<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Amores - Contos de Amor &#187; amores urbanos</title>
	<atom:link href="http://gehspace.com/contos-de-amor/category/amores-urbanos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://gehspace.com/contos-de-amor</link>
	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
	<lastBuildDate>Thu, 05 Nov 2009 12:29:52 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>firmina e norberto</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/firmina-e-norberto/</link>
		<comments>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/firmina-e-norberto/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:30:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[poli paiva]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://gehspace.com/contos-de-amor/?p=128</guid>
		<description><![CDATA[<p>Poli Paiva &#8211; A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas&#8230;</p>
<p class="wp-caption-text">Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor</p>
<p>a terapeuta de casais havia dito para firmina <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/firmina-e-norberto/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Poli Paiva &#8211; A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas&#8230;</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 412px"><img title="Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor" src="http://www.gehspace.com/edicao%2052%20imagens/KANTOR%20Maxim%20Karlovich-%20under%20the%20quilt%201990.jpg" alt="Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor" width="402" height="220" /><p class="wp-caption-text">Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor</p></div>
<p>a terapeuta de casais havia dito para firmina e norberto que eles precisavam destinar pelo menos uma manhã por semana para cultivar a relação. como já eram casados há 10 anos, resolveram obedecer.</p>
<p>a ordem era não ter pressa de sair da cama e nem de escovar os dentes. firmina, filha mais velha de mãe solteira, neurótica desde criancinha, não conseguia dormir pelas manhãs, nem nas de sábado. começou então a procurar o que fazer, já que acordava primeiro e não podia escovar os dentes, nem fazer café, nem multiprocessar todas as informações do mundo, do condomínio, das crianças e das 4 irmãs solteiras que viviam a lhe contar suas peripécias sexuais e a lhe dizer que era melhor estar casada do que solteira porque as casadas ainda tinham o benefício do divórcio.</p>
<p>logo relembrou de um esporte espetacular que não praticava desde solteira: olhar por debaixo das cobertas enquanto norberto dormia e ficar a observar o sono pesado daquele homem todo nu, que depois de 10 anos não tinha ficado barrigudo nem careca nem broxa nem metrossexual. saiu do sedentarismo para entrar pro mundo das sortudas. norberto podia demorar o tempo que fosse pra acordar que não tinha mau tempo. como se tratava do primeiro sábado de inverno e firmina estava bastante empolgada com a nova velha vida de desportista, resolveu citar a poesia de zeca baleiro no momento em que o pai de seus filhos abriu os olhos:</p>
<p>- hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o portugûes da padaria.</p>
<p>- quê isso, mamãe? pirou? flor pro delegado? de onde? da décima nona?</p>
<p>firmina só ria. na verdade gargalhava da barriga doer. norberto, ainda sonolento &#8211; mas ciente de se tratar de uma manhã de sábado, resolveu entrar na onda:</p>
<p>- e vem cá, qual vizinho? seu vladimir? ele não gosta da gente! diz que as crianças resolvem começar a gritar sempre depois das 10 da noite!</p>
<p>firmina percebeu que aquilo era muita metáfora para ele e, para evitar maiores explicações, resolveu calar a boca do seu homem utilizando seus artifícios de fêmea habilidosa. como se tratavam de ordens médicas, norberto, que já gostava mesmo daquilo tudo, acabou aceitando de bom grado a investida precisa da esposa. depois de mais ou menos 45 minutos de esportes intra-aeróbicos, ainda intrigado, afirma:</p>
<p>- não gostei desse negócio de beijar português da padaria não, mamãe! sabe como é esse povo da vizinhança! daqui a pouco tá falando de você e daí vou ter que me meter e aí quando eu fico nervoso, o bagulho pesa!</p>
