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Lovi Stori
Sempre achei fascinante essa coisa de criancinhas desenvolvendo fetiches por objetos escolhidos aleatóriamente. Os homens de minha família são especialmente propensos a esse tipo de comportamento. As poucas garotas escaparam ilesas.

Brincadeira de crianças por Susan Joarlette
Meu irmão tinha o Cabitô – um cobertorzinho nojento que ele arrastava pela casa o dia todo.
Tinha o Tedolino, urso do meu primo B. Tinha o Bessinho, uma almofadinha de plush do meu primo N. e os mais engraçado de todos eram os “cóin-cóins”, fetiche do meu primo P.
“Cóin-cóin” era qualquer peça de vestuário que tivesse uma renda. Saiotes, camisolas, combinações. Ele não dormia sem esfregar o cóin-cóin no nariz.
Também era famoso por levantar as saias de visitas do sexo feminino, para vergonha de meus pobres tios e escândalo dos presentes, “para ver se tinha cóin-coin”.
No batizado do irmão mais novo, botou a igreja toda num acesso de riso histérico, por que ao ver o padre todo paramentado para a ocasião com sua batina branca com barra rendada, começou a gritar a plenos pulmões!!!
“O PADRE TEM CÒIN CÒIN!!!!!!!”
Meu filho mais velho não tinha exatamente um objeto, mas era viciadíssimo em chupetas, que eu comprava no atacado por que ele sempre as perdia pela casa. Quando não era possível localizar uma para a hora da soneca, ele fazia um dramalhão de deixar a Glõria Magadan no chinelo.
Ajoelhava-se na varanda com as mãos para o céu, e lamentava.
“Ohhhhh meu Deus! Minha sopetinha!!! O que eu fiz para merecer isso, Meu Deus!!! Como pode ser que eu não tenho uma sopetinha!!! Por favor Deus, faz aparecer uma sopetinha!!! ”
Teve dia que os vizinhos se apiedaram do choro copioso e apareceram com uma chupeta para acalmar a fera.
Meu filho caçula, para não fugir à regra, tem o Lóvi.
Lóvi é um travesseiro muito velho, muito encardido e empelotado, normalmente malcheiroso, que ele dorme acariciando, carrega pra todo o canto, usa como chapéu, bandeija, barco… o Lóvi tem mais utilidades que Bombril.
Vez por outra, por que o Lóvi vira uma sachê de amônia, ou por que o inevitável acontece (tipo o sábado em que ele ficou ensopado de Nescau) eu tenho que “tomar emprestado” para lavar.
Sob os veementes protestos do moleque, que durante todo o processo de limpeza e secagem, chora como se alguém da família tivesse falecido.
No meio do choro sentido, pára umas 63657637548 vezes para me perguntar, entre soluços, se o Lóvi esta pronto.
No sábado, foram duas horas escruciantes de dramalhão mexicano, até que retirei do Lóvi da máquina ligeiramente mais apresentável e com cheiro muito mais agradável.
Ao receber o objeto de sua afeição todo limpinho, ele o abraçou, daí parou um minuto. Abraçou de novo. Me olhou… abraçou de novo. Jogou Lóvi no chão contrariado.
Perguntei o que estava errado.
“Lóvi don’t smell like Lõvi! Lóvi smell like mami!!”
Por um lado fiquei lisonjeada e feliz de saber que cheiro a roupa limpa saida da máquina.
Por outro, fiquei meio chateada de saber que ele prefere o sachê de amônia.
Expliquei que se ele fosse nanar com Lóvi, o cheiro de Lóvi voltava.
Graças ao vazamento inevitável da fralda que ele ainda usa para dormir, na manhã de hoje, quando ele pulou na minha cama com o travesseiro, constatei que estava certa.
Lóvi ainda conservava um pouco do cheiro de “Ajax Mountain Spring”.
Mas era sem dúvida, Lóvi velho de guerra perfurando minhas narinas com cheiro de xixi de anjo.




