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Géssica Hellmann
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A ordem das vespas sanguinárias
por Sônia (Anja Azul)

Sunflower e bees por Ginette Callaway.
O pai tinha destas manias de cultivar coisas esquisitas.
O pátio tomado de canas de açúcar, pés de milho e batata doce rasteira. Fora o limoeiro, pessegueiro, ameixeira e a frondosa goiabeira.
Terreno propício para a imaginação correr solta. A floresta era o planeta inóspito e distante, onde aterrisava com sua Nave-Cinamono, onde pisava em câmera lenta, seguida pelo seu companheiro de aventuras, isto, quando este conseguia fugir do terrível monstro que guardava a cadeia do leste, seu avô, no qual aplicavam as mais estrambólicas estratégias, que garantiam fugas fenomenais.
Um dia o pai extrapolou as expectativas. Trouxe para casa uma caixa. Uma caixa zumbizante.
A casa das abelhas assassinas do Noroeste da Birmãnia, ou na visão normal dos adultos, uma colméia de abelhas.
Seu mundo de aventuras ficou ainda mais emocionante.Apostas tipo: “Quem aguenta mais tempo com a mão na caixa, sem ser mordido?” corriam soltas.
Numa das incursões pelo planeta hostil, e sendo surpreendidos pelos terríveis homens-cana, tiveram de correr estabanados, pulando poços de areia movediça e…. esbarraram na caixa.
Terror!!!
Fingiram-se de estátua. Houve um princípio de tumulto, um zumbido ensurdecedor, tá!… Nem tanto, e as coisas acalmaram.
Juraram segredo de morte. A brincadeira acabou mais cedo. E naquela noite adotaram o voto de silêncio de criança que sujou a fralda.
Na madrugada, algo de assustador acontecia. As abelhas injuriadas, resolveram mudar de ares, e foram instalar-se acima do poço de água, bem ali, onde ficava a rolimã e o balde.
Ao amanhecer, a surpresa. A irmã mais velha, que suspeitavam, devia ter néctar nas veias, de tantas as vezes que foi picada, deu o alerta. Pessoal já nem ligava, uma picada a mais ou a menos de tantas que ela levava, mesmo correndo todo o quarteirao com a abelha atrás.
Mas a coisa era séria. Dava até para ouvir os tambores de guerra das abelhas assassinas.
Ela pensava com seus botões, ofendemos o Deus delas, teremos de pagar com sangue. Buaaaaaaaaaa!
A casa cercada de abelhas, que tentavam entrar enfurecidas por cada fresta, e o que mais tinha na casa eram frestas.
Todos foram convocados, a fechar escotilhas, chinelos em punho. Lutar até o último homem, ou criança, ou mãe p… da vida, pois estava atrasada com seus lavados pra fora. O pai teve de abandonar o front na corrida, pois tinha de ir trabalhar e os outros ficaram lutando bravamente, vendo o assoalho tingir-se de preto zumbizante.
Pai volta para o almoço, que não foi feito, com uma idéia. Tascar fogo, aliás fumaça com um cabo de vassoura, de longe.
Pior! Dai que as bichinhas se “arrevoltaram”.
Lembrou de uma conversa com um vizinho, que queria comprar a caixa, que entendia delas, que bla bla.
Foi até lá, atravessando um vasto campo em frente, e voltou com o dito cujo carregando uma caixa.
– Pode deixar compadre me entendo com as bichinhas. Mas quanto lhe devo?
– Nada! Pode levar!
O homem fez uma mágica qualquer e elas entraram na arapuca. Lá se foi satisfeito. Mal sabia ele, o que lhe reservava o destino.
Bulir com o Deus das Abelhas Assassinas não tinha perdão.
No meio do campo tropeçou, a caixa se escangalhou e foi atacado impiedosamente.
No hospital disseram que escapou por milagre. Eram abelhas africanas, sanguinárias.
O bom de tudo é que fazia sol, e ela já foi chamar o companheiro, com seu assovio secreto, pois havia um planeta para ser explorado e não podiam perder tempo.
As regras do jogo
por Francine Hellmann

Faces painting por Bala Laxmi.
