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Géssica Hellmann
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Um conto inocente
Eis um conto… Coisa romântica e meio purista, …. uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um lado e o corpo em reação contrária por outro. Uma fase difícil… que só me propiciava sonhar….

Swinging Infinity por Margaret Cilento
Verão. No céu nuvens desenhavam elefantes, ursos e palhaços. Estou deitada no fundo quintal, mãos atrás da cabeça, lápis sendo mordiscado no canto da boca e a lição da Dna Margarida, esquecida ao lado…
Um ruído em crescendo e identifico um carro de som que acaba de dobrar a esquina. Em alvoroço trato de ajeitar a saia, arrumo a blusa torta e corro para o muro que separa minha casa da rua. E na rua passa uma pick up com alto falante, onde aos berros, uma voz entusiasmada anuncia o maior circo do mundo!! E ele vai se apresentar bem na nossa cidade, lá no descampado da Prefeitura. Finalmente o Circo Americano em Apucarana!!..Entrei casa a dentro à toda sorrindo e já sonhando com o espetáculo que ia assistir já no no final da tarde. Vi minha mãe fazendo recomendações de meu comportamento, mas nos meus quinze anos, pensava que sabia tudo. Ansiava com a chegada da hora.
Escolhi o vestido mais lindo, queria ver de perto o circo tão falado na cidade. Minhas amigas chegaram, meus cabelos ainda molhados, esvoaçavam com o vento, sorria numa alegria de menina. A fila enorme, o pipoqueiro foi à primeira atração que vi. Compramos pipocas para a hora passar, as pessoas andavam de lá pra cá. Lourdes era a mais quietinha, parecia indiferente. Quando a fila foi diminuindo, ela olhou para a imensa lona meio assustada, mas a minha alegria era tanta, que nem ouvi seu comentário. Escolhemos a arquibancada mais próxima do picadeiro. Vestia um vestido de seda verde, meus cabelos negros combinando com o esmeralda de meus olhos, diziam que eu parecia uma artista. Ah…. eu me sentia mesmo uma artista… Minha primeira ida ao circo… puxa!! Debrucei meus braços nos joelhos e fiquei sonhando com aquele picadeiro, gostaria muito de fazer parte daquele mundo colorido do circo.
Nesse momento, um rapaz loiro, atravessou o picadeiro para puxar uma corda atravessada que ia até a arquibancada perto de nós. Ele parou e pediu licença, num sotaque que desconhecia. Nossos olhos se encontraram, notei um sorriso em seus lábios, meu coração disparou, ele parou e quando puxava a corda, jogou um beijo pra mim. Fiquei sorrindo numa alegria tão grande que minhas amigas aplaudiram. Não via hora do começo do espetáculo. Tentava imaginar qual seria a função daquele rapaz, seria um ajudante, e com certeza não mais o veria. Mas ficava olhando por toda parte do circo, onde estaria aquele loiro tão lindo que parecia um anjo. Nesse momento uma música de orquestra invadiu o circo, as pessoas aplaudiam, um senhor regiamente vestido e com ar seríssimo veio andando majestosamente até o centro do picadeiro e anunciou o inicio dos espetáculos.
Um grupo de palhaços invadiu o palco, as pessoas riam e um deles se destacou do grupo, foi se aproximando de nós e jogou uma flor pra mim… Peguei, e consegui ver seus olhos azuis escondidos na maquiagem. A alegria foi misturada em gargalhadas, aquele circo estava sendo uma grande mudança em minha vida, jamais sentira tanta emoção. E outros espetáculos aconteciam, mágicos, domadores, malabaristas, uma infinidade de atrações que nunca mais vi nos circos modernos… Circo, uma arte em extinção… Ah…mas eu já não estava mais interessada nas maravilhosas atrações se sucedendo umas às outras… Eu ficava era desejando ver de novo aquele rapaz que me dera alegria e depois desaparecera…
Meu Deus, meu primeiro flerte… E logo com um palhaço de circo….!! Ai, e tão lindo… Nesse instante, o homem de roupas elegantes e que fazia a locução, anunciou o espetáculo do trapézio.
