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Cinema – INFIDELIDADE

por Lívia Santana

O que leva alguém a trair? O que faz com que alguém decida se lançar numa aventura? Qual o ponto decisivo? Como decidir o que pesa mais? Muitas são as perguntas e muitas são as respostas possíveis a estas perguntas, depende apenas de quem se está tentando convencer: se ao parceiro que foi magoado, se a terceiros, se a si mesmo. Atire a primeira pedra quem nunca traiu, e se apresente aquele que tiver coragem de defender. Eu não tenho.

Infidelidade é uma pancada em forma de filme, que pega o expectador desprevenido pelo colarinho sem aviso nem por que. Logo de cara, vemos uma esposa linda, vivendo num subúrbio verde, calmo e bonito, com um filho encantador e um marido galã. Parece realmente ótimo, não dá pra querer mais nada, não é? O charme de Diane Lane é palpável, o menininho que faz o filho é lindo e cá entre nós, acordar e ver o Richard Gere deitado ao lado não é um mau negócio. Juntos, os três são adoráveis. E o expectador pensa: “O que pode sair errado?” O filme não se faz de rogado e mostra rapidinho.

Num belo dia que parecia normal, uma ventania com cara de furacão traz consigo um francês absolutamente maravilhoso (que homem é aquele?) e o joga no meio da história. A bela Constance – ironia maior que este nome não há – bem que tenta manter o papel de mãe e esposa exemplar, mas a perturbação provocada pelo francês é grande demais. Perto dele, ela fica tímida, indefesa, mantém os olhos baixos, se atrapalha, fica ruborizada. Tenta fugir, mas não o suficiente. Ela sempre diz “eu não posso”, nunca “eu não quero”, como se tirasse de si mesma a responsabilidade por escolher agir diferente, como se apenas se submetesse a uma vontade maior que a sua.

A cena em que ela sucumbe à atração e passa por cima dos próprios valores e da própria consciência é marcante. Ela arqueja de desejo e chora, ao mesmo tempo, culpada por estar fazendo aquilo e louca para fazer, nada a impediria. A cada encontro com o amante, a culpa vai se esvaindo e ela se torna mais e mais liberta e sensual. A paixão a deixa cega, é como uma ferida incandescente que só abranda quando molhada na fonte que a provocou. Ela inventa desculpas, fica insatisfeita, procura pelo amante compulsivamente. Todos os lugares são bons o suficiente para eles: o apartamento do francês, banheiros de lanchonetes, cinemas, escadarias públicas.

Mas sempre que volta para casa com os olhos brilhantes e as faces coradas, mal contendo o sorriso, encontra o adorável, delicado, carinhoso, confiável e companheiro marido-galã. E a consciência dói terrivelmente. Quer deixar de mentir, voltar a se dedicar apenas à família, mas está viciada, cativa, entregue. A sensação de liberdade ao transgredir, o prazer irrestrito e amoral, a excitação do mistério, são fortes demais. E a traição torna-se gritante, evidente, dolorosa.

A cena da banheira é emblemática. Aliás, na época em que saiu o filme, encontrei um amigo que me disse: “Puxa, convenhamos! Velas, música crioula, uísque, água quente e nada? O marido queria mais qual sinal de que tinha coisa errada?”. E realmente é assim. Deitada na penumbra, com velas acesas, ela ouve música arrastada enquanto toma uísque. O marido se aproxima e quer participar, mas assim que ele entra na banheira, ela alega frio e o chama para a cama. Não pude distinguir se reage assim porque não conseguiria fazer amor com o marido na claridade, olhando nos olhos dele, ou se não consegue mesmo é ser tocada por ele, ainda que no escuro.

O marido finalmente reconhece a mudança e descobre o caso da esposa. E não entende. Não eram felizes? Não vivia para ela? Não riam juntos, tinham coisas em comum, se davam bem na cama? Então por quê? Aonde tinha falhado? O que faltava? Como pudera ela jogar tudo fora, menosprezar seus sentimentos daquela forma? A ruína do homem é comovente. Dá pena e raiva.