<p>pela primeira vez, firmina entendeu racionalmente o quanto seu maridinho era maravilhoso. foda-se se ele não conseguia alcançar a poesia de zeca baleiro. isso era o de menos. ainda tinha outra coisa: ela podia tirar onda de poeta sem ter que dar os créditos. e o mais importante era que aquele homem ao seu lado era um pai bacana de 3 filhos, cheio de cabelo, sem barriga, sem frescura e de pau duro pra toda obra.</p>
<p>na manhã de segunda, enquanto sorria e dirigia rumo ao trabalho, ao som do baleiro, resolveu mandar flores para a teraupeuta, essa maga que com uma simples dica tinha feito ela perceber que em time que está ganhando não se mexe jamais. muito menos durante a temporada de inverno.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/firmina-e-norberto/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Noite e dia</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/noite-e-dia/</link>
		<comments>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/noite-e-dia/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://gehspace.com/contos-de-amor/?p=126</guid>
		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria</p>
<p>por Zander Catta Preta</p>
<p>Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/noite-e-dia/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 388px"><img title="Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria" src="http://www.gehspace.com/edicao%2052%20imagens/Grey%20Male%20Nude%20-%20Kliot,%20Rina%20Maria.jpg" alt="Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria" width="378" height="458" /><p class="wp-caption-text">Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria</p></div>
<p><em>por Zander Catta Preta</em></p>
<p>Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.</p>
<p>&#8220;Posso fumar?&#8221; Pediu permissão apenas na terceira tragada. &#8220;Pode sim. Não me incomoda o cigarro.&#8221; &#8220;Você fuma?&#8221; &#8220;Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade.&#8221;</p>
<p>Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.</p>
<p>&#8220;Caramba!&#8221; &#8220;Que foi, lindão?&#8221; &#8220;Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!&#8221; &#8220;Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?&#8221; &#8220;&#8230;&#8221; &#8220;Você sabe que não faz diferença para mim.&#8221;</p>
<p>Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.</p>
<p>&#8220;O que acontece, amor? Você está avoado&#8230; parece que está pensando na vida, na morte da bezerra.&#8221; &#8220;E tô mesmo.&#8221; &#8220;Mas qual o porquê disso?&#8221; Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. &#8220;Vou tomar uma ducha. Quer vir?&#8221;</p>
<p>Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês &#8211; e não o contrário &#8211; e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.</p>
<p>Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.</p>
<p>Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.</p>
<p>Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.</p>
<p>Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.</p>
<p>Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.</p>
<p>&#8220;Benhê. Posso te chupar?&#8221;</p>
<p>Ele abriu um sorriso.</p>
<p>A humanidade tinha esperança, afinal de contas.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/noite-e-dia/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Que maravilha!</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/que-maravilha/</link>
		<comments>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/que-maravilha/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:21:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[carolina thomaz]]></category>
		<category><![CDATA[maurício maia]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://gehspace.com/contos-de-amor/?p=124</guid>
		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Retrato por Roberto Stelzer</p>
<p>por Maurício Maia e Carolina Thomáz</p>
