Inicio esse artigo com uma indagação: Você sabe se é portador do vírus HIV?

Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers
Por favor não responda! Quero apenas que você, leitor, reflita sobre os sentimentos que emergiram a partir dessa pergunta, pois trata-se de uma pergunta extremamente intrusiva, que envolve uma série de pressupostos relativos à sua intimidade: atividade/inatividade sexual, com parceiros estáveis ou ocasionais, com uso ou não preservativos durante o ato sexual, questionamentos sobre a fidelidade no casamento/relacionamento, entre muitas outras questões sensíveis.
Note como é diferente perguntar se “você sabe se é portador de diabetes”?
O diabetes não é uma doença sexualmente transmissível. Logo, tende a não ser sentida como uma pergunta tão “íntima” ou “intrusiva”.
O que me leva a outra questão, extremamente grave: algum médico, já pediu a você um exame de HIV? De minha parte, respondo que o assunto nunca veio à baila no consultório médico até que eu ficasse grávida! Por quê? Será que, talvez, a pergunta não seja feita justamente para não provocar o “mal-estar” e todos os sentimentos que acarreta?
Ou será que os médicos que me atenderam ainda trabalham com a idéia superada de “grupo de risco” e, conseqüentemente, julgaram improvável que eu pudesse ter contraído a doença?
Os profissionais de saúde são unânimes em afirmar que não existem mais “grupos de risco”. Cito, como exemplo, o caso de uma senhora a quem entrevistei, portadora de HIV/AIDS, que acaba de celebrar 80 anos de idade.
Ela afirmou que seu clínico achava que “idosos não pegam AIDS.” Ela teria se infectado aos 70 anos de idade, com seu namorado. Ela atribui à “pílula azul” e às próteses de silicone um aumento na atividade sexual do idoso – grupo definido pelo IBGE como a população a partir dos 60 anos de idade – o que os teria deixado tão expostos ao risco de infecção pelo HIV quanto os mais jovens.
Segundo Parker e Aggleton (2001) “ao longo de duas décadas, enquanto os países, em todo mundo, lutam para dar resposta à epidemia de HIIV/AIDS, as questões do estigma, da discriminação e da negação vêm sendo alguns dos dilemas mais mal entendidos e mais persistentes enfrentados pelo desenvolvimento dos programas de saúde e educação públicas”.
Porque a realidade do HIV/AIDS parece tão fora do nosso círculo “familiar”? É importante enfatizar que, quando o assunto abrange AIDS, o corte na pirâmide socioeconômica é vertical. A AIDS atinge todos os segmentos da população, por qualquer crítério que se queira adotar: sexo, idade, profissão, classe social, grau de instrução, etnia, religião.
Nesses últimos dois anos, realizei entrevistas com psicólogas, profissionais de saúde, jornalistas e pacientes soropositivos. Uma das declarações mais freqüentes é a de que a desinformação mata e ainda é uma das principais causas do assustador crescimento da epidemia de AIDS.
Por exemplo, é alarmante a seguinte declaração de Cláudio Oliveira, assessor de comunicação da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”: “É importante ressaltar que não há ‘cura’ para a AIDS. Um grande problema é que muitas pessoas, não tão bem informadas, ao receberem fragmentos de informação na mídia, ficaram com a impressão de que a AIDS se tornou uma doença crônica, parecida com o diabetes. As pessoas pensam que você passa o resto da vida tomando o remédio e tudo bem, não vai morrer da doença. Só que, em nenhum momento, recebe o devido destaque a realidade das infecções oportunistas, dos efeitos colaterais fortíssimos dos medicamentos… Há casos de pessoas que vêm a falecer em função desses efeitos colaterais”.
É importante entendermos como o processo de estigmatização, descriminação e negação funciona no meio social. O Brasil é considerado país-modelo no terceiro mundo em combate a epidemia de AIDS. Então porque a epidemia continua crescendo assustadoramente, não só no Brasil, como em outros países?