Há quem diga que o personagem do marido é bonzinho demais e por isso teria ensejado a traição da mulher. E que seria fraco porque deveria ter matado mulher e amante. Discordo veementemente de ambas as acusações. Ele não é bonzinho, tem caráter e sentimentos dignos, é um bom homem. E por que bons homens mereceriam ser traídos? Por que mulheres preferem os canalhas? Isso é uma besteira sem tamanho. E não é fraco, ao contrário. Precisa muito mais coragem para perdoar a traição do que para matar. Tanto que matou sem nem ver o que fazia, mas para perdoar é que precisou realmente de força e fibra moral.

O filme é doloroso porque mexe com o eterno contraste entre a rotina e a novidade, o tédio e a excitação. E sempre, invariavelmente, a estabilidade sai perdendo em prol da aventura. A diferença entre os lados é grande: de um, brincadeiras de alcova e sexo selvagem; do outro, diversão em família, compromisso e um beijo terno antes de dormir.

O grande erro cometido pela personagem é achar que um caso extraconjugal pode desempenhar o papel de um hobby e que dele poderá sair impunemente, mantendo as coisas sob controle. Mas paixão é algo que inebria, consome, se alastra. Toma conta de tudo e faz todo o resto perder o valor. Arrasa o que encontra pelo caminho feito furacão, assim como a ventania que trouxe o francês pra história.

Há algumas reflexões importantes a serem feitas a partir do filme. Por exemplo, saiba valorizar aquilo que tem. A grama do vizinho só parece mais verde porque está olhando de longe, se chegar perto verá que ela tem queimaduras de sol e insetos, assim como a sua.

Não se deixe levar pelas circunstâncias, não jogue sentimentos e relações verdadeiras pela janela por causa de ilusões e pirotecnia, pois estas sempre se desmancham no ar. Não perca a realidade de vista, não dê asas demais à imaginação. Entenda que embora a paixão possa suplantar o amor em algumas ocasiões, nunca será de fato maior. Ser fiel aos sentimentos é muito bom, mas não se deixe guiar apenas por eles. A razão existe justamente para dosar os sentimentos, para equilibrá-los. Use-a. Leviandade sempre traz dor e sofrimento, mesmo que seja a outras pessoas. Pense um pouco melhor antes de pular no abismo.

E, por fim, a reflexão suprema: que estrago não faz um globo de neve…

Cinema – Fale com ela

por Lívia Santana.

Eu sempre gostei do Almodóvar, mas não sei por que não assisti a Fale com Ela assim que foi lançado. Remexo a memória em busca de um motivo e nada encontro. Lembro-me de ter lido críticas sobre o filme – das quais não me lembro mais – e também de ter combinado com uma amiga que iríamos juntas ao cinema assistir. Aí então existe uma lacuna e me vejo numa roda de pessoas em que esta amiga e alguns outros comentavam o filme enquanto eu fazia aquela cara de “hum, sei”, sem ter visto porcaria nenhuma. Por que não assisti ao filme? – me pergunto dando murros na cachola inutilmente. Acho que nunca vou saber. Devo ter sido abduzida.

Mas essa semana eu resolvi sanar esta falha. Peguei carona com o meu irmão que estava indo pra locadora e fui direto atrás deste filme. Ele – o irmão, não o filme – me olhou de soslaio, revirando os olhos, com um riso de meia boca, acho que antecipando a reação do resto da família. Dito e feito. Em casa torceram o nariz logo de cara: “A Lívia só gosta de filme esquisito!”, “Trouxe mais o que?” Sempre que eu vou à locadora esse ritual se repete. E nunca me deixam ir sozinha, porque alguém tem que locar um filme “de gente normal”, né? Geralmente sai um besteirol americano ou um desses malditos filmes cheios de explosões e muito hip hop. Nunca vou perdoar os responsáveis pela criação dessa geração “Velozes e Furiosos”. Deviam acrescentar: “E Estúpidos”. O escolhido dessa vez foi “Batman Begins”. Explode, mas pelo menos não toca música. Ô, meu Deus.

Sentei pra assistir, dessa vez sozinha – ainda bem! Logo de cara, fiquei impressionada em ver o quanto uma mulher pode mudar apenas soltando ou prendendo os cabelos. A toureira Lydia Gonzalez esbanja sensualidade vestida à paisana com as madeixas soltas e se torna realmente horrorosa quando veste a indumentária e as amarra rente ao couro cabeludo. A diferença é gritante, nem entendi como ela pode ter ficado tão feia de uma hora pra outra. Talvez tenha sido a minha repulsa em relação às cenas em que ela sangra o coitado do touro com aqueles espetos absurdos. Adoro a Espanha, mas touradas são chagas da humanidade mantidas à guiza de tradição folclórica, piores ainda que os tais rodeios.