<p>Chuva fina. Ele caminha pela Rua Visconde de Pirajá em Ipanema. A chuva o incomoda um pouco, o <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/que-maravilha/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 376px"><img title="Retrato por Roberto Stelzer" src="http://www.gehspace.com/edicao%2051%20imagens/roberto%20stelzer%20retrato.jpg" alt="Retrato por Roberto Stelzer" width="366" height="525" /><p class="wp-caption-text">Retrato por Roberto Stelzer</p></div>
<p><em>por Maurício Maia e Carolina Thomáz</em></p>
<p>Chuva fina. Ele caminha pela Rua Visconde de Pirajá em Ipanema. A chuva o incomoda um pouco, o deixa completamente aéreo, voando alto sem que ninguém perceba. Bom, isso é bom. Ele gosta.</p>
<p>Caminhando em direção contrária da sua, do outro lado da rua, ele a percebe: Vestido florido, tecido fino, daqueles que voam. Sabe? Ele gosta disso.</p>
<p>Sinal aberto. Ele atravessa a rua correndo por entre os carros. Pensa poder voar. Tolo, quase morre. Mas não tem importância, afinal ele ama vestido florido.</p>
<p>Mesma calçada. Mesma direção. Agora ele passa a caminhar junto dela, não exatamente grudado, mas perto o bastante para sentir que ela usava um perfume do bom. Sabe?</p>
<p>A chuva aperta e ela continua andando no mesmo passo, com a elegância de Vênus a lhe acompanhar. Ao menos penso Vênus ser elegante. Mas isso não importa quando vejo aquele rostinho dourado inclinar levemente, olhando o céu, cara pra chuva pedindo: Vem&#8230; me molha?</p>
<p>Impossível ele deixar de observar o gingado daquelas pernas torneadas, músculos e ossos bem dimensionados. E, claro, não teria como esquecer de notar o brilho daqueles fios de cabelos castanhos, bem tratados, que voavam com mesma suavidade na qual ela caminhava. Bonita, ela é bonita.</p>
<p>A chuva dá trégua. Eles percebem juntos, e ela sorri. Que maravilha! Ele sorri de volta.</p>
<p>Toca o celular. Ele perde o passo enquanto tenta livrar-se o mais rápido possível daquela maldita chamada fora de hora. Um pouco distante ele agradece não ter perdido o foco.</p>
<p>Ela agora segue bem à frente, entra na Praça Nossa Senhora da Paz, acomoda-se num banco vazio. Ele fica perto de uma árvore, parado, só a observando.</p>
<p>Que bonitinho &#8211; ele pensa &#8211; Agora ela vai tirar da bolsa um bom livro, daqueles que concentram a ponto de não perceber ninguém a sua volta, talvez nem a mim. Não teria problema, ele adora aqueles óculos fininhos, discretos, que ficam lindos só em algumas moças. Ele gosta disso, é um bom observador.</p>
<p>Nenhum livro em mãos, talvez ela vá simplesmente observar os passantes&#8230;</p>
<p>&#8230; Mas, o que é isso?</p>
<p>Ela tira um saco plástico, daqueles de supermercado, de dentro da bolsa e um estranho alvoroço de pombos formava-se à sua volta.</p>
<p>Não, não pode ser.</p>
<p>Era.</p>
<p>Ela jogava migalhas de pão para os pombos, enquanto emitia grunhidos como se conversasse com eles.</p>
<p>Bastou isso.</p>
<p>Virou-se e continuou seu caminho.</p>
<p>Ele odeia pombos.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/que-maravilha/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sábado</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/sabado/</link>
		<comments>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/sabado/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 14:46:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://gehspace.com/contos-de-amor/?p=118</guid>
		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">D après-moi por Egon Schiele</p>
<p>
por Lívia Santana

Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/sabado/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 402px"><img title="D après-moi por Egon Schiele" src="http://www.gehspace.com/edicao%2050%20imagens/D%20apr%E8s-moi%20-%20Egon%20Schiele.jpg" alt="D après-moi por Egon Schiele" width="392" height="555" /><p class="wp-caption-text">D après-moi por Egon Schiele</p></div>
<p><em><br />
por Lívia Santana<br />
</em><br />
Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em todas as direções, os olhos pintados de preto permaneciam fechados e um sorriso de prazer curvava-lhe os lábios cheios e hipnóticos. Ela jogava os braços para cima enquanto os quadris remexiam-se ardorosos acompanhando o repique da música altíssima. Estava ali, na mesma posição há pelo menos meia hora, sem conseguir me mover nem despregar os olhos dela.</p>
