
Lovers Embracing, Folio from an Erotic Manuscript India, Madhya Pradesh, Malwa, South Asia circa (1660) (Detail)
Como já foi dito antes, o discurso sobre o sexo tem se intensificado, nos últimos três séculos, como forma de implantação de um “controle da sexualidade”, uma forma de controle populacional com objetivos políticos e econômicos.
Foucault afirma que Freud e outros cientistas teóricos, em seus discursos sobre o sexo, não fizeram mais do que ocultar, considerando as análises detalhadas, referindo-se sobretudo às aberrações, extravagâncias, como procedimentos destinados a esquivar a verdade excessivamente perigosa sobre o sexo. A ciência dessa época era subordinada à moralidade, cujas classificações reiterou sob a forma de ordens médicas.
Favorecendo com isto uma prática médica indiscreta, involuntariamente ingênua e voluntariamente mentirosa, ativa e provocadora, essa medicina instaurou toda uma “licenciosidade mórbida”. Em nome de uma urgência biológica e histórica, justificavam-se os racismos oficiais, então iminentes, fundamentando-os como verdade.
Foucault enfatiza que o sexo constituiu-se em um objeto de verdade através de dois grandes meios de produção histórica da verdade sobre o sexo: ars erotica e scientia sexualis.
Principalmente no oriente, na arte erótica, a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como uma prática; não por referência do que é proibido ou permitido, nem por um critério de utilidade. Ao contrário: o sexo deveria ser conhecido como prazer, segundo sua intensidade, qualidade, duração e seus efeitos no corpo e na alma. Buscava-se no saber sobre o prazer formas de ampliá-lo; a verdade sobre o prazer é extraída do próprio saber. A prática desta arte tinha o objetivo do domínio do corpo, o gozo excepcional, o elixir da longa vida.
O oposto se desenvolveu na civilização ocidental, onde se intensificou uma scientia sexualis, como meio de se dizer a verdade sobre o sexo. Esta verdade era obtida principalmente através da confissão.
A regulamentação do sacramento de penitência pelo Concílio de Latrão em 1215; o desenvolvimento das técnicas de confissão; a evolução dos métodos de interrogatório; a instauração dos tribunais de Inquisição; todos esses fatores contribuíram para dar à confissão um papel central na ordem dos poderes civis e religiosos. A confissão passou a ser, no ocidente, extremamente valorizada. Desde a penitência cristã até os dias de hoje, o sexo tem sido assunto privilegiado na confissão. Sendo este ato, em que se ligam a verdade e o sexo, a expressão obrigatória e exaustiva de um segredo individual.
Utilizando de métodos similares, com um objetivo “científico”, médicos e teóricos se utilizaram da confissão para elaborar seus discursos sobre o sexo. A confissão constituiu, progressivamente, um grande arquivo dos prazeres do sexo. Durante séculos a verdade do sexo foi encerrada nesta forma discursiva; excluída do discurso do ensino, da iniciação, passando ao largo da forma que rege a “arte erótica oriental”.
Podemos afirmar que a scientia sexualis é o correlato desta pratica discursiva sobre o sexo e sexualidade. A história da sexualidade deve ser estudada, segundo Foucault, pelo ponto de vista de uma história de discursos.
É importante saber que a ars erotica não desapareceu completamente da civilização ocidental. Existiu, na confissão cristã, todo um aparato que se assemelha à ars erotica: orientação pelo mestre, ao longo de uma via de iniciação. Mas é preciso enfatizar que a ars erotica não funciona, pelo menos em algumas de suas dimensões, como a scientia sexualis. A arte erótica, no saber ocidental sobre a sexualidade, encontra-se apenas, na sua utilização normalizadora, na sua multiplicação e intensificação dos prazeres ligados à produção da verdade sobre o sexo. Essa produção de verdade, mesmo intimidada pelo modelo científico, pode ter até intensificado seus prazeres intrínsecos.
Muito mais do que um mecanismo negativo de exclusão ou de rejeição, trata-se da colocação em funcionamento de uma rede sutil de discursos, saberes, prazeres e poderes. O autor conclui que estudar esse mecanismo, é essencial para compreender as estratégias de poder imanentes a essa vontade de saber, constituindo uma “economia política” desta vontade.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição
Outros artigos sobre a História da Sexualidade: Parte I, Parte II.