Gaiarsa (2006) sugere que a “abstração e a generalização” podem ser tidas como defesas neuróticas coletivas, e que a generalização, mais vezes sim do que não, “existe a serviço da agressão”, ela é um mecanismo neurótico coletivamente criado e aceito para permitir agressão sem culpa. Um mecanismo gerador de preconceitos. O autor cita como exemplo: “os negros” (todos os negros) “não prestam”, “os judeus” (todos os judeus) “só pensam em dinheiro”, “os americanos”, “os árabes”, e assim por diante. O autor continua: “a raiz do fanatismo é esta: o agarrar-se a uma interpretação da realidade como se ela fosse a única”. Seguindo essa linha de raciocínio, a generalização pode ser a causa “inconsciente” do preconceito contra o que é diferente.
Marshall (segundo Parker e Aggleton, 2001) afirmaria que os primeiros sociólogos viam a discriminação como uma expressão de etnocentrismo ou, em outras palavras, um fenômeno cultural de “não gostar dos diferentes”. Já análises sociológicas mais recentes sobre a discriminação concentram-se em padrões de dominação e opressão, vistos como expressões de busca de poder e privilégio.
Em resumo, pode-se afirmar, segundo Parker e Aggleton (2001), que a natureza do estigma é contextual, histórica, empregada estrategicamente para produzir e reproduzir relações e desigualdades sociais.
Quando falamos da relação de sexualidade, cultura, poder e noções de diferença, parece não ser possível deixar de citar Foucault. Para Parker e Aggleton (2001), “os estudos mais influentes que Foucault fez sobre o poder, Vigiar e Punir e A História da Sexualidade, volume I: A Vontade de Saber, enfatizavam o que ele definia como novo regime de conhecimento/poder que caracterizou as sociedades européias modernas durante o final do século dezenove e começo do século vinte. Dentro desse regime, a violência física ou a coerção foram cada vez mais dando lugar ao que ele descreveu como ‘sujeição’, ou controle social exercido não através da força física, e sim pela produção de sujeitos adestrados e corpos dóceis. Ele explicou como a produção social da diferença está ligada aos regimes estabelecidos de conhecimento e poder”.
Os autores afirmam ainda que é possível ver a estigmatização desempenhando um papel-chave na transformação da diferença em desigualdade, e pode funcionar, em princípio, em relação a qualquer dos eixos principais da desigualdade estrutural interculturalmente presente: classe, gênero, idade, raça ou etnia, sexualidade ou orientação sexual, e assim por diante. Segundo, e mais importante ainda, “o estigma é empregado por atores sociais reais e identificáveis que buscam legitimar o seu próprio status dominante dentro das estruturas de desigualdade social existentes”.
Resumindo, a estigmatização está diretamente relacionada às desigualdades de poder; ela faz com que as desigualdades sociais pareçam ‘razoáveis’ e, por fim, criam e reforçam a exclusão social.
“Um foco sobre as relações entre cultura, poder e diferença na determinação da estigmatização motiva um entendimento da estigmatização e discriminação ligadas ao HIV e à AIDS como parte do que talvez possa ser descrito da melhor forma como economia política da exclusão social presente no mundo contemporâneo” (Parker e Aggleton, 2001).
Desde o início da epidemia de HIV e AIDS, mobilizou-se uma série de metáforas poderosas para reforçar a estigmatização: morte, horror, punição, crime, guerra, vergonha, acontece com “o outro”. É importante enfatizar que, antes do surgimento do HIV/AIDS, já existiam outras formas de estigmatização que, hoje, interagem com a estigmatização da epidemia de HIV/AIDS, tais como a de gênero, orientação sexual, posicão no sistema socioeconômico e raça.
Atrevo-me, então, a supor que, se essas outras formas de estigmatização já estivessem superadas, o portador do vírus HIV, poderia ser encarado como uma pessoa com diabetes ou câncer. O estigma, caso existisse, seria muito menor.
