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Géssica Hellmann
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Amores são como livros
por Francine Hellmann

Sleeping couple por Ivan Koulakov
Amores são como livros. Uns maiores, outros menores; alguns profundos, outros mais superficiais. Há aqueles que lemos quando pequenos logo que aprendemos a ler e que nos acompanham por toda a vida; há os que lemos há muito tempo e reencontramos inusitadamente, acompanhados de uma avalanche de lembranças. Algumas pessoas encontram livros perfeitos, livros feitos para elas. Em minha estante cada livro possui seu lugar definido, especial… Às vezes me pego em frente a eles, percorrendo com os olhos seus títulos, lembrando suas histórias, analisando o que cada um me ensinou, me trouxe de novo. Houve os que me obriguei a ler, apenas para não me sentir derrotada; houve os que devorei; os de páginas perfumadas; os simples, porém profundos; há os de cabeceira; os engraçados; os que me fizeram chorar; os retóricos; os demagógicos; os ideológicos; houve os que li ao mesmo tempo; os que duraram apenas uma madrugada; e houve as bíblias.
Há pessoas que nunca aprenderam a ler, não conheceram outros mundos, outras formas de pensar, não ousaram. Conheço algumas que afirmam não precisar, dizem viver bem, dizem que bastam as orelhas de um livro ou outro; pode ser que elas sejam felizes a maneira delas. Eu não conseguiria viver assim. Quero ler livros em todos os idiomas, com páginas de todas as cores, de vários autores, tempos, contextos; quero fotos coloridas e em preto e branco, livros de artes, música, política e cinema; quero livros que me façam imaginar as coisas mais inimagináveis e confrontar meus próprios eus, muitas vezes, infinitas vezes. Quero livros, todos os livros do mundo!
O carro que comia bananas
por Sônia (Anja Azul)

Dormitando por Marco Ortolan
As coisas perdem o valor.
Ou perdem o lugar pra outras coisas.
Quando era guria, morria por uma praia. Literalmente.
Minha madrinha me arrastava junto.
A mãe dizia:
– Não, desta vez não me convencem. Esta guria que nem comer come. Vai pegar insolação.
– Não e Não.
No fim, lá me ia. E só ia porque ajudava. Carregar mala e criança mijada.Olhar os pequenos.
A casa era bem no mato. Madrinha, a filha do dono.
Eu gostava. Ver tirar leite da vaca. Ajudar a apartar os terneiros. Os cafés na beira do fogão a lenha. Até peixinhos fritos e ovos na chapa. Brincar a sombra da figueira milenar. Flagrar artes dos pequenos. Tipo quando um deles matou doze pintinhos um a um, pedra na cabeça. Ou quando o mesmo (a peste) sumiu e tivemos de campear muito até ver dois dedinhos na beira do poço. E quando a gente gritava pra sair, ele dizia:
–Ó! Com uma mão. Ó! Sem nenhuma… ops. huahuahua
Foram vários verões. Em que passeei de carro de boi. Comi rato do banhado (preá) blergh!
(Que fazer?? como ser luxenta longe da mãe). Brinquei na sanga e rolei cômoros gigantescos de areia.
Nem sabia o que era filtro solar. E minha pele branquissima sofria.
Queimaduras…bolhas…Virava pantera cor de rosa.
Para aliviar? Cachaça e polvilho.
O ruim era quando anoitecia. Dava uma dor no peito ver o sol sumindo atras do morro.
Eu que só dormia de luz acesa, tinha que me contentar com pixiricas. Lampiõezinhos de querozene. Que eram apagados ao deitar. Brrrrr
Quanta noite em claro. Ao primeiro canto de galo, corria ver o dia nascer. E a saudade de casa passava.
Dormia onde sobrava um lugar. Por pouco sentada. Uma vez me sobrou o topo de um triliche, de cara para um buraco no forro. Um bater de asas, barulho esquisito no escuro. A menina de baixo dizendo:
–Liga não. São os morcegos.
Bah!
E morcego nem era nada. pior as pulgas. My god era tanta. Sentia que por pouco não me carregavam pro mar. Um dia me sobrou um pelego., crivado de pulgas, era colocar a mão e o formigueiro me atacava. Dormi acocorada num canto da sala.
A noite era o pior de tudo. Sentia saudade da mãe, do pai, da mana, do gato e até daquele peste de meu irmão.
No dia de voltar, mal me continha. E a viagem era longa, por uma estrada dificil e o carro era velho, cheio de manhas.
De vez em quando engasgava. Daí meu padrinho dizia:
–Já sei! Quer banana.
Puxava um cacho enorme de bananas verdes, descascava uma e enfiava no carburador, eu acho.
O bicho tossia e vrum vrummmm….Mais um trecho, até o seu próximo lanchinho.
Quando conto hoje em dia, ninguem acredita, mas juro! O carro comia bananas.
Quando chegava no portão, já chegava chorando, beijando minha mãe.. Beijando.
Mostrando minha pele vermelha, minhas bolhas, de mês e meio curtindo sol.
Nunca vou esquecer aquela sensação de voltar pra casa e encontrá-los.
Hoje estou na minha casa de praia, todo o conforto, internet, filtro 30, e mil frescuras.
Mas algo me falta…falta e dói.
Saudade!
Os 5 minutos
por Sônia (Anja Azul)

