Parecia uma bonequinha

por Zélia Campestrini

Conversa entre dois arianos por Géssica Hellmann

Conversa entre dois arianos por Géssica Hellmann

Casada há apenas seis meses, fui ao laboratório fazer o teste de gravidez.
Ao pegar o resultado, decepção. Negativo.
Fiquei deveras frustrada, pois já me sentia “completamente” grávida.
Amassei o papel e joguei-o fora.
Fui ao médico.
Ele prontamente me atendeu e confirmou o que eu já suspeitava. Grávida de um mês e meio.
Cheios de alegria, meu marido e eu, contamos a todos, para que compartilhassem nossa felicidade.
Minha mãe fez-me um vestido, que eu nunca cheguei a usar. A barriga não cresceu ou, melhor, cresceu tão pouco que nem se notava. Usei até a ultima hora as mesmas roupas de antes.
Aos trintas minutos da madrugada do dia 24 de março, numa sexta-feira santa, com oito meses incompletos, rompeu-se a bolsa d’água.
Ao chegar na maternidade, a parteira olhou-me penalizada e falou:
- Mais um aborto!
Com raiva, indignada, retruquei, ríspida.
Internação. Sendo feriado, a sala de espera enchia-se de espectadores. Alguns mais nervosos do que os outros.
Todos, principalmente meu sogro, torciam para que fosse o bebê fosse um menino, o que daria continuidade ao nome da família.
Ainda bem que eu não era influenciável. Do contrário, teria entrado em pânico.
Só recebia palavras “encorajadoras”:
- Que pena!
- Não vai sobreviver.
E assim por diante.
O parto foi induzido. Depois de uma longa espera nasceu minha primeira filha. Uma menina, pequenina, parecia uma bonequinha, de tão miúda.
Eu tinha certeza que seria uma menina. Intuição de mãe nunca falha.
Géssica nasceu com 42cm e 2,150kg. Não dá para transcrever tamanha emoção.
Ao receber alta, tristeza imensa.
Não podia levar a bebê. Por ser prematura, tinha que ficar na incubadora até adquirir peso.
Chegando em casa, entrei no quarto e, ao olhar o bercinho, senti um vazio, uma dor percorrendo todo o meu ser.
Durante os 21 dias que ela ficou internada, sem falhar um dia, meu marido levava o leite materno que eu tirava durante a noite.
Finalmente pude trazer Géssica para casa. Ao dar-lhe banho, foi à primeira vez que a vi sem roupas. Era miudinha. Pesava agora só 1,800kg. Os braços eram fininhos e as pernas da grossura de um dedo polegar. Cabia numa caixa de sapatos.
Era a preferida do vovô… Ao chegar na igreja, para a missa dos domingos, não tinha para mais ninguém: vovô já a esperava na porta, ansioso por pegá-la no colo.
Ainda pequena com 10 meses de idade, surpreendi-a sentada embaixo de uma goiabeira, comendo uma suculenta goiaba dada pelo avô.
Fiquei sem ação, quando verifiquei que a fruta estava podre.
Pensei comigo mesma:
- O que não mata engorda.
Independente da goiaba estragada, Géssica desenvolveu-se a olhos vistos.
Hoje com 28 anos casada e com um filho, vive o direito sublime de ser esposa e mãe.

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