Existiam, naqueles entremeados de relações, coisas muito ou nada convencionais, havia núcleos e subnúcleos de conselheiros e confidentes, havia beijos na boca, abraços sinceros e abraços forçados, lágrimas, sexo, gargalhadas sinceras e gargalhadas forçadas, havia homossexualidade, hobbies em comum que aproximavam e proximidades sem tripé de apoio algum, havia muitas histórias pra contar, havia muita inteligência, mas também atitudes impensadas, infundadas. Havia brindes.
Havia paixões. De todos os tipos formas, tamanhos, cores e texturas. O primeiro gostava da segunda que sabia e fingia que não sabia, a segunda gostava do terceiro que também era amado pela quarta, amada pelo quinto, a quarta sabia e não queria e sobre o terceiro, se sabia ou do que queria, ninguém nunca sabia. O sexto amava o sétimo. Também se sabia pouco ou quase nada do sétimo e da sexta e o quinto, além de amar a quarta, também amava todo mundo.
Havia um mundo dentro e um fora dali, havia 16 olhos, olhando para 32 mundos diferentes. Cada um poderia sair no momento em que desejasse, não havia pregas nem correntes, mas sair poderia causar arrependimento eterno, embora ficar pudesse doer, e muito. Mas o importante era isso. O importante era sentir.
Meu pé de laranja azeda
por Rodrigo Machado Freire

Open Book por Darren Thompson.
Estou um tanto comovido como quem lê “Meu pé de laranja lima”. Pudera. Leio “Meu pé de laranja lima”. Leio em voz alta para mim e para minha mãe. Ela consegue entender alguns fatos que acontecem e têm lá um vocabulário que eu só alcancei no dicionário, e ela na vida.
Estava ainda há pouco na cozinha, eu num banco, minha mãe no outro do outro lado da mesa. Na casa que meu pai construiu no final da vila, na rua principal onde passam carros, e carros, e ônibus para todos os lugares. Colocar-nos morando ali foi uma vitória de meu pai. Casa própria, quatro quartos, terraço que era para brincar e seria para colocar mesa de sinuca, e totó, e pingue-pongue. Pra lá com essas definições físicas da casa quando dentro de nós não era uma cozinha, era uma capela, um velório e os natais.
Ela lembrou de um natal ingrato que passamos, do qual eu não tenho lembrança mesmo com as descrições feitas. Meu pensamento girou pelo capitalismo durante a leitura e durante as recordações de minha mãe. Passeei pelas injustiças do mundo no que fotografava as ocorridas no livro e nas lembranças de minha mãe. Tristezas escondidas de minha infância e absorvidas agora por este homem de 31 anos.
Ela tratava de alguma coisa sobre o desejo de meu irmão ter uma bicicleta e o contentamento de minha irmã com um biquíni, eu ganhei outro presente. Não sabemos mais desse se era um jogo, um carrinho… Pelo que sei, nunca amanheci um aniversário de cristo com sapatos vazios.
Meu pai, quando ainda era vivo, claro!, tinha um abatedouro, onde minha mãe e meu irmão trabalharam certo tempo, por volta deste mencionado natal. Que danada essa saudade de meu pai! e de vivências das quais fui somente figurante, e que à minha mãe pode vir como veio, através desse meu novo hábito de ler para ela. Que estado de caridade entramos quando estamos comovidos! Deu-me uma vontade de “Che Guevara”. É fato que isso passa e torno a velha rigidez que habito de cabelos brancos.
Algumas pessoas dizem “Contente-se, há quem esteja pior.”. Então é isso? Alegria de pobre é pensar que há outro pior. Sou feliz por não ter um braço se olho para outro que não têm dois? Eu não consigo. Mas também sei que tristeza não resolve nada. Como eu mesmo já disse: chorar não é caridade ao mundo. Tenho uma virtude que é procurar transformar essas energias em coisa úteis. Quase nunca as encontro, as coisas úteis, para pô-las em prática. Comumente que faço é escrever à deriva nessas emoções.
