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Compro Ferro Velho!

por Maurício Maia

Smiling Peach - asya shkolnik

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Oito horas da manhã e ele dormia sono profundo, sonhava até. Lá muito longe começava a ouvir como se estivesse ainda no sonho.

- Compro ferro-velho, maquina-de-lavar velha, ar-condicionado velho, aquecedor velho!

Compro ferro-velho!

Abriu os olhos, olhou para o relógio, não acreditava estar o sujeito berrando daquele jeito e tão cedo. O carro de som que, por sinal, era muito velho, passava por sua janela e a voz foi ficando distante, embora ainda o incomodasse. Cinco minutos depois, nova carga. O cara dizia estar ali para comprar todo e qualquer ferro-velho. Mas porra, caralho!

Ele pensava. “Não quero vender porra nenhuma velha! Quero dormir!”

Levantou-se tal qual um ninja em plena forma, correu para a área de serviço, encheu um balde de água e fez o que sempre sonhou, desde criança. Inundou o carro do ferro-velho, que agora berrava no microfone:

- Filho da puta! Aparece aí seu corno! Vou te pegar moleque!

Ele, encostado na parede do quarto, gargalhava como se fosse um menino, adorando tudo aquilo.

Ali sentado e rindo muito olhava para as paredes do quarto e veio à cabeça a época em que as mesmas paredes eram cobertas de pôsteres e fotografias.

Surfistas corajosos deslizavam como reis dropando ondas enormes, Led Zeppelin, Rush; Pink Floyd; Gênesis; James Brown. Todos ali testemunhando as deliciosas tardes em que a única preocupação era a resistência da namoradinha sempre achando que do nada a porta se abriria, mesmo estando eles sós na casa. Eram desejos e corpos colados.

Desenfreada descoberta.

Mais pra frente um pouco, casou, mudou e convidou os amigos para comemorar! Durante esse tempo viu aquele “seu” espaço sendo transformado em Biblioteca, eram quatro paredes de livros.

A cada visita, nos almoços de domingo, via as paredes se encherem de livros e mais livros até não haver mais espaço. Doze anos mais tarde uma grande reviravolta! Tudo desmoronou!

Estava ele ali novamente olhando para o quarto vazio, espaço que foi ocupando com o que lhe sobrou da outra vida. Deixa ali guardado no canto, seus quadros, gravuras, CDs, livros, instrumentos e porta-retratos como se ali estivessem sempre lhe lembrando. Está ali só de passagem.

E lá se foi, puto da vida e um pouco molhado, o homem que comprava ferro velho.

Ele, ainda dava risada.

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