Memory of Things Past & Present por Francisco Benitez
Se dependesse só de mim, não haveria desarmonia, estridentes conversas vãs, ruídos desnecessários.
Tudo que me rodeia já não me interessa.
E o tempo precioso escorre como areia entre dedos, matando a esperança.
Histórias de amores medíocres e separações repetidas. Sempre as mesmas.
Competições de dores. As dores dos outros sempre doem mais…sempre.
O mundo real! De carne e osso, me assusta, ou melhor não… e sim me deprime.
Se só o que faço é ouvir…
Descrições de rotinas, de como se lavou o box do banheiro com escova de dentes???
A novela das oito. O crime na esquina.
A cor da blusa.
Pera aí!
Preciso refletir sobre o Crime na Esquina.
Não consigo, pois logo vem a Caras, e bocas e poses.
O carro do vizinho. A cor. Esqueço sempre, pois tem alguém que me lembre… Sempre.
Como se fosse importante.
O preço.
Do tomate, da importância.
Me lixo.
Estou viajando para dentro da concha acústica dos meus pensamentos.
Quase nada que me rodeia (aqui no sul, pendurada na américa latina, frente ao oceano) me interessa.
Sinto-me pronta para partir para a outra dimensão.
E aliviada.
Encontro de gerações
por Zélia Campestrini

Grandmother por Pamela Fingado
Final de semana, dia de festa. Noventa anos de vida de minha mãe, foi comemorado em grande estilo. Não em termos de pompa e esnobismo desnecessário, mas com simplicidade e harmonia.
Almoçamos no restaurante da recreativa da Embraco, uma das inúmeras empresas multinacionais existentes aqui na nossa maravilhosa Joinville. Depois nos reunimos num de seus quiosques, para ficar mais à vontade e poder matar a saudade.
Enquanto os adultos relembravam o passado e colocavam o assunto em dia, as crianças brincavam nos inúmeros brinquedos existentes no local. Gangorra, escorregador, trenzinho, balanço, etc. Uma verdadeira festa para a garotada.
Mamãe estava linda, cabelos brancos como a neve, olhar radiante, lúcida, impecavelmente trajada, pois é muito vaidosa. Perfeccionista da cabeça aos pés.
Um encontro de várias gerações, filhos, netos, bisnetos e tataranetos.
Foi realmente emocionante: meus irmãos e eu segurando os netos, sendo uns muito parecidos com os pais. Parecia que voltava no tempo, onde nós segurávamos nossos filhos ainda pequenos.
Minha irmã mais velha já é bisavó, ganhou três bisnetos, todos com menos de um aninho de vida. Maravilhosos!
O tempo passa, os filhos crescem, a família aumenta. Este é o cilho da vida. Aprendi que devemos viver cada etapa, cada fase de nossa vida, com intensidade própria de cada momento e devemos aproveita-los o máximo com responsabilidade.
A melhor herança que deixamos a nossos filhos é nossa boa conduta.
Recordar é viver.
Olhando a todos com atenção
Relembrava com emoção
Que antes era eu, que segurava
Minhas filhas pela mão
Hoje já crescidas
Com os primos a conversar
Rindo das travessuras
Que acostumavam aprontar.
A ordem das vespas sanguinárias
por Sônia (Anja Azul)

