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	<title>Amores - Contos de Amor &#187; livia santana</title>
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	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
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		<title>Sábado</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 14:46:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">D après-moi por Egon Schiele</p>
<p>
por Lívia Santana

Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/sabado/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 402px"><img title="D après-moi por Egon Schiele" src="http://www.gehspace.com/edicao%2050%20imagens/D%20apr%E8s-moi%20-%20Egon%20Schiele.jpg" alt="D après-moi por Egon Schiele" width="392" height="555" /><p class="wp-caption-text">D après-moi por Egon Schiele</p></div>
<p><em><br />
por Lívia Santana<br />
</em><br />
Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em todas as direções, os olhos pintados de preto permaneciam fechados e um sorriso de prazer curvava-lhe os lábios cheios e hipnóticos. Ela jogava os braços para cima enquanto os quadris remexiam-se ardorosos acompanhando o repique da música altíssima. Estava ali, na mesma posição há pelo menos meia hora, sem conseguir me mover nem despregar os olhos dela.</p>
<p>Mário tinha invadido a minha casa naquele sábado com um discurso inflamado sobre eu não poder continuar naquele bode, alegando que se eu ficasse mais tempo dentro de casa sozinho eu ia desaprender a falar e ficar todo embolorado. E, como bom amigo que era tinha vindo me resgatar do meu auto-exílio e das influências nefastas de mim mesmo, razão pela qual era pra eu desmanchar a carranca, entrar na roupa que ele sem cerimônia havia jogado sobre a cama e &#8220;passar um perfume pelamordedeus que ninguém era obrigado a sentir a minha catinga&#8221;.</p>
<p>Sem alternativa &#8211; até porque eu estava fugindo do Mário há quase um mês, desde que a Janaína tinha me dado o pé e eu estava mesmo amarrando um bode de um quilômetro dentro do meu quarto desde então &#8211; tomei uma ducha rápida, dizendo pro Mário que ele era um porco de camuflar bodum com perfume, enfiei um jeans e uma camisa legal e passei o diacho do perfume &#8211; ele não ia me dar sossego se eu não passasse, porque não ia sair comigo &#8220;fedido&#8221;.</p>
<p>Ele me arrastou pruma boate onde estava rolando uma festa hip hop, coisa que eu nunca fui muito chegado. Mas, como disse o Mário, a idéia era ouvir o tipo de música mais diferente possível da minha trilha sonora de fossa, que ele jurava que ainda ia jogar no lixo. Dei de ombros: que fosse então.</p>
<p>Lá dentro, o de sempre: penumbra, umas luzes coloridas que não iluminam nada, muita gente se esbarrando, uma mulherada superproduzida com cara de nojo e uns babacas babando em cima delas. A música, altíssima, logo deixou de me incomodar &#8211; acho que foi anestesia &#8211; e me encostei no balcão do bar, rindo do Mário que não sabia pra onde olhar e estava feliz que nem menino que ganhou brinquedo novo. Fiquei na cerveja e ele, depois de algumas doses, se jogava pra toda garota que passava e anunciava: &#8220;Prazer, Petisco!&#8221;. Elas não sabiam se riam ou se choravam e eu estava inclinado a concordar com elas. O Mário era sem noção demais e ia lhe dizer isso, quando minha atenção foi definitivamente desviada.</p>
<p>Ela usava uma blusa preta de mangas longas e decote discreto, combinada com uma minissaia jeans desbotada. Era assombroso como se movia graciosamente em cima de saltos tão altos e como parecia feliz apenas dançando. De olhos fechados, ela parecia alheia a tudo o mais que não fosse a música e seu próprio corpo, cujos movimentos eram mais e mais vibrantes e belos. Eu fiquei ali, só olhando, por muito tempo. Mas não fui apenas eu que a percebi e em pouco tempo, foi-se formando pequena clareira à volta dela, uma horda de abutres se aglomerando para contemplar sua dança.</p>
