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A consulta

Expectation por Yuri Remyga
O sol já ia alto, a neblina dissipara-se e as fofoqueiras de plantão passeavam como quem não quer nada em frente ao portão do Convento. Sabiam que o doutor havia chegado. Lá dentro, portas e janelas trancadas, ele começava a consulta com Inácia. Antes, porém, conversara longamente com a irmã superiora.
- O que houve irmã?
- Inácia voltou a enxergar.
- Que beleza! Isso é motivo de alegria não de tristeza. Agora estou mais tranqüilo.
- Sim, um verdadeiro milagre. Mas…
- Mas?
- Inácia está grávida.
- A senhora tem certeza?
- Absoluta. Só não sabemos quem é o pai.
- Ela não disse nada? Nenhuma dica?
- Diz que foi um anjo. Um anjo sem asas e perfumado, pode?
- Anjo perfumado? Não sou religioso, mas acho um pouco demais, não?
- Por mais que eu acredite na virgindade de Maria, é difícil o fato se repetir.
- Eu também. Desculpe-me.
- Não precisa se desculpar doutor. Temos que encarar a realidade.
A conversa demorou longos minutos. Paralelamente, o fuxico no bar do João corria solto.
Maricotinha escolhia as cebolas na banca e falava para quem quisesse ouvir:
- Decretei greve.
- Greve di quê, cumadi?
- Greve di bobiça. Inquantu num saí a verdade, nada di séquiço.
- I si demorá?
- Pódemorá u tempo qui fô. Pedro num mi toca.
- Ocê tá achanu qui foi êi?
- Tô achanu nada. Ocês ômi santudiguá. Num podi vê uns peitim mais durim qui fica doido sô.
- Mas a Inácia tem deficiência visual. Isso é abuso – intromete-se João.
- Tinha defeito, num tem mais. I quem dissi qui isso voga aqui? Quem dissi cocês ômi óia prus óio? Ocês óia é prus peito, pras bunda.
No convento, delicadamente, o médico inicia o exame. Pede que Inácia conte os detalhes, o dia provável da concepção e, principalmente, o momento que ela voltou a enxergar.
- Doutor, foi lindo. Aconteceu há quarenta e cinco dias, no culto ecumênico em memória do Mané. Naquela festança na tenda do Daime, muita energia no ar. Eu, Lúcia e Raquel estávamos juntas ouvindo os discursos atentamente. De repente, fiquei só. Não me assustei, uma voz me chamava para fora da tenda. Lá fui eu. Afastei-me e era como se uma luz e uma voz me guiassem. Parecia que eu flutuava.
- Voz? Luz? Mas você até então não enxergava. Você havia tomado da mistura?
- Cruz credo!
- Continue.
- Segui, parei na cerca, encostei-me no pé de jambo e alguém me chamou novamente: Inácia, Inácia…
- Estou aqui, respondi. Quem me chama?
- Sou eu, meu anjo.
- Meu anjo? Há quanto tempo lhe espero. O que quer de mim?
Ele não respondeu. Beijou-me a testa e eu estremeci. Um beijo tão suave que só um anjo poderia dar. Depois me abraçou, beijou meu rosto e eu pude sentir o seu perfume. Disse o quanto eu era linda.
- E você realmente sentiu o corpo dele ou era um sonho, uma miragem? perguntou o médico.
- Tinha um corpo macio, uma pele suave. Ele só falava palavras bonitas, me envolvia em seus braços e nessa hora já me beijava a boca. Quase desmaiei, mas era boa a sensação, e pedi que ele não parasse. Que me beijasse novamente.
- E ele beijou?
- Nossa, todinha. Ai que vergonha!
- E falou alguma coisa além de que você era linda?
- Falou. Disse que há muito tempo me esperava e que eu era a sua escolhida. E que voz, doutor! Que voz!
- Tinha o sotaque da terra?
- Não me lembro. Só me lembro do perfume e da hora que eu parecia que ia explodir, explodir, explodir e…
- E?
- Eu enxerguei pela primeira vez.
- Então você o viu?
- Não doutor. Ele estava por trás de mim e beijava minha nuca. Depois me disse que a história se repetia e sumiu. Acho que voou.
- Voou? Uai! Você disse para a irmã superiora que ele não tinha asas.
- É verdade, doutor, não tinha mesmo. Será que era um homem?




