Galeria de Arte – Marquês de Sade

O Marquês de Sade, que viveu durante a Revolução Francesa, passou um terço da sua vida na prisão, onde produziu a maior parte das suas obras. Sade nasceu em 1740, aristocrata, e morreu na pobreza, em 1814, num hospício.
Segundo Vergez & Huisman (1984), a obra do Marquês de Sade pertence antes à literatura pornográfica do que à filosofia mas, incontestavelmente, tem grande importância histórica e filosófica. A posição filosófica de Sade é rejeitar o otimismo naturalista – evidentemente ele quase escolhe a maldade à virtude. Em sua visão, a vida moral e a felicidade humana são consideradas incompatíveis. O título da maior obra de Sade “Justine ou Os malogros da virtude” e “Juliette ou As prosperidades do vício”, ilustra sua posição: às infelicidades da pobre Justine, espacanda, aprisionada, violada, torturada de mil maneiras, não apesar de suas virtudes, mas por causa delas, Sade opõe o quadro das alegrias e dos sucessos, da imoral e viciosa Juliette.
Segue-se abaixo fragmento de texto de autoria do Marquês de Sade:

A Justificação do assassínio

A única coisa que fazemos, ao nos entregar à destruição, nada mais é do que operar uma variação nas formas, mas que não pode extinguir a vida e que se coloca acima das forças humanas no sentido de provar que não pode existir crime algum na pretensa destruição de uma criatura de qualquer idade, sexo ou espécie que possa imaginar. Conduzidos ainda mais adiante pela série de nossas conseqüências, que decorrem umas das outras, será necessário convir finalmente que, longe de ser prejudicial à natureza, a ação que você comete, variando as formas de suas diferentes obras, é vantajosa para ela, posto que lhe fornece, por meio dessa ação, a matéria-prima de suas reconstruções, cujo trabalho ser-lhe-ia impraticável se você não destruísse. Eh! Deixem-na agir, dizem a você. É certo que é preciso deixá-la agir, mas é a seus impulsos que o homem segue quando se etrega ao homicídio; é a natureza que aconselha, e o homem que destrói seu semelhante vale para a natureza o mesmo que a peste ou a fome, igualmente enviadas por sua mão, a qual se serve de todos os meios possíveis para obter o quanto antes essa matéria-prima de destruição, absolutamente essencial às suas obras.
Dignemo-nos a iluminar por um instante nossa alma com o fogo sagrado da filosofia: que outra voz, que não a da natureza, nos sugere os ódios pessoais, as vinganças, as guerras, numa palavra, todos esses motivos para matanças perpétuas? Ora, se ela no-los aconselha, é porque tem necessidade deles. Como, então, poderemos, segundo isso, nos supor culpados para com ela, uma vez que só fazemos seguir suas prescrições?

VERGEZ, André & HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. 6 ed. Rio de Janeiro. Freitas Bastos. 1984. P. 231-236.

Cinema

IMPÉRIO DOS SENTIDOS

Um amigo recomendou-me outro dia que assistisse a Império dos Sentidos, que eu iria gostar. Sendo ele um cara inteligente e de bom gosto, fiquei curiosa – nunca tinha ouvido falar. Saí de casa dizendo que ia à locadora buscar este filme e a cara de espanto da minha mãe foi impagável, merecedora de pôster e moldura. Não entendi nada até chegar à locadora: a atendente me disse que o filme em questão estava na seção pornográfica. Fiquei desconsertada. Eu tinha ido locar um filme pornô sem saber. O meu amigo teria achado um filme pornô “a minha cara”? (não que eu não goste, mas isso é outra história). Bom, já estava ali, então não ia dar pra trás. Empinei o nariz e disse: “dá esse mesmo”.

Em casa, fui entrando e anunciando: “Vou ver Império dos Sentidos, alguém me acompanha?” Veio todo mundo para a sala. Papai, mamãe, irmão, cachorro. Ah, então o filme era “indecente” mas ninguém ia perder, né? Só eu mesmo pra assistir um filme desses em família, arre! Soltei o filme. No princípio os adolescentes se cansaram: “Pó, filme de japonês?”, mas logo em seguida arregalaram os olhos e ninguém falou mais nada. Aliás, minto. Volta e meia mamãe soltava um: “credo!”.

Dirigido por Nagisa Oshima, Império dos Sentidos é ambientado em 1936, quando o Japão era marcado pelo conflito entre as culturas oriental e ocidental. Abe Sada, a personagem principal, emprega-se na casa de Kichizo e, entre as tarefas humildes, espiona as intimidades do patrão e da esposa durante algum tempo, até que ela mesma se torna amante de Kichizo.

Mas Sada está longe de ser a amante como estamos acostumados a pensar. Furtiva, relegada ao segundo plano, resignando-se em ser uma válvula de escape para o casamento do amante. Não. Ela se torna o centro da vida de Kichizo e nunca se envergonha do seu amor e de seu ato sexual, não se importando sequer em ser observada, em fazê-lo em público.

Sada é considerada a representante de uma era pré-ocidental e pré-cristã, em que, em lugar da virgindade, o principal valor é a experiência. Ela torna a prática sexual uma necessidade, através da qual busca saciedade e gozo incessantemente. Experimenta de tudo, faz questão de procurar o prazer em cada recôndito do corpo e da alma do amante e da sua própria.

Os amantes evocam práticas diversas para temperar o ato sexual como voyeurismo, pompoarismo, sadomasoquismo e até asfixia. Há cenas fantásticas e antológicas, como a do ovo – não vou contar, morram de curiosidade ou assistam ao filme! – ou a final, majestosa e chocante.

O filme significou um ato de libertação, uma mudança na vida de cada um dos envolvidos. Os atores fizeram sexo realmente em todas as cenas – a esposa do protagonista teve que aceitar a idéia do marido tendo relações com outra mulher ante uma câmera. Segundo o próprio diretor, a equipe técnica transformou-se em idólatra da erotômana Abe Sada, transformando a atmosfera das filmagens e da própria película, em ritualística, densa, solene. Assistir ao filme é presenciar o culto a uma entidade: o sexo.

Precisa falar mais? Confira!

Lívia Santana.

Fonte de pesquisa: “O Império dos Sentidos” ensaio de Lúcia Nagib.

Música

LENHA
Zeca Baleiro

Eu não sei dizer
O que quer dizer
O que vou dizer
Eu amo você
Mas não sei o que
Isso quer dizer
Eu não sei por que
Eu teimo em dizer
Que amo você
Se eu não sei dizer
O que quer dizer
O que vou dizer
Se eu digo pare
Você não repare
No que possa parecer
Se eu digo siga
O que quer que eu diga
Você não vai entender
Mas se eu digo venha
Você traz a lenha
Pro meu fogo acender.

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