<p>Vi um deles se aproximar e sussurrar algo em seu ouvido e crispei as mãos sem perceber. Ela interrompeu a dança, abriu os olhos &#8211; eram grandes e verdes &#8211; sorriu e abanou a linda cabeça em sinal negativo. Então, virou-se de costas pro inoportuno, tornou a fechar os olhos e recomeçou a requebrar ainda com mais energia. Outros tentaram algumas vezes e ela os rechaçou a todos. Tive orgulho dela: &#8220;Isso, não se entregue facilmente, mande todos eles passearem&#8221;.</p>
<p>O Mário apareceu, dizendo que estava bêbado, que ia vomitar no banheiro e já voltava. Sem desviar os olhos dela, eu acenei afirmativamente. Nada mais importava.</p>
<p>Eu tentava decidir se iria até lá, quando subitamente ela parou de dançar, ajeitou os longos cabelos com as mãos, sapecou um beijo no rosto de uma outra garota parada ali perto, acenou pra mais alguns e saiu caminhando rumo à saída. Fiquei um instante sem ação e depois corri atrás dela, sem nem lembrar que o Mário provavelmente estaria caído nalgum canto do banheiro masculino. Cheguei à porta em tempo de vê-la sair e tentei segui-la, mas o segurança me deteve, cobrando o cartão de consumo pago.</p>
<p>Pensei em explicar que o amor da minha vida estava indo embora, que eu nunca mais ia vê-la de novo se ele não me deixasse sair, mas a cara de poucos amigos não inspirou confidências. Paguei o cartão às pressas, mas ela não estava mais à vista quando cheguei à calçada e a vontade que eu tive, além de chorar, foi voltar e quebrar o segurança de porrada. Ainda bem que lembrei a tempo que o fato do meu coração estar partido não tinha me feito dobrar de tamanho nem aprender kung fu.</p>
<p>Voltei pro interior da boate pra resgatar o Mário &#8211; que de fato estava sentado no banheiro, meio desnorteado &#8211; e fomos pra casa.</p>
<p>Durantes os meses que se seguiram, amarguei outra fossa, talvez ainda maior que todas as outras, mas dessa vez o Mário não reclamou. Embora eu passasse a semana toda ouvindo a minha trilha sonora depressiva &#8211; incrementada com mais alguns clássicos da dor de cotovelo &#8211; e desenhando a silhueta dela compulsivamente em todo pedaço de papel que me caísse nas mãos, todos os sábados eu tomava um banho, passava perfume e ia praquele mesmo lugar, procurar por ela.</p>
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		<title>Necrópsia</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/necropsia/</link>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 00:02:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Lívia Santana</p>
<p class="wp-caption-text">Love After Death por Rafael G.</p>
<p>- Eu quero saber o porquê. &#8211; o tom de voz era estrangulado.</p>
<p>- Não tem porquê, é um monte <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/necropsia/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Lívia Santana</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Love After Death por Rafael G." src="http://www.gehspace.com/edicao%2031%20imagens/Love%20After%20Death%20-%20rafael%20g.jpg" alt="Love After Death por Rafael G." width="400" height="324" /><p class="wp-caption-text">Love After Death por Rafael G.</p></div>
<p>- Eu quero saber o porquê. &#8211; o tom de voz era estrangulado.</p>
<p>- Não tem porquê, é um monte de coisas&#8230; &#8211; queria ir embora, estava exausta.</p>
<p>- Você ainda me ama? &#8211; inconformado.</p>
<p>- Amo. Mas não do jeito que amava. &#8211; como quem fala a uma criança.</p>
<p>- Como assim? Ama ou não ama? &#8211; começa a se exaltar.</p>
<p>- Amo. Como alguém especial que foi parte da minha vida, mas que agora não é mais. Acabou. &#8211; a angústia aumenta, tem vontade de sair correndo.</p>
