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Estranheza
Couched Woman with phone (1995) por James W. Johnson
Amantes e celulares não combinam lá muito bem. Esses aparelhos exercem um estranho efeito sobre os apaixonados, transformando-os. Normais e pacatos companheiros podem conduzir-se ao delírio extremo, algo como bolero com cuba libre na solidão às quatro da manhã; ou mesmo uma das partes rasgar-se em prantos – até em público! – e desejar a morte. Sua, do amor da sua vida ou de terceiros. Tudo por uma simples ausência de notícias.
Se o barulho ao fundo não condiz com o esperado: maldito seja! Começa logo o interrogatório que quase sempre conduz à briga. Caso o outro lado ofegue ou sussurre: ou é descaso, ou – bem pior – assunto escuso a ser investigado. Três mais no questionário. E se porventura não atender(?), aí vira censo em avalanche…
- Amô-or.. Amo muito você, tá? Liga pra mim, meu bem. Um milhão de beijos. Tchau! – gravou Débora, dengosa em piscadelas, na secretária do infeliz.
Duas horas e nada… Ela insiste da mesa de massagem, com máscara de pepino no rosto…
- Humberto. Amor, onde você está?… Tô com saudade… E quero contar uma coisa… Sabe, no verão eu queria ir… – um bipe rompe – ai, beijo, tchau! – despediu-se aos ares.
Mais uma hora… Da sauna seca…
- Amor, ainda quero falar com você. Não esquece de me ligar, tá? Um beijo! – cravou Débora alimentando estranhezas.
Quarenta minutos… Do cabeleireiro…
- Humberto, tô ficando preocupada. Tá tudo bem? Por favor, me liga, tá? Beijo. – nos solavancos de quem lacrimeja.
Meia-hora… Do chinês no shopping…
- Amor, você não tá querendo falar comigo? Tá me evitando? O que aconteceu? O que eu fiz? Liga, tá? – um pé na histeria.
Vinte minutos… Sapato novo…
- Beto! – suspiro – Se tem algo errado entre a gente, vamos conversar, meu amor… A gente pode resolver tudo, não é? – fez ela trepidando o calçado inédito, o maior salto que havia na loja.
Dez minutos… Samba-canção embrulhada pra presente… Numa mão sorvete de casquinha, noutra o aparelho. Débora a cantarolar:
- Adivinha o que eu comprei pra você-ê… Tem presente pro Bé-tô… adivi-nha… – e na gangorra do distúrbio bipolar: – Seu cachorro nojento bandido miserável! – brado: – Eu mato você!
Cinco minutos… milk-shake…
- Amorzão?!… Desculpa, tá? Quero atrapalhar, não. Beijo. – aos soluços.
Desliga e liga novamente…
- Quem é a vadia que está com você, Humberto? Eu sei que tem uma vadia! Aposto que estão rindo de mim agora. Ela é melhor que eu? – psicótica. – Eu acabo com vocês dois.
Humberto largou o celular no painel do carro e foi bater bola com os amigos. Depois cerveja e recordações. Sentira falta alguma do aparelho. Até retornar ao veículo:
Quinze mensagens, Treze da namorada e duas da mãe. Estas tiveram preferência e alertavam que Débora estava ligando pros hospitais e delegacias à cata do desaparecido, quiçá defunto. Então, ouviu a última da descontrolada:
- Tá tudo acabado entre nós! Espero que você morra! Ou melhor, vou me matar e você vai morrer de culpa, bem devagar!
Ele apagou todas as outras sem ouvir. Olhou pro telefone durante uns segundos e acabou largando o encosto pra fora do automóvel, pela janela. Foi ao encontro de Débora.
Blim-blom…
Ela girou a maçaneta trêmula e na pior das aparências. Pálpebras inchadas e nariz avermelhado.
- Onde é que você tava?
- Jogando futebol e tomando cerveja.
- E por que não me ligou?
- Perdi meu celular. Sumiu. Desapareceu.
- Ai. Eu fiquei tão preocupada, Beto… Que bom que você tá bem!
Abraços e beijos.
Humberto dormiu por lá. Empenhou-se em sossegar a namorada, que saiu cedo pra trabalhar. Sozinho na cama, ele divagou sobre possíveis enredos que fizessem Débora desejar a morte. Desta feita foram suas as estranhezas e tanto ruminou que concluiu: Débora o traía. Sondou gavetas e saiu dali disposto a botar detetive atrás dela.




