Quererá ainda, querida?

por Carolina Thomáz
(na época ainda Carolina Martins)

Despair por Charles Pfahl (óleo sobre tela - 1946)

Despair por Charles Pfahl (óleo sobre tela - 1946)

Engasgou no choro. Sorriso meia boca, meia face paralisada, garganta estática e lábios trêmulos. Voz quieta e sem tempo de orgulhar-se de qualquer coisa que não enxergara com a neblina de lágrimas no globo ocular. Observando o nada dentro de si mesma. Qualquer nada é esperançoso quando se tem algo dentro, seja fé ou dose de arrogância polida. E quando o nada é dentro? Ocupava tão grande e estufado lugar que preenchia o equivalente à sua arrogância em pensar ganhar qualquer aposta. Agora era apenas neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largada. No nada um único pensamento desponta pra alivio literal. – “Porque falaram pra engolir as lágrimas se garganta não chora?”. Bilhete em mãos e ódio no olhar. Começa a andar sem nada poder conter…

[Noite]

Lugar qualquer. Bar – casa de quem mora na estrada. O espaço presente. Não há detalhe capaz de criar vida nesses casos. Um ser a mais. Aparência prepotente, andar instintivo, fala firme e olhar estaca! Sentia prazer enorme quando o instinto cru-primitivo tomava proporção de pulsos contínuos, assim caminhava anestesiada deixando qualquer marmanjo estático. Uma dor acostumada pode ser um problema a menos. Era de um brilho agressivo e seco.

- olha lá mais uma da vida.
- da vida nada, isso aí cheira único perfume, e não é alfazema. Isso aí cheira encrenca. Na certa tá de campana.

Aquela mulher, um animal impiedoso. Ela era algo diferente e insólito, alguém que sentia as sensações físicas mais que os outros. Sentia-se suja, impura. Largada em estrada estranha, era o que dizia de si mesma quando o assunto era nacionalidade. E assim não havia obediência para pedido qualquer, vez que nunca perdera uma jogada de sorte.

Conquistava as vítimas com tamanha habilidade, e sempre fora fascinante observá-la seja pra conseguir um trago ou um quarto para aquecê-la. E nunca precisara estar acompanhada nem pra conquista e nem pra conquistar. O tiro reluzente amedrontava pela beleza. Seus olhos eram estacas. Por opção, nunca dormira sozinha. Raras noites que passara sozinha e essas nunca eram em aposentos, mas sim perambulando. Como quem cai em estrada seca e excita-se com a sensação de queimar a pele no solo. Ali ficava ate chegar dia. Uma sem vergonha com orgulho. Bastava uma levantada de sobrancelha e o recado estava dado: – tá esperando o quê?

- Tá esperando o quê homem?
- uma tacada que faça a noite a vale sair de casa, baby!
- o que eu ganho quando ganhar de você?
- escolhemos assim que eu ganhar de você. – chega perto dela e assopra algo que só eles poderiam entender.
- Fechado!
- ah não brinca comigo mulher?
- eu nunca brinco com esse assunto! – ela agora era outra que não aquela mulher apenas atraente. Sua voz seca mesclava o olhar sem desvio da vitima.

Ele arregala um olhar descrente da certeza daquela mulher. Observa o jeito que ela segura o taco, o olhar que não desviara dele um único segundo, os golpes bruscos das jogadas. Pensa de que lugar viera àquela mulher capaz de jogadas que só homem de estrada realiza com tamanha escrotidão.

- Que cara é essa? Dentro de um quarto ninguém tem nada a perder – ela fala sorrindo sarcasticamente o gosto da vitória. – Ou tem? Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes?

Agora sim ela era puro deleite promiscuo volátil. Tão dedicada ao próprio prazer quando a arte era sexual que acabara o sorriso desbravador já com o corpo inclinado, roçando o seio no corpo daquele desconhecido, e rindo de seu olhar assustado. E assim ficaram até os corpos caírem exaustos num sono profundo.

O sol, de estradas quentes, invade o quarto vazio. No corpo do homem marcas da noite incessante. Seus olhos descrentes e nó na garganta. No travesseiro ao lado o orgulho ferido num papel vagabundo: “Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes?”.

Engole as lágrimas na garganta que já chora raivosa. Não há marca do pneu do seu carro pra provar que fora largado na estrada de lugar algum. Esconde as marcas do corpo na vergonha do assalto. Curvado na guia quente, sobrou só a neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largado, e um bilhete na mão.

Na delegacia os berros de uma mulher que, assim como ele, fora largada na estrada restando apenas um bilhete na mão feito em papel vagabundo: “Quererá ainda, querida?”.

* Publicado anteriormente no site Patife em: “Meninos Não Choram”.

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