<p>- Não, não vem com essa não. Se você não me ama, eu vou embora e não encho mais o saco. Mas se me ama não acabou coisa nenhuma, ora! &#8211; eleva a voz.</p>
<p>- Acabou. Não insiste, por favor &#8211; implora.</p>
<p>- Mas você disse que ainda me ama! Então eu tenho que lutar, tenho que manter você do meu lado! &#8211; desesperado.</p>
<p>- Mas não é nada disso! &#8211; leva as mãos à cabeça.</p>
<p>- Então é o que? &#8211; tenta se controlar.</p>
<p>- Se eu disser que não te amo mais, estarei mentindo. Mas não quero mais ficar com você, não tem mais nada a ver. &#8211; não quer dizer tudo o que pensa, não quer magoá-lo.</p>
<p>- Mas ontem tinha! O que mudou? &#8211; insiste.</p>
<p>- Não tinha nada! &#8211; explode &#8211; Há muito tempo não tem mais nada a ver! &#8211; está prestes a dizer. Droga!</p>
<p>- E por que nunca me falou nada? O que eu fiz de errado? &#8211; irracional.</p>
<p>- Não tenho que te falar isso, a gente não tem mais nada pra discutir. O mais importante é o sentimento, e esse não existe mais. &#8211; decide acabar com aquilo.</p>
<p>- Mas você me ama! &#8211; ele parece não ouvir uma palavra do que ela diz. Ou está determinado a torturá-la.</p>
<p>- Você quer que eu te diga que não te amo? Então tá bom: EU NÃO TE AMO MAIS! &#8211; histérica.</p>
<p>- Mentira! &#8211; grita.</p>
<p>- &#8230; &#8211; ela chora, vontade de esbofeteá-lo.</p>
<p>- Vem cá. &#8211; tenta abraçá-la.</p>
<p>- Não! &#8211; desvencilha-se &#8211; Escuta, não dá pra gente ser adulto?</p>
<p>- O que é ser adulto? É ser frio que nem você? Porra, eu te amo! &#8211; soca o volante do carro.</p>
<p>- Acabou. &#8211; repete baixinho.</p>
<p>- Acabou por quê? &#8211; repete, com raiva.</p>
<p>- Você acha mesmo que somos felizes? &#8211; se ele não se importa em torturá-la, não vai se importar em magoá-lo.</p>
<p>- Claro! &#8211; usará todos os argumentos, ela tem que ceder. Como sempre.</p>
<p>- Então as coisas estão piores do que eu pensei. &#8211; ela suspira, segura a bolsa.</p>
<p>- Você nunca falou nada! Você sempre fica nessa porra de mutismo, me olhando com essa cara, esperando que eu leia o seu pensamento! &#8211; ele se descontrola.</p>
<p>- Então eu vou dizer. &#8211; suspira. Ele nunca via nada. &#8211; Você me maltrata, me controla, me abandona &#8211; ele faz menção de dizer algo &#8211; Não me interrompe! &#8211; continua, olhando as palmas das mãos &#8211; Você faz eu me sentir uma idiota completa, sempre me compara com as outras, me manipula, sempre tem um argumento bom demais pra me convencer de tudo. &#8211; trêmula, olha pra ele, as lágrimas escorrendo, os olhos muito abertos &#8211; Você roubou a minha identidade. E se você não vê nada disso eu já devia ter ido embora há mais tempo. &#8211; pega a bolsa e abre a porta do carro.</p>
<p>- Espera! &#8211; ele tenta segurá-la. &#8211; Me perdoa! Eu posso mudar, posso ser diferente! Me dá outra chance! &#8211; as palavras saem aos borbotões. Ela o fita uma última vez.</p>
<p>- Você quase me fez acreditar que eu sou mesmo uma merda. E se eu acreditasse nesse papo, seria mesmo uma. &#8211; soltou o braço da mão dele &#8211; Mas agora chega. Acabou.</p>
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		<title>Estranheza</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 23:38:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[conrad rose]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Por Lívia Santana e Conrad Rose</p>
<p class="wp-caption-text">Couched Woman with phone (1995) por James W. Johnson</p>
<p>Amantes e celulares não combinam lá muito bem. Esses aparelhos exercem um estranho <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/estranheza/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Lívia Santana e Conrad Rose</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Couched Woman with phone (1995) por James W. Johnson" src="http://www.gehspace.com/edicao%2026%20imagens/Couched%20Woman%20with%20phone%20james%20w%20johnson.JPG" alt="Couched Woman with phone (1995) por James W. Johnson" width="400" height="246" /><p class="wp-caption-text">Couched Woman with phone (1995) por James W. Johnson</p></div>