As pessoas batem palmas para mim por eu ter entrado na universidade, todavia eu não vejo perspectivas financeiras. Na verdade eu detesto falar de finanças, detesto falar da intenção de ficar rico. Ela é tão corriqueira. Prefiro pensar em melhorias. Disso tudo de que vale imaginar que meu pai também estaria feliz diante seu filho universitário? Meu pai já não está mais aqui para abrir-me um sorriso. Há quem tenha perdido o pai e a mãe para que eu fique feliz? De idéias assim tentam imbuir-me alguns amigos. Querem mais? Eles são inocentes, têm suas formas, por mais que a mim pareçam grotescas, de consolar-me. Também quero ser bobo e inocente. Desconhecer o gosto do café para quando não tiver dinheiro.
Sinto muitas saudades de meu velho pai e agora de tudo que, apenas imagino, poderíamos viver.
Na universidade ouço falar que a razão deve predominar, ouço a necessidade científica disso. Todavia, minha ciência diz que a emoção deve ser servida pela razão. A inteligência deveria constituir um atalho para a felicidade. Mais vale adiantar à emoção, que é o que somos; que à razão que é o que calculamos ser.
Voltando para o livro: Será que encontrarei no pé de alguma coisa um consolo eficaz ou, mais que isso, uma razão para a vida? Não creio, a infância se foi e nela algumas imaginações me foram roubadas. Continuo sendo um rapaz seco e com alguns pensamentos taciturnos. Descrever-me pelos que me olham… Não sei de nada, queridos. Tenho trinta e um anos. Isto é tudo sobre mim. Se eu tiver uns inimigos… é possível que eles tenham certeza sobre algumas características minhas.
A casa da avó
por Francine Hellmann

Blue Light por kathy jones.
O cheirinho que sinto agora, chegando próxima à hora do almoço, é de bacon. A casa, pensava eu ontem ao chegar, mesmo passado um ano inteiro sem a ela retornar, acho-a familiar, a ponto de parecer-me que venho aqui todos os dias. Há coisas com as quais nos acostumamos, sabemo-las de cor, e isto sem nos darmos conta de como, visto que, contato freqüente com elas não temos. São infinitos pequenos contatos com grandes intervalos de tempo ao longo da vida que nos fazem conhecer tais coisas de forma muito íntima, como se sempre lá estivéssemos.
Assim me sinto todos os anos quando visito a casa de minha avó materna, em uma pequena cidade chamada Canoinhas, no planalto norte de Santa Catarina. A casa ainda possui a mesma fronte, e a cada ano parece mais desgastada. O mesmo jardim, sempre com pequenas mudanças que lhe dão um ar de novidade. O mesmo portãozinho que ao ser empurrado anuncia, com um barulho agudo e enferrujado, aos que cá dentro estão, a chegada de um novo visitante. É possível que alguns instantes após o barulho denunciante do portão, quem adentre pela porta seja um tio que mora próximo e vem apenas pelo prazer de estar com os parentes e com eles compartilhar um chimarrão. Ou ainda, é possível que quem venha seja um dos inúmeros tios e primos que nesta época hospedam-se na casa e que mais cedo tenha saído para buscar algum ingrediente que será utilizado no preparo de uma gostosa sobremesa. Ou então, mais raramente, o leiteiro ou o jardineiro…
Na sala de televisão uns tantos assistem alguma coisa, sempre há um ou dois solitários, se é que é possível que um mais um resultem em dois solitários, lendo algum livro na sala de estar. Estes livros podem ser ou não de “boa qualidade”, o mais provável, porém é que, na maioria das vezes, não sejam, visto que lembro de ter-me apegado à leitura a partir do exemplo das tias que passavam as férias lendo romances melodramáticos com nomes como “Sabrina em Paris” ou ainda “Paixão na Casa do Lago”. Na cozinha, é certo, sempre haverá a avó, acompanhada de outras tias preparando algum prato com um cheiro muito gostoso. Lá também é provável encontrarmos algumas primas que, salvo em algumas exceções, estarão sentadas à mesa folheando alguma revista ou ditando para tias e avó a receita do tal prato que, ah como cheira bem!
