era vivo, claro!, tinha um abatedouro, onde minha mãe e meu irmão trabalharam certo tempo, por volta deste mencionado natal. Que danada essa saudade de meu pai! e de vivências das quais fui somente figurante, e que à minha mãe pode vir como veio, através desse meu novo hábito de ler para ela. Que estado de caridade entramos quando estamos comovidos! Deu-me uma vontade de “Che Guevara”. É fato que isso passa e torno a velha rigidez que habito de cabelos brancos.
Algumas pessoas dizem “Contente-se, há quem esteja pior.”. Então é isso? Alegria de pobre é pensar que há outro pior. Sou feliz por não ter um braço se olho para outro que não têm dois? Eu não consigo. Mas também sei que tristeza não resolve nada. Como eu mesmo já disse: chorar não é caridade ao mundo. Tenho uma virtude que é procurar transformar essas energias em coisa úteis. Quase nunca as encontro, as coisas úteis, para pô-las em prática. Comumente que faço é escrever à deriva nessas emoções.
As pessoas batem palmas para mim por eu ter entrado na universidade, todavia eu não vejo perspectivas financeiras. Na verdade eu detesto falar de finanças, detesto falar da intenção de ficar rico. Ela é tão corriqueira. Prefiro pensar em melhorias. Disso tudo de que vale imaginar que meu pai também estaria feliz diante seu filho universitário? Meu pai já não está mais aqui para abrir-me um sorriso. Há quem tenha perdido o pai e a mãe para que eu fique feliz? De idéias assim tentam imbuir-me alguns amigos. Querem mais? Eles são inocentes, têm suas formas, por mais que a mim pareçam grotescas, de consolar-me. Também quero ser bobo e inocente. Desconhecer o gosto do café para quando não tiver dinheiro.
Sinto muitas saudades de meu velho pai e agora de tudo que, apenas imagino, poderíamos viver.
Na universidade ouço falar que a razão deve predominar, ouço a necessidade científica disso. Todavia, minha ciência diz que a emoção deve ser servida pela razão. A inteligência deveria constituir um atalho para a felicidade. Mais vale adiantar à emoção, que é o que somos; que à razão que é o que calculamos ser.
Voltando para o livro: Será que encontrarei no pé de alguma coisa um consolo eficaz ou, mais que isso, uma razão para a vida? Não creio, a infância se foi e nela algumas imaginações me foram roubadas. Continuo sendo um rapaz seco e com alguns pensamentos taciturnos. Descrever-me pelos que me olham… Não sei de nada, queridos. Tenho trinta e um anos. Isto é tudo sobre mim. Se eu tiver uns inimigos… é possível que eles tenham certeza sobre algumas características minhas.