<p>Amantes e celulares não combinam lá muito bem. Esses aparelhos exercem um estranho efeito sobre os apaixonados, transformando-os. Normais e pacatos companheiros podem conduzir-se ao delírio extremo, algo como bolero com cuba libre na solidão às quatro da manhã; ou mesmo uma das partes rasgar-se em prantos &#8211; até em público! &#8211; e desejar a morte. Sua, do amor da sua vida ou de terceiros. Tudo por uma simples ausência de notícias.</p>
<p>Se o barulho ao fundo não condiz com o esperado: maldito seja! Começa logo o interrogatório que quase sempre conduz à briga. Caso o outro lado ofegue ou sussurre: ou é descaso, ou &#8211; bem pior &#8211; assunto escuso a ser investigado. Três mais no questionário. E se porventura não atender(?), aí vira censo em avalanche&#8230;</p>
<p>- Amô-or.. Amo muito você, tá? Liga pra mim, meu bem. Um milhão de beijos. Tchau! &#8211; gravou Débora, dengosa em piscadelas, na secretária do infeliz.</p>
<p>Duas horas e nada&#8230; Ela insiste da mesa de massagem, com máscara de pepino no rosto&#8230;</p>
<p>- Humberto. Amor, onde você está?&#8230; Tô com saudade&#8230; E quero contar uma coisa&#8230; Sabe, no verão eu queria ir&#8230; &#8211; um bipe rompe &#8211; ai, beijo, tchau! &#8211; despediu-se aos ares.</p>
<p>Mais uma hora&#8230; Da sauna seca&#8230;</p>
<p>- Amor, ainda quero falar com você. Não esquece de me ligar, tá? Um beijo! &#8211; cravou Débora alimentando estranhezas.</p>
<p>Quarenta minutos&#8230; Do cabeleireiro&#8230;</p>
<p>- Humberto, tô ficando preocupada. Tá tudo bem? Por favor, me liga, tá? Beijo. &#8211; nos solavancos de quem lacrimeja.</p>
<p>Meia-hora&#8230; Do chinês no shopping&#8230;</p>
<p>- Amor, você não tá querendo falar comigo? Tá me evitando? O que aconteceu? O que eu fiz? Liga, tá? &#8211; um pé na histeria.</p>
<p>Vinte minutos&#8230; Sapato novo&#8230;</p>
<p>- Beto! &#8211; suspiro &#8211; Se tem algo errado entre a gente, vamos conversar, meu amor&#8230; A gente pode resolver tudo, não é? &#8211; fez ela trepidando o calçado inédito, o maior salto que havia na loja.</p>
<p>Dez minutos&#8230; Samba-canção embrulhada pra presente&#8230; Numa mão sorvete de casquinha, noutra o aparelho. Débora a cantarolar:</p>
<p>- Adivinha o que eu comprei pra você-ê&#8230; Tem presente pro Bé-tô&#8230; adivi-nha&#8230; &#8211; e na gangorra do distúrbio bipolar: &#8211; Seu cachorro nojento bandido miserável! &#8211; brado: &#8211; Eu mato você!</p>
<p>Cinco minutos&#8230; milk-shake&#8230;</p>
<p>- Amorzão?!&#8230; Desculpa, tá? Quero atrapalhar, não. Beijo. &#8211; aos soluços.</p>
<p>Desliga e liga novamente&#8230;</p>
<p>- Quem é a vadia que está com você, Humberto? Eu sei que tem uma vadia! Aposto que estão rindo de mim agora. Ela é melhor que eu? &#8211; psicótica. &#8211; Eu acabo com vocês dois.</p>
<p>Humberto largou o celular no painel do carro e foi bater bola com os amigos. Depois cerveja e recordações. Sentira falta alguma do aparelho. Até retornar ao veículo:<br />
Quinze mensagens, Treze da namorada e duas da mãe. Estas tiveram preferência e alertavam que Débora estava ligando pros hospitais e delegacias à cata do desaparecido, quiçá defunto. Então, ouviu a última da descontrolada:</p>
<p>- Tá tudo acabado entre nós! Espero que você morra! Ou melhor, vou me matar e você vai morrer de culpa, bem devagar!</p>
<p>Ele apagou todas as outras sem ouvir. Olhou pro telefone durante uns segundos e acabou largando o encosto pra fora do automóvel, pela janela. Foi ao encontro de Débora.<br />
Blim-blom&#8230;<br />
Ela girou a maçaneta trêmula e na pior das aparências. Pálpebras inchadas e nariz avermelhado.<br />
