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Com vários anos de trabalhos e estudos no campo da sexologia e da psicanálise, uma definição simples e direta para o termo “energia biopsíquica” ainda não havia sido formulada. Retomando o ponto de partida da teoria do orgasmo, “as neuroses e as psicoses funcionais são sustentadas por uma energia sexual excessiva e inadequadamente descarregada”. O que se sabia, entretanto, é que elas estavam enraizadas (encouraçadas) no corpo. Reich afirma que, apesar dos avanços de Freud, a ciência oficial não queria saber nem se posicionar a respeito da sexualidade.

por Erin Prucha
Reich tratou de um paciente, em 1933, que apresentava resistência à revelação de suas fantasias homossexuais. Esta resistência era expressa principalmente pela rigidez (encouraçamento) do pescoço. “Durante três dias, foi abalado por aguda manifestações de choque vegetativo”. De pálido mudava rapidamente de branco para amarelo ou azulado, a pele ficou manchada de cores diferentes, sentia dores no pescoço e atrás da cabeça, aumento de batimento cardíaco, diarréia. O aparente “pescoço rígido”, até então, mantinha presas suas energias vegetativas que se soltavam agora de forma caótica e descontrolada. “A energia da vida sexual pode ser contida por tensões musculares crônicas”.
Reich então tinha confirmado algo importante: “se a couraça de caráter podia ser expressa pela couraça muscular, e vice-versa, então a unidade de funcionamento psíquico e somático havia sido entendida de princípio e podia ser influenciada de maneira prática”.
A liberação das tensões musculares produzia sensações corporais como tremores, contrações de músculos, impressão de alfinetadas, frio, calor, excitação nervosa, angústia, cólera e prazer.
Reich sentia que algo mais além da corrente sangüínea provocava este “aperto no peito” (angústia). Seguindo estes pensamentos, Reich chegou à noção de “bioeletricidade”.
Baseando-se nos experimentos do médico berlinense Krauss, que verificou que o corpo seria governado por processos elétricos, Reich seguia na comprovação de sua fórmula do orgasmo: tensão > carga > descarga > relaxação.
A tensão sexual é sentida no corpo todo, mais fortemente expressa nas regiões do coração e do abdômen. A excitação se concentra gradualmente nos órgãos genitais, que se tornam congestionados com sangue, atingindo com cargas elétricas a superfície dos genitais. Um toque em uma parte do corpo pode excitar outras áreas do corpo. O processo de fricção aumenta a tensão até atingir o orgasmo (descarga elétrica) seguida de relaxação.
Este conceito leva Reich novamente para a idéia de uma bexiga elástica cheia. A bexiga elástica teria um mecanismo de carga operando automaticamente no centro, seria carregada espontaneamente a partir de seu interior, a carga poderia ser maior em algumas áreas e menor em outras. Dentro da bexiga, as cargas elétricas estariam em constante movimento, mas uma direção prevaleceria do centro para fora. Se a energia interna se torna grande demais, a bexiga poderia, contraindo-se, descarregar a energia para fora.
Fazendo uma comparação da bexiga com o corpo animal, Reich constatou que o corpo animal no mais baixo estágio de desenvolvimento possui um mecanismo que gera eletricidade a partir do centro para a periferia. São os chamados gânglios vegetativos, células nervosas ligadas a todos os órgãos do corpo que se dividem em sistemas “simpático” e “parassimpático”.
“Nossa bexiga imaginária pode expandir-se e contrair-se. (…) Se nos esforçássemos realmente por manter uma pressão constante sobre a superfície toda, i.e., impedindo-a de expandir-se apesar da continua produção interior de energia, ficaria em um perpétuo estado de angústia”. (Reich, 1991)
A bexiga sentindo-se incapaz de fazer algo por si mesma precisaria da ajuda de outra pessoa para aliviar esta tensão. Por exemplo, através de massagem, ginástica, furando-a se necessário (fantasia de estar sendo aberta em furos), machucando-se (fantasia masoquista) e se nada resolvesse, destruindo-a (morte sacrifical). Reich, ao utilizar este exemplo, fazia a comparação com a neurose da sociedade do século XX.
Segundo Reich, esta bexiga encouraçada teria uma atitude estranha e hostil em relação a ela. Sentiria-se muito especial, uma raça superior pelo simples fato de usar um uniforme e um colarinho. A natureza seria considerada “vil”, “impulsiva”, “demoníaca”. Ao mesmo tempo, a bexiga sentiria em si os vestígios desta natureza: associar a natureza a convulsões do corpo seria blasfêmia. Assim mesmo, criaria industrias de pornografia, sem perceber a contradição.
No campo da fisiologia a idéia de uma bexiga encouraçada se confirmava pelo fato que os músculos se contraem espontaneamente e/ou por estímulos elétricos. Uma observação minuciosa na função cardíaca comprovou também que o processo de “tensão-carga” governa a função cardíaca. O resultado da carga e descarga é o vazamento do sangue através da aorta por causa da contração do coração.
Outro exemplo citado por Reich no campo da biologia é que a bexiga urinária não se contrai a fim de cumprir sua função mictória ou de poderes “divinos” ou sobrenaturais. Contrai-se simplesmente porque seu enchimento mecânico induz uma contração. Esse mesmo princípio pode ser aplicado nos termos das relações sexuais: não temos relações sexuais para gerar filhos, e sim porque uma congestão de fluido carrega bioeletricamente os órgãos genitais e pressiona em direção à descarga. “Assim a sexualidade não está a serviço da procriação; mais propriamente, a procriação é um resultado incidental do processo tensão-carga nos genitais”.
A cada novo argumento Reich “destrinchava” a neurose sexual e política vigente, como um grito ao vento de ouvidos surdos à realidade.
Bibliografia
Reich, Wilhelm. A função do orgasmo – Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo: Círculo do Livro, 1991.