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Não chore por mim, Amarílis | Amores - Contos de Amor

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Não chore por mim, Amarílis

por Sérgio Ornelas

Yellow Rose Bush por Linda Nelson

Yellow Rose Bush por Linda Nelson

Bem que lhe falei. Eu deveria ter saído pela porta dos fundos, na ambulância superfaturada do plano de saúde, direto para o hospital particular que a gente paga, mensalmente, com o dinheiro da venda das rosas mirantensis, minha flor. Sairia à francesa, ninguém ia notar. Colocaríamos um boneco de inflar na cama, um João-bobo, cobriria com a colcha, enganaria os repórteres, apareceria bonito na foto. Ninguém notaria a diferença entre mim e o boneco, somos dois rechonchudos de igual circunferência e volume. Você vai dizer que eu sou mais esperto. Sei disso. Você se esqueceu da multidão que contratamos para gritar aquelas bobagens? Então, com aquela turba, aquela blindagem, não haveria quem duvidasse que eu permanecia no quarto, fazendo birra. Era só chamar um deles e aquele fotógrafo nosso amigo, pedir uma foto caprichada com você sentada ao lado da cama, semblante triste, mão na minha suposta cabeça e distribuir para toda a imprensa. Está certo que alguns iriam duvidar, dizer que era montagem, mas cá pra nós, volto a dizer, até eu acredito que não há diferença entre nós. Eu e o boneco. A única reclamação que tenho a fazer é: você está cansada de saber que eu odeio chuviscos diet! Se houver uma segunda vez, o que eu duvido, em vez dessa porcaria, providencia umas rosquinhas doces com açúcar cristalizado por cima. Aquelas que só as sogras sabem fazer. As segura-genro. E também caldo de cana e melado para comer com aipim cozido. Concordo que fazia parte da cena, mas confesso que quando esse era o cardápio, passava fome. Agora acabou, ufa! Pois bem, se você tivesse me ouvido, essa história de hospital seria outra. Mas você achou que a sua estratégia era a melhor e lá fui eu me estabacar nas escadarias do nosso palácio, na frente do povo. Não havíamos combinado isso, lembra? Foi um espetáculo, o povo me acudindo, a ambulância dos bombeiros me levando para um hospital público, foi perfeito. Perfeito para vocês. Para mim foi um horror.

Assim que cheguei eles não me reconheceram. Eu gritava, eu sou o Bolinha, eu sou o Bolinha! Não adiantou. Começaram a rir. Tive que pegar uma senha. Um papel ensebado que mais parecia sei lá o quê. Em seguida fiquei na fila para fazer o prontuário e ser encaminhado para o especialista. Não tinha especialista para o meu caso. Fui atendido por um pediatra, quatro horas depois. Menos mal. Menos mal? Eu é que sei! Disse que eu tinha que ser operado às pressas. Retruquei, disse que tinha que tomar soro, repor o potássio e os sais minerais, mas quando me vi, estava na sala de cirurgia sendo operado de fimose. E foi a seco. Não tinha anestésico. O estoque apodreceu no porto com a greve dos fiscais. O calor era insuportável. Ar condicionado-quebrado. Enquanto o médico me operava o suor dele caía na minha barriga. A enfermeira espirrava por causa do mofo que brotava da infiltração no teto. Faltavam máscaras também, tinham sido desviadas. Depois de operado, fui colocado numa maca sem lençol, no corredor. Não tinha quarto. Superlotação. Um nojo. Tanto que peguei uma infecção generalizada, minha flor. Estou à morte. Talvez nem termine essa carta. Minhas mãos tremem. Você é jovem, bonita e boa de negócio. Aproveite a vida e as oportunidades que ainda vão surgir. Pode casar de novo, só não se case com político porque essa corja não vale nada. Use nossas economias, triplique o patrimônio, quadruplique, faça milagres como você sempre fez. Não abandone a fé nem as rosas corruptas mirantensis. Lembre-se que perto delas todas serão sempre rosinhas.

Não chore por mim, Amarílis.

Bolinha.

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