- Onde é que você tava?<br />
- Jogando futebol e tomando cerveja.<br />
- E por que não me ligou?<br />
- Perdi meu celular. Sumiu. Desapareceu.<br />
- Ai. Eu fiquei tão preocupada, Beto&#8230; Que bom que você tá bem!</p>
<p>Abraços e beijos.<br />
Humberto dormiu por lá. Empenhou-se em sossegar a namorada, que saiu cedo pra trabalhar. Sozinho na cama, ele divagou sobre possíveis enredos que fizessem Débora desejar a morte. Desta feita foram suas as estranhezas e tanto ruminou que concluiu: Débora o traía. Sondou gavetas e saiu dali disposto a botar detetive atrás dela.</p>
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		<title>Cruzando linhas</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/cruzando-linhas/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 20:17:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Lívia Santana</p>
<p class="wp-caption-text">Faces - Kiss por Slava Posudevsky</p>
<p>Impressionante como só nos damos conta das linhas que permeiam a vida a partir do momento em que as <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/cruzando-linhas/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Lívia Santana</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 312px"><img title="Faces - Kiss por Slava Posudevsky" src="http://www.gehspace.com/edicao%2024%20imagens/posud_Faces-Kiss%2040x60_small.jpg" alt="Faces - Kiss por Slava Posudevsky" width="302" height="452" /><p class="wp-caption-text">Faces - Kiss por Slava Posudevsky</p></div>
<p>Impressionante como só nos damos conta das linhas que permeiam a vida a partir do momento em que as cruzamos. Vivemos numa roda viva (roda mundo, roda gigante) e qualquer certeza &#8211; afora a morte &#8211; é pueril. Sentimentos se transformam, paixões esfriam, brinquedos e lugares perdem a graça, pessoas se separam e se perdem, para se reencontrarem novamente mais à frente no caminho. Tudo se transforma a todo minuto e vamos perceber apenas quando olhamos em volta e a luz parece diferente, as cores mais vivas ou mais opacas, ou quando percebemos elementos que nunca tínhamos visto ou prestado atenção.</p>
<p>Pedro e eu éramos muito amigos e sempre que podíamos, ficávamos jogando conversa fora e rindo da maioria das coisas. Dávamos-nos muito bem. Eu não tinha compromisso fixo nenhum, fazia o que me dava na telha, enquanto ele namorava a Mariana a vida inteira. Era até engraçado, quando ele dizia: &#8220;Isso foi antes de namorar a Mari&#8221;, os amigos costumavam replicar: &#8220;Ah, quando você tinha uns dez anos, né?&#8221;. E era mesmo assim, nem lembrávamos mais de um tempo em que a Mari não estivesse lá. A vida dos dois se confundia. Tinham a chave da casa um do outro, mesmo ela ainda morando com os pais, decidiam tudo juntos, iam juntos a todos os lugares. Era o casal modelo, era bonito vê-los juntos. Todos, inclusive eles próprios, pensavam que o casamento seria inevitável.</p>
<p>Até que um dia, Pedro rompeu com a Mari. Ninguém, inclusive ela mesma, entendeu nada e nem soube realmente o porquê. Pedro era introspecto em relação aos próprios sentimentos, decidiu e pronto, não admitiu questionamentos e não deu explicações. E seja lá o que tenha dito à Mariana a título de motivo, pelo visto não a satisfez. Inconformada, chorou, telefonou mil vezes, bateu a porta, escreveu cartas, gritou, ofendeu-o. Pedro ouviu a tudo calado. Um dia eu perguntei o porquê daquilo e ele disse: &#8220;É o mínimo que eu posso fazer. Ela tem o direito de descontar em mim a mágoa que causei&#8221;. E foi um raro momento em que ele disse o que realmente pensava sobre aquele assunto.</p>