Sunflower e bees por Ginette Callaway.
O pai tinha destas manias de cultivar coisas esquisitas.
O pátio tomado de canas de açúcar, pés de milho e batata doce rasteira. Fora o limoeiro, pessegueiro, ameixeira e a frondosa goiabeira.
Terreno propício para a imaginação correr solta. A floresta era o planeta inóspito e distante, onde aterrisava com sua Nave-Cinamono, onde pisava em câmera lenta, seguida pelo seu companheiro de aventuras, isto, quando este conseguia fugir do terrível monstro que guardava a cadeia do leste, seu avô, no qual aplicavam as mais estrambólicas estratégias, que garantiam fugas fenomenais.
Um dia o pai extrapolou as expectativas. Trouxe para casa uma caixa. Uma caixa zumbizante.
A casa das abelhas assassinas do Noroeste da Birmãnia, ou na visão normal dos adultos, uma colméia de abelhas.
Seu mundo de aventuras ficou ainda mais emocionante.Apostas tipo: “Quem aguenta mais tempo com a mão na caixa, sem ser mordido?” corriam soltas.
Numa das incursões pelo planeta hostil, e sendo surpreendidos pelos terríveis homens-cana, tiveram de correr estabanados, pulando poços de areia movediça e…. esbarraram na caixa.
Terror!!!
Fingiram-se de estátua. Houve um princípio de tumulto, um zumbido ensurdecedor, tá!… Nem tanto, e as coisas acalmaram.
Juraram segredo de morte. A brincadeira acabou mais cedo. E naquela noite adotaram o voto de silêncio de criança que sujou a fralda.
Na madrugada, algo de assustador acontecia. As abelhas injuriadas, resolveram mudar de ares, e foram instalar-se acima do poço de água, bem ali, onde ficava a rolimã e o balde.
Ao amanhecer, a surpresa. A irmã mais velha, que suspeitavam, devia ter néctar nas veias, de tantas as vezes que foi picada, deu o alerta. Pessoal já nem ligava, uma picada a mais ou a menos de tantas que ela levava, mesmo correndo todo o quarteirao com a abelha atrás.
Mas a coisa era séria. Dava até para ouvir os tambores de guerra das abelhas assassinas.
Ela pensava com seus botões, ofendemos o Deus delas, teremos de pagar com sangue. Buaaaaaaaaaa!
A casa cercada de abelhas, que tentavam entrar enfurecidas por cada fresta, e o que mais tinha na casa eram frestas.
Todos foram convocados, a fechar escotilhas, chinelos em punho. Lutar até o último homem, ou criança, ou mãe p… da vida, pois estava atrasada com seus lavados pra fora. O pai teve de abandonar o front na corrida, pois tinha de ir trabalhar e os outros ficaram lutando bravamente, vendo o assoalho tingir-se de preto zumbizante.
Pai volta para o almoço, que não foi feito, com uma idéia. Tascar fogo, aliás fumaça com um cabo de vassoura, de longe.
Pior! Dai que as bichinhas se “arrevoltaram”.
Lembrou de uma conversa com um vizinho, que queria comprar a caixa, que entendia delas, que bla bla.
Foi até lá, atravessando um vasto campo em frente, e voltou com o dito cujo carregando uma caixa.
– Pode deixar compadre me entendo com as bichinhas. Mas quanto lhe devo?
– Nada! Pode levar!
O homem fez uma mágica qualquer e elas entraram na arapuca. Lá se foi satisfeito. Mal sabia ele, o que lhe reservava o destino.
Bulir com o Deus das Abelhas Assassinas não tinha perdão.
No meio do campo tropeçou, a caixa se escangalhou e foi atacado impiedosamente.
No hospital disseram que escapou por milagre. Eram abelhas africanas, sanguinárias.
O bom de tudo é que fazia sol, e ela já foi chamar o companheiro, com seu assovio secreto, pois havia um planeta para ser explorado e não podiam perder tempo.