<p>Mário tinha invadido a minha casa naquele sábado com um discurso inflamado sobre eu não poder continuar naquele bode, alegando que se eu ficasse mais tempo dentro de casa sozinho eu ia desaprender a falar e ficar todo embolorado. E, como bom amigo que era tinha vindo me resgatar do meu auto-exílio e das influências nefastas de mim mesmo, razão pela qual era pra eu desmanchar a carranca, entrar na roupa que ele sem cerimônia havia jogado sobre a cama e &#8220;passar um perfume pelamordedeus que ninguém era obrigado a sentir a minha catinga&#8221;.</p>
<p>Sem alternativa &#8211; até porque eu estava fugindo do Mário há quase um mês, desde que a Janaína tinha me dado o pé e eu estava mesmo amarrando um bode de um quilômetro dentro do meu quarto desde então &#8211; tomei uma ducha rápida, dizendo pro Mário que ele era um porco de camuflar bodum com perfume, enfiei um jeans e uma camisa legal e passei o diacho do perfume &#8211; ele não ia me dar sossego se eu não passasse, porque não ia sair comigo &#8220;fedido&#8221;.</p>
<p>Ele me arrastou pruma boate onde estava rolando uma festa hip hop, coisa que eu nunca fui muito chegado. Mas, como disse o Mário, a idéia era ouvir o tipo de música mais diferente possível da minha trilha sonora de fossa, que ele jurava que ainda ia jogar no lixo. Dei de ombros: que fosse então.</p>
<p>Lá dentro, o de sempre: penumbra, umas luzes coloridas que não iluminam nada, muita gente se esbarrando, uma mulherada superproduzida com cara de nojo e uns babacas babando em cima delas. A música, altíssima, logo deixou de me incomodar &#8211; acho que foi anestesia &#8211; e me encostei no balcão do bar, rindo do Mário que não sabia pra onde olhar e estava feliz que nem menino que ganhou brinquedo novo. Fiquei na cerveja e ele, depois de algumas doses, se jogava pra toda garota que passava e anunciava: &#8220;Prazer, Petisco!&#8221;. Elas não sabiam se riam ou se choravam e eu estava inclinado a concordar com elas. O Mário era sem noção demais e ia lhe dizer isso, quando minha atenção foi definitivamente desviada.</p>
<p>Ela usava uma blusa preta de mangas longas e decote discreto, combinada com uma minissaia jeans desbotada. Era assombroso como se movia graciosamente em cima de saltos tão altos e como parecia feliz apenas dançando. De olhos fechados, ela parecia alheia a tudo o mais que não fosse a música e seu próprio corpo, cujos movimentos eram mais e mais vibrantes e belos. Eu fiquei ali, só olhando, por muito tempo. Mas não fui apenas eu que a percebi e em pouco tempo, foi-se formando pequena clareira à volta dela, uma horda de abutres se aglomerando para contemplar sua dança.</p>
<p>Vi um deles se aproximar e sussurrar algo em seu ouvido e crispei as mãos sem perceber. Ela interrompeu a dança, abriu os olhos &#8211; eram grandes e verdes &#8211; sorriu e abanou a linda cabeça em sinal negativo. Então, virou-se de costas pro inoportuno, tornou a fechar os olhos e recomeçou a requebrar ainda com mais energia. Outros tentaram algumas vezes e ela os rechaçou a todos. Tive orgulho dela: &#8220;Isso, não se entregue facilmente, mande todos eles passearem&#8221;.</p>
<p>O Mário apareceu, dizendo que estava bêbado, que ia vomitar no banheiro e já voltava. Sem desviar os olhos dela, eu acenei afirmativamente. Nada mais importava.</p>
<p>Eu tentava decidir se iria até lá, quando subitamente ela parou de dançar, ajeitou os longos cabelos com as mãos, sapecou um beijo no rosto de uma outra garota parada ali perto, acenou pra mais alguns e saiu caminhando rumo à saída. Fiquei um instante sem ação e depois corri atrás dela, sem nem lembrar que o Mário provavelmente estaria caído nalgum canto do banheiro masculino. Cheguei à porta em tempo de vê-la sair e tentei segui-la, mas o segurança me deteve, cobrando o cartão de consumo pago.</p>
<p>Pensei em explicar que o amor da minha vida estava indo embora, que eu nunca mais ia vê-la de novo se ele não me deixasse sair, mas a cara de poucos amigos não inspirou confidências. Paguei o cartão às pressas, mas ela não estava mais à vista quando cheguei à calçada e a vontade que eu tive, além de chorar, foi voltar e quebrar o segurança de porrada. Ainda bem que lembrei a tempo que o fato do meu coração estar partido não tinha me feito dobrar de tamanho nem aprender kung fu.</p>