<p>Não sei direito quando comecei a olhar o Pedro de um jeito diferente. Sempre o admirei muito &#8211; era tão inteligente! &#8211; mas o tempo todo era apenas amizade. Sem saber direito o porquê, nem da onde vinha aquilo, comecei a desejá-lo e a sentir uma ternura infinita ao vê-lo. De repente, eu que estava tão acostumada à presença dele, me vi com o pulso acelerado ao mero som da voz ao telefone e prendia a respiração quando ele chegava. Eu, que era tão tranqüila, confiante e até um pouco cínica com o sexo oposto, estava apaixonada. Não sei se a mudança se devia ao fato de ele estar finalmente sozinho, ou se tinha mudado comigo de algum jeito, o fato é que estava tudo muito diferente.</p>
<p>Uma vez, pouco antes do rompimento com a Mariana, lembro que aconteceu algo que mexeu comigo. Paramos no posto de gasolina, no carro os três &#8211; o casal na frente e eu no banco de trás. Mari desceu para comprar balas, deixando-nos sozinhos e, tendo ela desaparecido pela porta de vidro da loja, Pedro virou-se para mim e segurou a minha mão, apertando forte. Senti o peito saltar, abri a boca atônita, sem saber o que dizer. Ele disse: &#8220;Eu gosto muito, muito de você&#8221;. O tom de voz era estranho, parecia estrangulado, como se reprimisse um soluço ou lutasse para respirar. Respondi que também gostava e ele ficou me encarando com aqueles olhos cinza-esverdeados tão lindos, que estariam presentes em tantos sonhos meus e sobre os quais escreveria uma dúzia de poemas inconfessáveis pouco mais tarde. Senti que poderia ficar ali de mãos dadas com ele por horas, o tempo não precisava mais passar. Tão intenso foi o encantamento daqueles poucos minutos que nunca os esqueci. Senti-me flutuar, o calor das nossas mãos pareceu se intensificar, queimando e nos fundindo num só através dos dedos entrelaçados. E então, como se tivéssemos combinado, olhamos juntos na direção de onde Mariana viria e vimos que ela voltava para o carro. Soltamos as mãos e afundamos nos bancos, tentando dissipar a atmosfera densa do interior do carro.</p>
<p>Talvez ele tenha se sentido culpado depois disso, pois passamos dias sem nos falar. Quando finalmente liguei, contou-me que tinha terminado o namoro eterno e nem pude acreditar. Teria sido o episódio no carro o prenúncio do fim? Teria eu algo a ver com isso? O coração &#8211; que andava me dando trabalho naqueles dias &#8211; pulou para as palmas das mãos e precisei me sentar para controlar a ansiedade, a excitação. E agora? O impulso de vê-lo veio forte demais e vi-me, de algum modo, em frente à porta dele.</p>
<p>Atendeu com o cabelo molhado, tinha acabado de sair do banho. A tensão era evidente, estremeci ao abraçá-lo. Convidou-me para o quarto, como de costume e sentamos cada um numa cama &#8211; o quarto tinha duas. Conversamos sobre tudo e nada, o relógio corria, e todo o tempo eu tentava dizer o que sentia, em vão. As palavras morriam na garganta, a coragem não vinha. E se fosse ilusão minha?</p>
<p>Acabei desistindo e levantei-me para sair, dizendo: &#8220;Bem, vou embora, então&#8230;&#8221;. Andei em direção à porta, mas fui interceptada no meio do caminho, em frente ao espelho. Ele me empurrou contra a superfície fria: &#8220;Se não fizer isso agora eu morro&#8221;. E me beijou com voracidade, como se pretendesse me sugar inteira através da língua. Os joelhos amoleceram, senti-me desmanchar de encontro ao corpo dele.</p>
<p>Não era ilusão. E agora não tinha mais jeito, a linha tinha sido cruzada e eu nem sabia mais o que éramos. Íamos rumo ao desconhecido, mas não importava muito. Nada era capaz de turvar a sensação que eu tinha de ser capaz de pular no abismo e ainda assim sair voando.</p>
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		<title>Cartomante</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 20:12:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[livia santana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Lívia Santana</p>
<p class="wp-caption-text">Cartomante (1951) por Burle Marx</p>
<p>&#8220;Dona Madalena. Joga búzios, tarô, lê a mão. Vê o futuro. Faz amarração para o amor&#8221;.</p>