Em entrevista com a psicóloga Mariceli Bernini que trabalha no IPrA como portadores do vírus HIV, ela atesta que, como o fato de que a principal via de transmissão do virus da AIDS é o contato sexual, criam-se muitos problemas adicionais, advindos de questões culturais relacionadas à sexualidade. Se é uma mulher a portadora do HIV, ou é rotulada como “a promíscua” ou como “a traída”; se é um homem, já está previamente rotulado como “homossexual”, se o caso envolve uma pessoa idosa, trata-se de uma “velhinha ou velhinho safado”. Dessa maneira todo soropositivo já se sentiria socialmente pré-rotulado para a exclusão.
Outro estigma relacionado propriamente com a AIDS, é o medo da infecção e o medo da morte. Muita desinformação sobre os meios de contágio, apesar das diversas campanhas realizadas nos últimos 20 anos, ainda transforma os doentes em “Infames” pela sociedade. A desinfomarção continua gerando preconceito, vitimando e culpando os portadores de HIV/AIDS.
Agora, podemos ter uma visão mais ampla dos motivos por trás desses “sentimentos confusos” despertados na indagação quanto a ser ou não portador do vírus HIV. Imagine então como é dificil para uma pessoa portadora do vírus HIV lidar com seus próprios sentimentos, exorcizar os medos, viver um dia de cada vez. E ainda, o quanto é importante o auxílio dos amigos, dos familiares e de profissionais que lidam diretamente com os portadores de HIV para que esse “viver um dia de cada vez” possa ser feito com o máximo de harmonia possível.
A AIDS não acontece somente nos “centros urbanos”. Outra questão de pesquisa gravíssima é o fenômeno da interiorização da AIDS, isto é, a migração da epidemia dos grandes centros urbanos para cidades médias e pequenas do interior do país. Segundo relatos individuais, que pretendo investigar mais a fundo, há casos de pessoas residentes em centros urbanos que, ao se descobrirem com HIV, decidiram “mudar de vida” e migraram para uma cidade menor, tentando “apagar o passado”, mas levando o vírus com elas. E, chegando lá, namoram, casam-se, muitas vezes sem avisar o parceiro(a) que é portador do HIV.
Você sabe com quem seu namorado/parceiro(a) manteve relações sexuais? Sabe que um vírus HIV pode ficar anos incubado sem se manifestar?
“Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002, publicado pelo Ministério da Saúde, o número de mulheres contaminadas com o vírus da Aids tem crescido a cada ano e, na maioria dos casos, através de relações heterossexuais. Entre as décadas de 80 e 90 as mulheres maiores de 13 anos, contaminadas pela relação heterossexual, perfaziam um total de 61,1%. No ano de 2002 esta porcentagem elevou-se a 93,5%”. (Giacomozzi, 2004).
A autora afirma ainda que “os dados revelam um aumento desta epidemia, principalmente entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo, em regime de conjugalidade”.
Então lembre-se: AIDS é problema seu também. AIDS é um problema da humanidade!
O HIV não é transmitido por beijos, abraços, suor, saliva, lágrimas, pelo uso comum de piscinas, copos, talheres ou roupas. O contágio é feito por relações sexuais sem protenção (camisinha), transfusões de sangue, pelo uso de agulhas e seringas contaminadas, de mãe soropositiva ao filho durante a gestação, o parto ou a amamentação.
Então agora que você já sabe, seja solidário, converse com seus familiares e amigos, e faça essa pergunta: Você já fez um teste de HIV? Sabe como se prevenir? Com o avanço assustador da epidemia, você pode ser o próximo a precisar de apoio. Pense nisso.
Bibliografia:
Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e coporal. São Paulo: Ágora, 2006.
Giacomozzi, Andréia Izabel. Confiança no parceiro e proteção frente ao hiv: estudo de representações socias. Florianópolis, 2004. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em:
Parker, Richard. Aggleton, Peter. Estigma, discriminação e AIDS. Rio de Janeiro: ABIA, 2001.