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Géssica Hellmann
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Um conto
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Old woman (1996) por Joel Kass
Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país.
A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus… Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista….
Chamei o próximo paciente e aquela sensação acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer. Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando, a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe segurança, embora eu própria não soubesse ainda que caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada. Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar. Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir.
Voltaria dentro de um mês para avaliarmos o seu estado. Por cinco meses seguidos eu o vi entrar em meu consultório e a cada vez a sensação estranha tomava conta de mim. Com o tempo fomos nos tornado mais amigos e paulatinamente fui conhecendo um pouco de sua vida Quando criança, Eduardo via as primas ricas sendo quase que empurradas para as aulas de piano que detestavam. Ele, que gostava tanto de música, ficava morrendo de vontade de ocupar o lugar delas mas não podia realizar seu desejo por conta da sociedade interiorana de onde vivia, que achava pouco viril para um homem, estar às voltas com aulas de piano. Tinha um pai severo e que se recusava a pagar pelas aulas. Quando terminou o curso normal, foi ser professor. Reservava de seu pequeno salário uma quantia para poder manter-se no conservatório. Formou-se em piano como sempre sonhara. Devido ao seu esforço acabou por destacar-se. Foi convidado a dar um recital no teatro municipal e seu trabalho começou a ser reconhecido fora dos limites de sua cidade.
Foi assim que sua carreira teve início. Ele falava com naturalidade, como se ser famoso por seu talento fosse apenas questão de muito empenho. Eu ouvia tudo como se eu própria progredisse com ele. Quase não me dei conta de que estava me apaixonando. Ansiava por revê-lo e esperar um mês por cada consulta começou a representar um tormento para mim. Ficava imaginando-o em sua casa, ao lado da mulher e da filha adolescente que acabara de passar no vestibular de medicina. Sentia ciúmes daquela vida da qual eu não participava. O fato de não ter me casado nunca chegara a me incomodar antes de conhecê-lo. Eu estava com trinta e sete anos, faria trinta e oito dentro de dois meses, e minha vida parecia completa com o meu consultório e a reputação de médica talentosa e bonita. De repente, eu me via com desejo de ter uma família estabelecida, de ter filhos e Eduardo como esposo. Meu Deus, isto me deixava desconcertada.
Procurei infiltrar-me mais em seus pensamentos, conhecer mais de sua vida. Precisava estabelecer um contato mais pessoal e menos profissional.
Era antiético, eu sei, mas inconscientemente eu estava travando uma guerra de conquista. Eduardo foi se recuperando aos poucos. Sua febre havia desaparecido e ele estava-me grato por isso. Seus olhos adquiriram um brilho natural, menos vítreo. Sentia-se mais disposto. Relutante, por meus próprios motivos, acabei por indicar seguimento médico de dois em dois meses. Foi difícil deixar de vê-lo todo mês mas eu não poderia fazer de outro modo: ele estava visivelmente mais saudável. E eu, apaixonada. Ele era maduro, seguro, inteligente, brilhante. Eu parecia uma garota (de quarenta anos) descobrindo o primeiro amor, incapaz de mostrar os meus sentimentos com medo de ser rejeitada. Havia ainda um outro problema: ele era casado e, ao que tudo indicava, bem casado… Foi num começo de fevereiro. Ele entrou em minha sala e eu percebi na hora, por ter-lhe olhos tão atentos, que algo o perturbava. Tivera febre naquela semana e passara dois dias de cama. Solicitei exames de sangue. Com os resultados em mãos, novamente eu o tinha diante de mim. Tirou o paletó esporte e quase que arriou na cadeira.
Constatei imunidade em baixa. Insisti para que ele me contasse o que o estava incomodando. Eduardo relutou muito antes de dizer-me, quase que entre lágrimas, que vinha atravessando uma fase difícil no seu relacionamento com a esposa. Ela não o apoiava em sua paixão pela música e passava a maior parte do tempo em viagens frívolas e desnecessárias. Ele estava se sentindo sozinho e rejeitado. Nem me vi levantar da cadeira. Quando me dei conta já estava de joelhos ao seu lado, enxugando suas lágrimas com minhas mãos. Segurei seu queixo e colei os meus lábios nos dele. A princípio ele ficou assustado, depois levantou-se de súbito e abraçou-me em desespero e deu-me um beijo longo. Ficou me abraçando fortemente enquanto eu passava os dedos em seus cabelos, me embriagando de sua colônia, ar sumindo de dentro de mim e a cabeça nas nuvens.. Meu Deus… que sensação era aquela? Desvencilhando-se devagar do meu abraço, pegou do espaldar seu paletó, e saiu do consultório sem olhar para trás.
Fiquei ali parada, os braços ao longo do corpo, inertes, coração me saindo pela blusa e o rosto afogueado…. Parecia anestesiada. Um misto de emoções me invadia mas eu não conseguia sair do lugar. Queria correr até ele e falar de tudo que represara por tanto tempo: que eu o amava, que o queria sempre perto, que queria casar com ele. Cancelei as consultas seguintes e fui para minha casa vazia.
Aguardei um telefonema, um sinal. Fiquei à espera da próxima consulta como criança aguardando o Papai Noel. Eduardo desmarcou-a na semana seguinte. Quando a atendente deu-me o recado, eu levei um choque. Precisava tanto revê-lo, precisava explicar. Depois fiquei apreensiva. Será que ele iniciaria um processo por assédio e arruinaria a minha carreira? Senti-me então uma idiota por ter este pensamento: Eduardo estava acima disso. Ele não voltou ao meu consultório.
Segui a sua carreira à distância. Comprava pelo menos três jornais por dia para não perder qualquer notícia que falasse dele. Exultava com cada sucesso, enfurecia-me com cada comentário desabonador. Acabei fazendo um álbum de recortes. Se via o anúncio de uma apresentação, corria a comprar ingresso para a última fileira do teatro, de onde eu podia vê-lo sem ser vista. Aplaudia-o de pé ao final do espetáculo, rendendo homenagem àquele homem que marcou a minha vida. Nunca me aproximei. Eu não me sentia no direito. Não sei se eu era uma covarde ou uma mulher de caráter.
Hoje pela manhã, como faço há quarenta anos, passei pela banca e comprei meus jornais. Sentei-me no banco da praça e calmamente comecei a folheá-los. Porque agora me sobra tempo, leio até os anúncios dos classificados. Quando cheguei à página dos necrológios, um quadro saltou-me aos olhos, as letras parecendo grudar na minha retina: “…os parentes e amigos do consagrado pianista Eduardo Mayo agradecem os gestos de pesar e convidam para a missa de 7º dia de falecimento a ser realizada hoje às dezenove horas, na Igreja Matriz…”
Como, meu Deus, eu não fiquei sabendo antes? Que falha a minha não ter prestado atenção nesta seção do jornal na semana passada! Meu coração se entristeceu e um pouco de mim morreu ali. Vesti-me com esmero e, no final da tarde dirigi-me à Igreja Matriz. Sentei-me no último banco. Ao invés de prestar atenção às palavras do padre que rezava a missa, detive-me na figura trêmula e chorosa de uma senhora de vestido escuro, na primeira fila, que era confortada por uma mulher de cabelos negros. Provavelmente seriam a viúva e a filha, médica como eu. Fiquei imaginando que, se tivesse tido mais coragem, fosse mais impetuosa, a velha vestida de preto ali, poderia ser eu.
Saí da igreja cabisbaixa mas não desesperada. Sei que com meus oitenta anos não demorarei muito a seguir o caminho dele.
A partir de amanhã não comprarei mais jornais. Não preciso mais….




