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Horizonte Roubado | Amores - Contos de Amor

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Géssica Hellmann
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Horizonte Roubado

Dez da noite. “Moçomedáumtroco?” “Vai trabalhar, vagabundo!” “Moçamedáumtrocopelamordideus?” “Tenho não, menino! Me deixa” “Mossumtroquinhosópreucompráumpão?” “Tenho aqui, menino, toma esse vale-bóia!” “Brigadumossu!” “Nada. Toma juízo e não cheira cola”
Compra um pão na graxa, coca-cola. Sobra um troco. Compra bala. Na padaria fazem uma quentinha com o frango que tava sobrando no forno e com um pouco de farofa. Vai até a calçada, perto da igreja e escuta uma música que sai, quase calada, de um apartamento do segundo andar do prédio.
“Oh, pedaço de mim/Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu”
Sem entender bem, o menino se encosta na parede, não briga mais pela comida que os outros moradores de rua teimam em comer. Passa por ele o carinha que lhe deu o tíquete para comer. Ele passa olhando o chão, desviando do olhar daquele menino magro que não reconhecia mais. O menino não mais tinha fome de bala, pão e cola, mas tinha um vazio dentro de si que não cabia mais em alma alguma.
Entra na portaria com pressa, preocupado com a segurança, cumprimenta automaticamente o porteiro que mal o nota, chama o elevador, aperta o quarto andar, depara-se frente ao 403. Respira fundo. Abre a porta. A casa, vazia, cheirava a ar fechado. Fazia um ano desde que os planos ficaram sem pé nem cabeça, que o sentido das coisas perdera-se num arroubo, num desejo desenfreado. Num querer mais que um poder fazer. Olhou para tudo aquilo que planejara para dois e olhava para si só no espelho do corredor.
Abriu as janelas, e escutou a música que vinha do vizinho de baixo. Chorou baixinho, humilhado pela vida que o atropelara.
Levantou-se, verificou se o gás estava ainda desligado, se o telefone, a luz não. Abriu o chuveiro, tomou banho frio após da água turva de cano parado cair por dois minutos. “Que filho da puta tá ouvindo Chico a essa hora?” pensou um tanto quanto alto. Mas não tinha importância.
A cama estava lá, os lençóis, os travesseiros. Empoeirados, mas arrumados. “Ela vem aqui uma ou duas vezes por mês” falou para si. Sentou à beira da cama, levou as mãos à face e anoiteceu. Antes, porém, ligou para ela do seu celular e desligou antes que ouvisse a sua voz.
“Idiota! Ele não sabe que existe bina?” falou para o atual namorado. Era o oitavo desde que saíra do apartamento. “Esse babaca ainda te procura? Já disse que eu cuido disso para você! Eu dou uma coça nele que nunca mais ele vai pensar no teu nome!” “Não precisa.” “Precisa sim.” “Deixa. É passado para mim. Ele que quer que vire presente de novo.” “Não te entendo.” “Nem precisa. Deixa.” “Tá bem. Vamos na Bunker hoje?” “Não. Tem hip-hop hoje e tô fora dessa.” “Ok. Pra onde então?” “Sua casa.” “Ok.”
“Esse não dura nem mais uma hora! Cara chato!” Pensou calada e subiram devagar a República do Peru no Omega Preto com vidro fumê e neon nos faróis. “Odisséia? Que tal?” “Olha, se você não me quer hoje, ok, pode falar!” “Que isso, amor, e eu sou de negar fogo?” “Não tô falando disso.” “Tá falando do quê?” “Nada, deixa.” “Se você não falar, não vou saber o que fazer, né? Não tenho como adivinhar.” “Não é você, sou eu. É comigo.” “Ok. Quer que eu te deixe em casa?” “Não. Me deixa aqui na esquina com a Barata Ribeiro.” “Uai. Você não mora no Leme?” “Me deixa aqui, Anda!” “Tá bom. Se cuida. Juízo!” “Tchau! Te ligo, tá? Não me liga!” “Ok. Você é quem sabe.” Ela saiu andando em direção ao prédio quando o menino virou-se para ela. “Moçaquimúsicaéessaaíassim?” “Música? Acho que é o Chico. Chico Buarque.” “bunitaamúsicanuncaouvisabia?” Ela sorriu e caçou um dinheiro na bolsa. Quando viu, ele tinha partido.
Abriu a porta da portaria, cumprimentou o porteiro que acenou enquanto resmungava alguma coisa e cruzou com o casal do 201. Apaixonados, via-se de longe. Não desgrudavam um segundo e faziam cena o tempo inteiro. Uma vez, surpreendeu os dois no elevador num amasso só. Vira e mexe, tinham marcas nos pescoços, braços e sabe-se-lá-mais-onde. Isso ela, que só ia no apartamento duas ou três vezes ao mês.
Saltou no quarto andar. Andou até o 403. Viu a luz por debaixo da porta. Tremeu de cima a baixo. Ouvia uma música que vinha de dentro do apê. “Ai meu Deus. Ele tá tocando o Chico…” pensou.
Lentamente colocou a chave na porta. Abriu-a. E o viu com o violão no colo. Desabou ali mesmo. Já não era mais dona de si.

Zander Catta Preta

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