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Sábado

D après-moi por Egon Schiele
por Lívia Santana
Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em todas as direções, os olhos pintados de preto permaneciam fechados e um sorriso de prazer curvava-lhe os lábios cheios e hipnóticos. Ela jogava os braços para cima enquanto os quadris remexiam-se ardorosos acompanhando o repique da música altíssima. Estava ali, na mesma posição há pelo menos meia hora, sem conseguir me mover nem despregar os olhos dela.
Mário tinha invadido a minha casa naquele sábado com um discurso inflamado sobre eu não poder continuar naquele bode, alegando que se eu ficasse mais tempo dentro de casa sozinho eu ia desaprender a falar e ficar todo embolorado. E, como bom amigo que era tinha vindo me resgatar do meu auto-exílio e das influências nefastas de mim mesmo, razão pela qual era pra eu desmanchar a carranca, entrar na roupa que ele sem cerimônia havia jogado sobre a cama e “passar um perfume pelamordedeus que ninguém era obrigado a sentir a minha catinga”.
Sem alternativa – até porque eu estava fugindo do Mário há quase um mês, desde que a Janaína tinha me dado o pé e eu estava mesmo amarrando um bode de um quilômetro dentro do meu quarto desde então – tomei uma ducha rápida, dizendo pro Mário que ele era um porco de camuflar bodum com perfume, enfiei um jeans e uma camisa legal e passei o diacho do perfume – ele não ia me dar sossego se eu não passasse, porque não ia sair comigo “fedido”.
Ele me arrastou pruma boate onde estava rolando uma festa hip hop, coisa que eu nunca fui muito chegado. Mas, como disse o Mário, a idéia era ouvir o tipo de música mais diferente possível da minha trilha sonora de fossa, que ele jurava que ainda ia jogar no lixo. Dei de ombros: que fosse então.
Lá dentro, o de sempre: penumbra, umas luzes coloridas que não iluminam nada, muita gente se esbarrando, uma mulherada superproduzida com cara de nojo e uns babacas babando em cima delas. A música, altíssima, logo deixou de me incomodar – acho que foi anestesia – e me encostei no balcão do bar, rindo do Mário que não sabia pra onde olhar e estava feliz que nem menino que ganhou brinquedo novo. Fiquei na cerveja e ele, depois de algumas doses, se jogava pra toda garota que passava e anunciava: “Prazer, Petisco!”. Elas não sabiam se riam ou se choravam e eu estava inclinado a concordar com elas. O Mário era sem noção demais e ia lhe dizer isso, quando minha atenção foi definitivamente desviada.
Ela usava uma blusa preta de mangas longas e decote discreto, combinada com uma minissaia jeans desbotada. Era assombroso como se movia graciosamente em cima de saltos tão altos e como parecia feliz apenas dançando. De olhos fechados, ela parecia alheia a tudo o mais que não fosse a música e seu próprio corpo, cujos movimentos eram mais e mais vibrantes e belos. Eu fiquei ali, só olhando, por muito tempo. Mas não fui apenas eu que a percebi e em pouco tempo, foi-se formando pequena clareira à volta dela, uma horda de abutres se aglomerando para contemplar sua dança.
Vi um deles se aproximar e sussurrar algo em seu ouvido e crispei as mãos sem perceber. Ela interrompeu a dança, abriu os olhos – eram grandes e verdes – sorriu e abanou a linda cabeça em sinal negativo. Então, virou-se de costas pro inoportuno, tornou a fechar os olhos e recomeçou a requebrar ainda com mais energia. Outros tentaram algumas vezes e ela os rechaçou a todos. Tive orgulho dela: “Isso, não se entregue facilmente, mande todos eles passearem”.
O Mário apareceu, dizendo que estava bêbado, que ia vomitar no banheiro e já voltava. Sem desviar os olhos dela, eu acenei afirmativamente. Nada mais importava.
Eu tentava decidir se iria até lá, quando subitamente ela parou de dançar, ajeitou os longos cabelos com as mãos, sapecou um beijo no rosto de uma outra garota parada ali perto, acenou pra mais alguns e saiu caminhando rumo à saída. Fiquei um instante sem ação e depois corri atrás dela, sem nem lembrar que o Mário provavelmente estaria caído nalgum canto do banheiro masculino. Cheguei à porta em tempo de vê-la sair e tentei segui-la, mas o segurança me deteve, cobrando o cartão de consumo pago.
Pensei em explicar que o amor da minha vida estava indo embora, que eu nunca mais ia vê-la de novo se ele não me deixasse sair, mas a cara de poucos amigos não inspirou confidências. Paguei o cartão às pressas, mas ela não estava mais à vista quando cheguei à calçada e a vontade que eu tive, além de chorar, foi voltar e quebrar o segurança de porrada. Ainda bem que lembrei a tempo que o fato do meu coração estar partido não tinha me feito dobrar de tamanho nem aprender kung fu.
Voltei pro interior da boate pra resgatar o Mário – que de fato estava sentado no banheiro, meio desnorteado – e fomos pra casa.
Durantes os meses que se seguiram, amarguei outra fossa, talvez ainda maior que todas as outras, mas dessa vez o Mário não reclamou. Embora eu passasse a semana toda ouvindo a minha trilha sonora depressiva – incrementada com mais alguns clássicos da dor de cotovelo – e desenhando a silhueta dela compulsivamente em todo pedaço de papel que me caísse nas mãos, todos os sábados eu tomava um banho, passava perfume e ia praquele mesmo lugar, procurar por ela.