<p>Voltei pro interior da boate pra resgatar o Mário &#8211; que de fato estava sentado no banheiro, meio desnorteado &#8211; e fomos pra casa.</p>
<p>Durantes os meses que se seguiram, amarguei outra fossa, talvez ainda maior que todas as outras, mas dessa vez o Mário não reclamou. Embora eu passasse a semana toda ouvindo a minha trilha sonora depressiva &#8211; incrementada com mais alguns clássicos da dor de cotovelo &#8211; e desenhando a silhueta dela compulsivamente em todo pedaço de papel que me caísse nas mãos, todos os sábados eu tomava um banho, passava perfume e ia praquele mesmo lugar, procurar por ela.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/sabado/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Retrovisor</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/retrovisor/</link>
		<comments>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/retrovisor/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 14:41:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[cláudia floresta]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://gehspace.com/contos-de-amor/?p=116</guid>
		<description><![CDATA[<p>Ela sente olhos passando pela sua nuca, olhos que lhe perseguem já algum tempo. Olha com devida atenção pelo retrovisor e deslumbra um rosto moreno, barba por <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/retrovisor/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela sente olhos passando pela sua nuca, olhos que lhe perseguem já algum tempo. Olha com devida atenção pelo retrovisor e deslumbra um rosto moreno, barba por fazer e óculos escuros que a impossibilitam saber qual direção exata aquele olhar lhe foca. Ainda assim sabe estar sendo profundamente observada. Ouve ao longe o som de buzinas, continua encarar o retrovisor descobrindo um meio sorriso no rosto másculo do motorista do carro de trás. Mais buzinas, sem graça, se da conta de que o sinal abriu, volta à atenção ao trânsito, mas continua olhando pelo retrovisor. O carro percorre exatamente mesmo caminho que o dela. Apesar da distancia segura entre os carros, ela vê o motorista esterçar para mesmo lado que ela, segue pelas mesmas ruas como se a estivesse perseguindo.</p>
<p>Novamente os carros param no farol. Ela observa que ele sorri enquanto movimenta os lábios parecendo balbuciar alguma musica, ela já não sabe ao certo se o sorriso é pela musica ou para ela. Decide encará-lo sente suas mãos suando, coração acelerado, respiração alterada. Continua dirigindo ansiosa com aquela presença silenciosa daquele olhar escondido atrás de óculos escuros, e mesmo assim não a impediam de senti-lo percorrendo-a. Ela sorri.</p>
<p>Mesmo temerosa, afinal ter um estranho a olhá-la insistentemente é algo que a muito não lhe acontecia, sente-se cheia de si. Seu ego infla massageado. Ensaia possíveis falas. Os braços arrepiam o nervoso. Sua libido esta totalmente desperta.</p>
<p>Transborda-se de coragem e estaciona ao terminar a curva, dirige seus olhos novamente ao retrovisor engatando um aceno de boas vindas e&#8230; Nada! Ele se foi.</p>
<p>Subitamente desolada permanece ali olhando pro nada. Pensa no que poderia ter acontecido se ele continuasse a segui-la? O que teria despertado nele um interesse tão grande a ponto dela tê-lo percebido?</p>
<p>Salta do carro sem pensar para onde ir. Desanimada pensa na possibilidade de ter esquecido de dar seta avisando o próprio trajeto. Mil pensamentos rondam-lhe a cabeça.</p>
<p>O calor insuportável derretia-lhe o corpo. Sentada na guia acende um cigarro, olha para o salto fino, unhas esmaltadas. Passa a mão pelos cabelos, molhados, e sente um filete úmido escorrer pela alça de seu vestido, enquanto outro filete desce pelas suas costas. Olha para as mãos e agradece&#8230;</p>
<p>No afã de não se atrasar para pegar as crianças na escola, esqueceu-se completamente de retirar a máscara de tratamento capilar.</p>
<p>Por isso o estranho tanto ria.</p>
<p><em>- Claudia Floresta</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/retrovisor/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

