
Série Tempo por André Netto
Por Sônia (Anja Azul)
Cresci cercada de relógios.
Marcando todas as minhas horas
Sobre o armário vazio nada dentro
Na mesa carcomida pelo tempo
Tic tac carregado pelo vento
foi assim uma vez outrora.
Meu pai era super…super tudo.
Funcionário público …no tempo em que as vacas eram magras…magérrimas.
O que nos salvava …dia-a-dia
era sua criatividade.
Aprendeu a consertar relógios… só olhando. Ia todos dias depois do trabalho visitar um relojoeiro, na maior cara-de-pau…e aprendia.
Criou fama…consertava qualquer relógio em casa, por mais estragado marretado que fosse.
E as ferramentas? De normal, só uma lupa de encaixar no olho.
O resto era cômico.
Cõmico se nao fosse aquilo que, às vezes, garantia alguma carne de pescoço disfarçada na polenta.
E a missão impossivel? Para chegar à porta do tal relojoeiro, tinha que lutar e usar de raciocinio e reflexos rápidos pra driblar os dois gatos angorás, intragáveis e ariscos, que faziam as vezes de guardiões do templo.
Todas as noites esperava-o ansiosa pra saber como fora mais uma aventura de meu pai herói e os terriveis gatos ninjas.
Meu pai lutando com um relógio… Armado de martelo e uma faca,
um garfo, um grampo… Altas horas da noite. Foi um precursor de “Magaiver” (é assim que se diz?).