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Vôo do Amor | Amores - Contos de Amor

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Vôo do Amor

por Paulo de Resende

“Ele só precisava voar para ser feliz”

Abel morava num daqueles prédios construídos na zona norte do Rio de Janeiro durante os anos 50. O apartamento era razoavelmente espaçoso, com uma pequena varanda que revelava a rua e as varandas do edifício logo em frente. Orgulhava-se de ter conquistado cada centímetro quadrado daquele imóvel com o suor do seu próprio rosto. De fato, ele começara a trabalhar aos 12 anos e, aos 29, comprou o seu castelo particular.

Lovers in the red sky por Marc Chagall.

Lovers in the red sky por Marc Chagall.

Trazia por companheiro o Tom, gato que salvara de um apedrejamento que lhe havia sido imposto por crianças de rua. Tamanha a gratidão do gato, que este nunca tentou sair do apartamento do seu dono. Ficava ali dia e noite, a cuidar da casa, enquanto Abel lhe assegurava o suficiente para ter algum conforto.

Viviam então os dois, numa cômoda rotina: Abel saía de casa por volta das 8, indo para a redação do jornal no qual era responsável por uma coluna diária. Voltava por volta das 22, a tempo de brincar com Tom e dormir. Além do gato, trazia ainda uma outra companheira, uma dorzinha que por vezes azucrinava o seu pensamento.

Acontece que Abel sempre era rejeitado por suas namoradas após algumas semanas de relacionamento, porque nenhuma delas aceitava se curvar à sua imutável rotina. Por conta disso, ele fizera 6 meses de terapia. Por fim, conformou-se com o fato de que estava vivendo uma fase de dedicação total à carreira profissional. “Amor” seria uma prioridade futura.

Exatamente na primeira quarta-feira de maio, Abel teve um sonho muito estranho. Viu-se voando, levado por fortes ventos que o haviam retirado do chão duro onde antes jazera deitado. E, no ar, encontrou uma linda ruiva, que voava em sua direção. A bela mulher abria os braços e dizia uma única palavra: “vem!”. E voavam, e se amavam intensamente.

Abel acordou com o barulho que Tom provocava ao revolver a areia da caixa sanitária que ficava na varanda. O relógio marcava 3h40min, naquela que era uma madrugada de ventania. Virou-se e voltou a dormir.

Na quarta-feira seguinte, o mesmo sonho. E Abel acordou novamente, às 3h40min, com o som da areia sendo revolvida. Pensou ser um déjà vu, fechou os olhos, dormiu. Pela manhã, Abel relembrou o sonho. Achou surreal demais para dar alguma importância e preferiu ocupar a cabeça com o trabalho.

Pela terceira semana consecutiva, o sonho se repetiu. E o barulho. E o horário. Abel olhou para Tom. Tom olhou para Abel. “Tem alguma coisa estranha acontecendo”, pensou Abel, enquanto tentava pegar no sono novamente. No dia seguinte, quase perdeu o prazo do fechamento da edição. Em sua mente, voava com aquela ruiva desconhecida.

E por mais três semanas, tudo se repetiu. As quintas-feiras passavam a ser conhecidas como “os dias fracos do Abel”, porque ele agora atrasava um pouco o trabalho. A situação estava ficando desesperadora, mas não havia nada a ser feito. Sua vida não comportava folgas às quintas-feiras, assim como não estava comportando seus “vôos noturnos”. Por isso, suportava a situação resignado, mas com crescente irritação.

Quando a cena já se repetia, agora pela sétima vez, Abel decidiu fazer diferente. Levantou-se, nu em pêlo, e foi até a varanda jogar mais areia na caixa sanitária de Tom. Depois disso, estranhamente tranqüilo, sentiu o impulso de olhar para a varanda do apartamento em frente ao seu.

Naquele exato momento, havia uma ruiva verdadeiramente linda, nua como ele, despejando água na tina de um cão que a aguardava na varanda do apartamento. Abel sentiu-se gelar, porque era a musa do seu sonho.

Quando se olharam, o mundo deixou de ser real, e o desejo invadiu seus corpos, deixando-os suados em meio à ventania. Por fim, ela sorriu, abriu seus braços gritou: “VEM!”.

E os dois se lançaram de suas varandas, tocando o chão sujo da rua com grande violência. Depois disso, desprenderam-se dos corpos que jaziam inertes, para voarem juntos naqueles ventos loucos, entrelaçando-se por toda a eternidade em seu vôo de amor.

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