“… a mente dos homens endurecera-se, passando a crer que havia um Deus, um mundo, um modo de descrever a realidade, que todas as coisas que se intrometessem no reino dessa grande unidade tinham que ser más e demoníacas, e que o som de seus sinos e a sombra de seus lugares santos manteriam o mal afastado.”
Morgana das Fadas
Marion Z. Bradley – 1986

En el jardin por Mary Cary
Podemos perceber, através de alguns mitos que cercam o universo feminino que, desde a criação do mundo, ou melhor, desde que o homem tomou consciência de si, as instâncias culturais, econômicas, religiosas políticas e sociais, foram moldando o papel do homem e da mulher, fazendo desta última, ora endemoniada, ora divinizada. No entanto, as mulheres só assumiram papéis de contribuintes ativas da vida intelectual em alguns momentos históricos, em tempos de crise e descentralização da Ordem vigente.
Mito e história, realidade e sonho, passado e presente, fundem-se, muitas vezes, em nossas histórias de vida; o imaginário serve de ligação entre a realidade interna e externa da pessoa. Mesmo que os produtos da imaginação sejam elaborados a partir de informações armazenadas na memória, elas são resultados de projeções que o sujeito cria a partir de conteúdos memorizados. Quando tais imagens criam conflito com algum valor ou atitude consciente, enterramos nas profundezas do inconsciente tais imagens; e novos modelos e imagens tomam o lugar delas.
Cada imagem primordial leva em si uma mensagem que interessa diretamente à condição humana, porque desvenda aspectos da realidade última, de outra forma inacessíveis.
Seguindo o pensamento psicológico desenvolvido por C.G. Jung, tais imagens são consideradas como “arquetípicas”, sendo o Arquétipo uma forma preexistente que integra a estrutura herdada da psique, comum a todas as pessoas. Estas estruturas psíquicas são dotadas de uma forte densidade emocional. Jung também chamava os arquétipos de imagens primordiais, porque elas correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes.
Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os arquétipos, como elementos estruturais formadores que se firmam no inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.
Uma enorme variedade de símbolos pode ser associada a um dado arquétipo. O arquétipo materno, por exemplo, compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Deméter, Virgem Maria, Mãe Natureza), e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O arquétipo materno inclui não somente aspectos positivos, mas também negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto arquetípico estava convertido na imagem da bruxa.
Entretanto, várias questões permanecem no ar. O que aconteceu à nossa compreensão da deusa, do feminino divino nos tempos atuais? Por que a sexualidade feminina é tão explorada, tão degradada, se outrora fora reverenciada? E porque será a sexualidade desvinculada da espiritualidade, como se fossem extremos opostos? O que aconteceu à evoluída consciência da espécie humana quando os homens deixaram de venerar a deusa do amor, da paixão e do sexo?
Para entender a importância do mal que recaiu sobre a mulher é necessário uma visão, ao menos mínima da História da Mulher, no contexto da história humana geral. Segundo os antropólogos, o ser humano habita a Terra há mais de dois milhões de anos, sendo que mais de três quartos deste período o homem passou nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais, não havendo a necessidade de força física para a sobrevivência. Nessas sociedades, que em nosso tempo ainda existem – Mahoris, na Indonésia; Pigmeus, na África Central – as mulheres ocupam um lugar de destaque.
Nesses grupos, que são os mais “primitivos” que existem, a mulher é ainda considerada um ser sagrado, porque pode dar a vida e, portanto, ajudar na fertilidade da terra e dos animais. Aqui, o princípio feminino e o masculino governam o mundo juntos. Havia a divisão do trabalho entre sexos sem haver desigualdade.
A supremacia masculina se inicia nas sociedades de caça aos grandes animais, onde a força física é essencial. Mas em nenhuma dessas sociedades se conhecia a função masculina na procriação, continuando a mulher a ser considerada um ser sagrado, pois podia, graças aos deuses, reproduzir a espécie. Com isso os homens se sentiam “marginalizados” nesse processo e invejavam as mulheres.
A “inveja do útero”, dava origem a dois ritos: o primeiro é o Couvade, que consiste no fato de a mulher começar a trabalhar dois dias após dar à luz, enquanto o homem fica em casa de resguardo, com a criança, recebendo as visitas. O segundo é a Iniciação dos Homens: na puberdade eles são arrancados pelos homens às mães para serem iniciados na “Casa dos Homens”. Este ritual é a imitação cerimonial do parto, com objetos de madeira e instrumentos musicais. Desse dia em diante, o homem pode “parir” ritualmente.
Enquanto a mulher detinha o “poder biológico”, o homem foi desenvolvendo o “poder cultural” à medida que a tecnologia foi avançando. Essas sociedades “primitivas” tinham de ser cooperativas e, portanto, não havia coerção ou centralização, mas rodízio de lideranças, e as relações entre homens e mulheres eram mais fluidas do que viriam a ser nas futuras sociedades patriarcais. Nos grupos matricêntricos, as formas de associação entre homens e mulheres não incluíam nem a transmissão do poder, nem a herança, por isso a liberdade sexual era maior. Também quase não existiam guerras, pois não havia pressão populacional pela conquista de novos territórios.
É somente nas regiões em que a coleta é escassa que começam a se instalar a supremacia e a competitividade entre os grupos na busca de novos territórios. Agora, para sobreviverem, as sociedades têm de competir entre si por um alimento escasso. As guerras, agora constantes, passam a ser mitificadas. Os homens mais valorizados são os heróis guerreiros. A harmonia que ligava o homem à natureza começa a se romper. No entanto, a lei do mais forte ainda não se instala de todo, pois o homem ainda desconhece sua função procriadora, conservando ainda à mulher, poder de decisão.
O homem só começa a dominar a sua função biológica reprodutora e, consequentemente, a sua e a sexualidade feminina no decorrer do Período Neolítico. Aparece, então, o casamento, em que a mulher é propriedade do homem e a herança é transmitida através da descendência masculina. Isso já ocorre nas sociedades pastoris descritas na Bíblia.
Nesta época, o homem já havia aprendido a fundir metais e. à medida que aperfeiçoava essa tecnologia, começavam a fabricar armas mais sofisticadas como também instrumentos que permitem cultivar melhor a terra, como o arado. As mulheres foram as primeiras humanas a descobrirem os ciclos da natureza, pois podiam compará-los aos ciclos do próprio corpo. Porém foram os homens que, a partir da invenção do arado, sistematizaram as atividades agrícolas, iniciando, assim, a era agrária.
Para poderem arar a terra, os agrupamentos nômades são obrigados a se tornar sedentários. Começam a se estabelecer, assim, as primeiras aldeias, depois as cidades, as cidades-estados, os primeiros Estados e os Impérios. Agora já não são mais os princípios feminino e masculino que governam juntos o mundo, mas sim a lei do mais forte. Nesse contexto, quanto mais filhos, mais soldados e mais mão-de-obra barata para arar a terra, melhor. As mulheres tinham sua sexualidade rigidamente controlada pelos homens. O casamento era monogâmico e a mulher tinha, obrigatoriamente, de ser virgem. Então, a mulher fica resumida ao âmbito doméstico e perde qualquer capacidade de decisão no domínio público.
A dicotomia entre o privado e o público torna-se a origem da dependência econômica da mulher, e essa dependência gera uma submissão psicológica que perdura até hoje.