Uma música começou a embalar o publico, as pessoas aplaudindo, uma rede foi estendida abaixo dos trapézios que ficavam lá no alto da lona à milhares de metros de altura para mim…Mexendo com o coração dos espectadores, estava o locutor fazendo o suspense do perigo que os trapezistas iriam desafiar!… Nesse momento dois rapazes e uma moça aparecem no picadeiro… Suas roupas colantes, brancas e com brilho, os transportavam; ao menos na minha cabeça, aos reinos de seres mitológicos e fantásticos tão comuns na imaginação juvenil.. Eles chegaram bem perto do publico para agradecer as palmas antecipadas ao espetáculo.Quando eles se viraram para nosso lado, dois palhaços atravessaram o palco, minha atenção voltou-se de imediato para eles, queria ver de novo o meu anjo vestido de palhaço enão o grupo de trapezistas, agora virados pra nós.
Eu procurava o olhar dos palhaços, reconhecer um deles mas, foram embora sem olhar pra mim. Ansiosa; senti uma ponta de decepção, quando Lourdes bateu de leve em meu braço para que eu olhasse para o trapezista mas… eu não dava atenção a ela, queria o olhar do palhaço,. Com o grupo se afastando, é que percebi que um dos trapezistas era o meu anjo…Tentei olha-lo, mas ele já se virara para a direção da escada de corda. Senti a sensação de perda, e Lourdes então disse que ele ficara o tempo todo me olhando. O espetáculo começou, ele bailava no alto, sentia um vento frio em meu rosto, a platéia aplaudindo, e lá do alto, seu corpo bem feito desafiando o perigo, em acrobacias cronometradas e a música melancólica da orquestra ajudando o show ficar mais fascinante… Ele olhou em minha direção… consegui ver seu sorriso, e do trapézio ele jogou outra flor que, em parábola quase perfeira, desenhou um longo arco desde o trapézio em movimento alucinante, acabando no entanto por cair duas fiadas atrás de mim, agarrada imendiatamente por uma outra moça intusiasmada.
Senti ciúmes, mas ele deu outro sorriso…Ficamos assim trocando sorrisos, beijou mão e a passou no coração e fez que jogara pra mim, fiz o mesmo gesto…Estávamos curtindo um flerte maravilhoso.
Nesse instante, número terminado, os três foram descendo as cordas, com aplausos e gritos confusos. Meu herói descia rápido, no fascínio daquele sentimento novo, não percebia, nem eu também, maravilhada com a perspectiva de vê-lo na minha frente, que as pessoas estavam gritando… que uma claridade sinistra de fogo surgiu do outro lado… Por um momento pensei que fazia parte do espetáculo, mas era um incêndio. As pessoas gritavam e corriam por varias direções. Um elefante enlouquecido passou em disparada, cindo sabe-se lá de onde, arrastando atrás de si lonas inflamadas, num paroxismo de pavor e dor. foi abrindo caminho de forma enlouquecida, arrastando o que encontrava pela frente, atropelando pessoas, pisoteando-as em busca de sua própria salvação.
Nesse momento a arquibancada começa a balançar. Apavorada, procurei minhas amigas com um olhar mas elas haviam desaparecido de perto de mim. Tentei descer do madeiro mas era tarde.. com um horrível estrondo elas se desmontaram, me deixando presa… Meu Deus, recordar estas cenas me trás novamente ao meio daquele fogo, pessoas gritando, outras virando verdadeiras tochas humanas… Minha perna estava presa entre as madeiras e eu estava impossibilitada de sair do lugar e quando já perdia as forças, senti alguém tentando tirar-me dali…Nossos olhos se encontraram nesse instante de puro pavor. O fogo já dominando quase tudo e ele fazendo força para livrar minhas pernas.Pedi em desespero que ele fosse embora, que salvasse sua vida mas ele, gesticulando muito saiu à procura de ajuda. O calor era insuportável e eu já nada mais via com aquela fumaça acre, quando outra vez tive esperança de sair daquele incêndio.
Ele voltou com um ferro enorme, e com uma força descomunal, conseguiu empurrar partes das arquibancadas que prendiam minhas pernas. Ele me retirou semi inconsciente e tentou sair… Mas tinha muito fogo… Ele me carregava entre os braços; a dor era tanta, que queria apenas permanecer ali… quieta, que tudo acabasse, no intanto uma outra parte de mim, guerreira e lutadora tentava permanecer acordada… E ele conseguiu um atalho por entre o fogo e as pessoas pelo chão. Já chegávamos quase do lado de fora, quando outras partes de arquibancadas cairam, arrastando-nos impotentes no mar de fogo.. Ficamos abraçados e sem esperança de sobreviver.Meu herói não desistira, no entanto.. Tentava me carregar, apesar de muito ferido…Desesperada, consegui me arrastar mais pra dentro das tábuas para defender-me do fogo… Um instante de calmaria e esquecendo-me da dor implorei novamente para que le saísse dali.. então acabou.. com um estrondo toda a estrutura veio finalmente abaixo.