Voltando ao filme e deixando as considerações superficiais de lado, devo dizer que é uma obra de arte. Desliguei o DVD me sentindo enriquecida, não foi à toa que ganhou tantos prêmios. Se você aí ainda não assistiu, eu recomendo muitas vezes que o faça.

Fale com Ela é um filme impressionante. Jogando com a simbologia habitual, Almodóvar criou uma história de sensibilidade e beleza únicas. São tantos sentimentos evocados simultaneamente, que deixam o expectador vidrado e comovido. O filme trabalha contrapondo o sublime e o patético o tempo todo, fazendo disparar o coração e marejar os olhos. Amor, tristeza, solidão, amizade, dor, aprendizado, compaixão, devoção, cuidado, tempo, morte. Impossível não se deixar levar.

Benigno é um enfermeiro e, à primeira vista, somos levados a pensar que se trata de uma alma extremamente abnegada e caridosa, que não poupa atenções e desvelos no trato de uma paciente em coma. Benigno causa espanto a todos que o observam em ação, desde os expectadores até os colegas de profissão. Ele não só lava e cuida da manutenção de Alicia – a paciente em coma – como a penteia, corta-lhe os cabelos, massageia e hidrata-lhe o corpo, faz-lhe as unhas, a maquia e fala com ela o tempo todo, agindo como se obtivesse respostas. Percebemos logo que a abnegação do enfermeiro se deve a uma paixão imensa e pouco ortodoxa. Ele se contenta em apenas cuidar da moça e nisso reside a sua felicidade.

Marco é um jornalista, namorado de uma toureira que é atropelada por um touro e vai para o hospital em estado vegetativo. Ele não consegue se adaptar à situação, mas tenta cuidar dela e, nesse processo, conhece Benigno que se propõe a ensiná-lo a cuidar de Lydia, a toureira.

Nesse ponto, temos o tema central do filme. A lição de Benigno para Marco é: fale com ela. Não apenas falar, entregar-se, expor-se, amar, acariciar, fundir-se, ultrapassar os limites do convencional, do ridículo, do ‘são’. Conhecer os gostos, os pensamentos, sentir-se como ela, estar no lugar dela, ouvi-la mesmo que ela nada diga. É a grande sacada do filme, FALE COM ELAS. Todas as mulheres querem ser ouvidas, sentidas, acariciadas, amadas, compreendidas. Nesse sentido a cena da vagina é extremamente ilustrativa, carregada de simbolismo inequívoco, além de originalíssima. Não vou contar, assistam ao filme e vejam por si mesmos.

Além desse, temos outro ponto muito relevante na história, quando Benigno é preso. Sim, ele é preso, mas não direi o porquê, não tenho a menor intenção de contar o filme inteiro. Quero apenas chamar atenção para uma cena em particular, em que Marco visita Benigno na cadeia, separados por um vidro, conversam e Benigno diz a ele: “Queria te dar um abraço agora. Abracei poucas pessoas na minha vida inteira”.

Impossível traduzir o que senti nesse momento! Como não me comover até as lágrimas ante a solidão absurda desse homem? Amando uma mulher em coma, que não pode retribuir-lhe o afeto, tendo apenas um único amigo, estando preso, apartado do objeto de seu amor, sem outra razão para viver, ele ainda diz que a vida foi sempre assim, árida e que os anos mais felizes que jamais teve foram os que passou cuidando da moça em coma! Como não sentir a dor?

O filme faz isso conosco, pega o nosso coração na palma da mão e aperta sem dó, até deixá-lo em frangalhos. É como se Almodóvar soubesse que não aprendemos lições importantes como a dada por Benigno a Marco – fale com ela! – sem que alguém nos rache a cabeça e enfie a idéia lá dentro. Sem que tenhamos nossos alicerces abalados, deixamos passar a profundidade de certos ensinamentos. Consternados, podemos perceber o que a história quer dizer.

Homens, que sempre reclamaram e continuam reclamando que não entendem as mulheres, ouçam o conselho de Benigno: fale com ela!