Scientia Sexualis

por Géssica Hellmann

Lovers Embracing, Folio from an Erotic Manuscript India, Madhya Pradesh, Malwa, South Asia circa (1660) (Detail)

Lovers Embracing, Folio from an Erotic Manuscript India, Madhya Pradesh, Malwa, South Asia circa (1660) (Detail)

Como já foi dito antes, o discurso sobre o sexo tem se intensificado, nos últimos três séculos, como forma de implantação de um “controle da sexualidade”, uma forma de controle populacional com objetivos políticos e econômicos.

Foucault afirma que Freud e outros cientistas teóricos, em seus discursos sobre o sexo, não fizeram mais do que ocultar, considerando as análises detalhadas, referindo-se sobretudo às aberrações, extravagâncias, como procedimentos destinados a esquivar a verdade excessivamente perigosa sobre o sexo. A ciência dessa época era subordinada à moralidade, cujas classificações reiterou sob a forma de ordens médicas.

Favorecendo com isto uma prática médica indiscreta, involuntariamente ingênua e voluntariamente mentirosa, ativa e provocadora, essa medicina instaurou toda uma “licenciosidade mórbida”. Em nome de uma urgência biológica e histórica, justificavam-se os racismos oficiais, então iminentes, fundamentando-os como verdade.

Foucault enfatiza que o sexo constituiu-se em um objeto de verdade através de dois grandes meios de produção histórica da verdade sobre o sexo: ars erotica e scientia sexualis.

Principalmente no oriente, na arte erótica, a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como uma prática; não por referência do que é proibido ou permitido, nem por um critério de utilidade. Ao contrário: o sexo deveria ser conhecido como prazer, segundo sua intensidade, qualidade, duração e seus efeitos no corpo e na alma. Buscava-se no saber sobre o prazer formas de ampliá-lo; a verdade sobre o prazer é extraída do próprio saber. A prática desta arte tinha o objetivo do domínio do corpo, o gozo excepcional, o elixir da longa vida.

O oposto se desenvolveu na civilização ocidental, onde se intensificou uma scientia sexualis, como meio de se dizer a verdade sobre o sexo. Esta verdade era obtida principalmente através da confissão.

A regulamentação do sacramento de penitência pelo Concílio de Latrão em 1215; o desenvolvimento das técnicas de confissão; a evolução dos métodos de interrogatório; a instauração dos tribunais de Inquisição; todos esses fatores contribuíram para dar à confissão um papel central na ordem dos poderes civis e religiosos. A confissão passou a ser, no ocidente, extremamente valorizada. Desde a penitência cristã até os dias de hoje, o sexo tem sido assunto privilegiado na confissão. Sendo este ato, em que se ligam a verdade e o sexo, a expressão obrigatória e exaustiva de um segredo individual.

Utilizando de métodos similares, com um objetivo “científico”, médicos e teóricos se utilizaram da confissão para elaborar seus discursos sobre o sexo. A confissão constituiu, progressivamente, um grande arquivo dos prazeres do sexo. Durante séculos a verdade do sexo foi encerrada nesta forma discursiva; excluída do discurso do ensino, da iniciação, passando ao largo da forma que rege a “arte erótica oriental”.

Podemos afirmar que a scientia sexualis é o correlato desta pratica discursiva sobre o sexo e sexualidade. A história da sexualidade deve ser estudada, segundo Foucault, pelo ponto de vista de uma história de discursos.

É importante saber que a ars erotica não desapareceu completamente da civilização ocidental. Existiu, na confissão cristã, todo um aparato que se assemelha à ars erotica: orientação pelo mestre, ao longo de uma via de iniciação. Mas é preciso enfatizar que a ars erotica não funciona, pelo menos em algumas de suas dimensões, como a scientia sexualis. A arte erótica, no saber ocidental sobre a sexualidade, encontra-se apenas, na sua utilização normalizadora, na sua multiplicação e intensificação dos prazeres ligados à produção da verdade sobre o sexo. Essa produção de verdade, mesmo intimidada pelo modelo científico, pode ter até intensificado seus prazeres intrínsecos.

Muito mais do que um mecanismo negativo de exclusão ou de rejeição, trata-se da colocação em funcionamento de uma rede sutil de discursos, saberes, prazeres e poderes. O autor conclui que estudar esse mecanismo, é essencial para compreender as estratégias de poder imanentes a essa vontade de saber, constituindo uma “economia política” desta vontade.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição

Outros artigos sobre a História da Sexualidade: Parte I, Parte II.

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