E milagre, à nossa volta o céu estrelado sendo vez por outra obscurecido pela fumaça ao nosso redor. Fomos amparados por várias pessoas e perdi os sentido. Acordei no hospital, uma semana depois. Fiquei então sabendo a catástrofe tinha sido terrível, que muitas pessoas tinham morrido. Lembrei-me então do trapezista… Não sabia nada dele, nem ao menos se estava vivo. Chorei baixinho, ninguém poderia entender que um amor poderia acontecer tão rápido e ter um fim tão trágico. Voltei a minha vida normal, todos os dias nos jornais saiam noticias de pessoas que perderam amigos, famílias inteiras morreram. Minhas amigas, graças à Deus, conseguiram se salvar. Passaram-se alguns anos. Fui para a universidade e lá conheci o André, estudante de psicologia. Bom rapaz, educado e gentil, foi meu companheiro por dois anos na escola. Eu estava com ela quando fomos convidados para um seminário na Argentina.
Córdoba é uma cidade linda e foi lá que chegamos numa noite clara… A cidade toda iluminada tinha um brilho especial em um canto… As luzes iluminavam intensamente a lona filetada e inconfundível de um grande circo. Meu pensamento voltou-se incontinenti para uma outra época e eu não podia deixar de ter um trauma violento por causa do acidente ocorrido em apucarana anos antes…Meu herói trapezista e palhaço veio imediatamente à memória… Naquela noite André bateu à porta de meu apartamento no hotel, com os outros colegas presentes no mesmo seminário. André era muito atencioso, entrou no quarto e abraçou-me e olhando pela janela, para a redoma iluminada ao longe, pediu que eu falasse daquele dia. Senti uma sensação ruim, e implorei em não ter que trazer novamente à tona, os acontecimentos daquela noite mas, por ser psicólogo, ele gentil mas dominador, insistiu dizendo que eu tinha que vencer o medo.
E mais, iríamos todos juntos ao circo…Recusei, mas André e os colegas insistiram . A sensação de medo era muito forte… quando chegamos àfinal na entrada do circo, não agüentei, entrei em pânico e recuei violentamente… Fui abraçada ainda chorando por André. Nesse instante nossas mãos se encontraram, senti segurança, ele dizendo que me ajudaria a curar o trauma.. Enfim, agarrada à ele e escoltada pelos amigos, fomos procurar uma arquibancada, André me abraçava, nunca sentira tanto carinho depois daquela época. O espetáculo começou, em minha lembrança, olhei para os lados, meus colegas de faculdades, comiam pipocas, parecia a mesma cena, André acariciava minhas mãos, nesse instante o locutor anunciou o espetáculo do trapézio.
Um murmúrio de excitação elevou-se da platéia e um trio elegante apareceu no palco, uma lágrima rolou em meu rosto, lembrança daquele sorriso que nunca mais saiu de minha lembrança… Senti as mãos de André segurando firmes, as minhas.. A troupe se dirigiu Aos presentes em cuprimentos e, neste momento três palhaços atravessaram o palco. Lembrei-me de Lourdes e meu olhar foi para o grupo de trapezista,. Os palhaços davam cambalhotas e faziam micagens.. Dois… O terceiro ficou estático…
Faltava-lhe uma perna… Tirou a flor espalhafatosa que trazia na lapela do paletó bizarro e, abrindo um sorriso enorme, jogou-a em minha direção… Nesse instante meus olhos encontraram-se com os dele… Senti um calafrio… Levantei-me calmamente e comecei a descer as arquibancadas. André tentou me impedir mas nada e nem ninguém teria podido me parar…
Aproximei-me do picadeiro, ele estendeu as mãos, pulei para o lado de dentro com dificuldades e nos abraçamos…A platéia aplaudia sem nada entender, o que ocorria ali.. Aquele abraço sentido, que não acabava, era um abraço de saudade, de uma página virada, de felicidade…Foi o perder as asas da fantasia e ter de vez os pés na realidade….