Para quem, como eu, acostumou-se com a vida agitada de estudante da cidade, os dias aqui se tornam intendentes, visto que o preparo da comida e o fazer-sabe-se-lá-o-quê sentada na cozinha não me agradam muito. São os dias do ano em que mais leio, mais penso na vida, mais revejo velhos filmes, mais jogo partidas dos mais variados jogos com os primos.
Os primos. Não são como as tias que a cada ano se parecem mais com si mesmas, os primos crescem. É estranho como depois de tanto tempo achamos que ao encontrá-los eles nos acharam mudados (porque sim, nós podemos garantir que mudamos muito), mas ao vê-los quem por pouco não cai para trás somos nós. Como eles cresceram, parecem até adultos, onde foram as crianças que brincaram conosco na infância? Namorados de primos são algo com o qual jamais nos conformamos… Mas em menos de um dia já parecemos crianças novamente e jogamos partidas de baralho até amanhecer e rimos muito nos lembrando de segredos e situações só nossas, alguém propõe brincar de “gato-mia”, olhamo-nos analisando a possibilidade, mas não! Já não somos mais crianças.
Ao fim de uma semana alguns começam a ir embora. Este ano sou uma das primeiras a me despedir, não passarei o reveillon com a família. Quinze minutos antes de ir sento no baú da cozinha, que fica ao lado dos três degraus mais significativos da minha vida e olho para minha avó, já tão velha, mulher castigada pela vida, olho para as tias, para os primos, para o fogão a lenha… Neste momento tenho a estranha impressão de que não vou voltar tão cedo, e que quando eu voltar as coisas já não serão mais tão iguais, do jeito que sempre foram.
O banquete
por Zélia Campestrini

Luncheon at the Boating Party por Renoir.
Paramos em frente a um portal de ferro, onde trepadeiras davam um toque alegre com suas flores perfumadas e coloridas.
Um guarda se aproximou, convidando-nos a entrar.
Se quiséssemos prosseguir de carro , tería-mos que entrar por outro lado e dar uma volta enorme até o estacionamento, correndo o risco de chegar atrasados.
Resolvemos entrar pelo portal. Subimos uma escada estreita, cujos degraus iam até o topo de um morro cheio de arvores.
Lá chegando, Géssica, Karin, Lílian, Henrique e eu, deparamo-nos com enorme descampado a céu aberto.
- Mas aqui é um cemitério! Exclamei.
- Não pode ser não tem sepultura. Géssica retrucou.
Na entrada, havia várias mesas e cadeiras brancas, onde mulheres, além de trajadas com vestidos vaporosos e chapéus igualmente brancos, ostentavam colares e brincos de pérolas.
Sentadas, olhavam sorrindo enquanto passávamos.
Mais adiante avistei moças com vestidos coloridos de estampas florais e uma delas aproximou-se e disse:
- Pode pegar esse. – disse, nostrando um vestido pendurado em um cabide.
Uma outra moça surgiu e puxou o vestido bruscamente, querendo impedir que eu o pegasse.
- Esse vestido é meu. – Ela dizia.
- Você já tem um. Onde está sua solidariedade? – disse a que me ofereceu.
Olhando aborrecida, a dona do vestido afastou-se contra a vontade.
Sentamos esperando a hora do banquete. Havia várias mesas com toalhas brancas que ficavam logo após a nossa.
Estava-mos instalados de modo que podíamos ver quem entrava.
Entre os convidados, dois casais chamaram atenção.
O primeiro era um casal conhecido: Darci e Cida que, ao passarem por nós, olharam entre surpresos e admirados por eu também estar ali.
O outro casal era desconhecido . Ao me avistarem sorriram amigavelmente, sentando numa mesa próxima.
Um garçom entregou-me um envelope com uma mensagem cujo conteúdo não consigo descrever.
Depois de ler ,o garçom mandou que eu virasse a folha para ver o verso.
No outro lado, havia o desenho de uma linda casa amarelo-ocre e, embaixo, números e pequeno texto.
- Até aqui fazem propaganda? Não quero comprar nada. – exclamei indignada.
- Não, moça, isso é uma doação.
Surpresa, sem palavras virei para o lado onde o casal desconhecido me olhava sorrindo…