<p>Ela hesitou, revirando o panfleto <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/cartomante/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Lívia Santana</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 355px"><img title="Cartomante (1951) por Burle Marx" src="http://www.gehspace.com/edicao%2023%20imagens/cartoman.jpg" alt="Cartomante (1951) por Burle Marx" width="345" height="406" /><p class="wp-caption-text">Cartomante (1951) por Burle Marx</p></div>
<p>&#8220;Dona Madalena. Joga búzios, tarô, lê a mão. Vê o futuro. Faz amarração para o amor&#8221;.</p>
<p>Ela hesitou, revirando o panfleto nas mãos suadas, cujas unhas roídas denunciavam a ansiedade. &#8220;E se&#8230;?&#8221; Custava a decidir-se. Nunca fora crédula, sempre resolvera os próprios problemas com certa facilidade. Sempre pensara que crendices eram para ignorantes ou desesperados, se não ambos. Joana não, era mulher culta, viajada, independente. Conseguia tudo o que desejava, acreditava em si mesma. E agora estava ali, segurando aquele panfleto amarfanhado entre os dedos inquietos, relutando em reconhecer-se impotente para o que quer que fosse. Cartomantes. Sim, isso era coisa para desesperados. Mas não era assim que se sentia? Já tinha tentado de tudo e nada surtira efeito!</p>
<p>Decidiu-se, iria ver a cartomante.</p>
<p>A sala de esperas era pouco iluminada e rescendia a almíscar. Incenso. Pequenas almofadas vermelhas espalhavam-se por sobre as poltronas e pelo chão, um sino de vento em forma de luas e estrelas estava pendurado num canto. Havia mais duas clientes além dela. Uma moça jovem e loura com os olhos inchados de tanto chorar, usando um vestido rosa amarrotado, que a deixava mais pálida e infeliz. A outra beirava os quarenta anos, tinha os cabelos tingidos de uma cor indistinta, vestia-se com apuro e trazia nas mãos uma pomba branca amarrada com um lenço vermelho, quase esmagada tanta era a força com que era segurada.</p>
<p>Acabara de sentar-se e a cortina púrpura do canto abriu-se dando passagem à &#8211; supunha &#8211; Dona Madalena. Tinha cabelos cor de fogo revoltos e unhas compridas pintadas de vermelho sangue. Usava óculos roxos com as extremidades puxadas para cima e uma longa túnica da mesma cor dos óculos. O olhar era azul e amalucado, como desenho animado.</p>
<p>Teve impulsos de ir embora. Aquela figura inusitada parecia precisar mais de ajuda do que ela. Porém controlou-se, enquanto a mulher com a pomba saltava da cadeira, visivelmente excitada: &#8220;Dona Madalena, aqui está!&#8221; e estendeu o bicho na direção da anfitriã. &#8220;Muito bem! Há quanto tempo o animalzinho está amarrado?&#8221;, perguntou esta com um sorriso ainda mais maluco. &#8220;Seis horas&#8221;, foi a resposta. &#8220;Ah, então aguarde mais um pouco&#8230; assim que completar as dez, falaremos&#8221;. A mulher da pomba sentou-se, aparentando alegria.</p>
<p>&#8220;Ela vai esperar mais quatro horas?&#8221; &#8211; o impulso de ir embora veio mais forte que nunca.</p>
<p>A cartomante virou-se então para a mocinha loura. &#8220;Pronta, querida?&#8221; A menina encarou-a com os olhos tristes e negou com a cabeça, mal contendo as lágrimas que tornavam a cair.</p>
<p>&#8220;Então parece que é a sua vez&#8221;. &#8211; a vidente sorriu. Respirando fundo, Joana levantou-se e passou através da cortina púrpura. Lá dentro era abafado e o cheiro de almíscar era ainda mais forte. Sentou-se na cadeira indicada, em frente a uma mesinha redonda. Dona Madalena sentou-se em frente a ela e tomou a mão direita de Joana. Depois de alguns minutos enunciou: &#8220;O nome dele é Raul. Um Adônis. Arquiteto, bem vestido, discreto, educado, exímio dançarino. Solteiro, sem filhos, sem namorada. Conquista todas as mulheres que o cercam e não elege nenhuma. Um enigma. Certo?&#8221;.</p>
<p>Surpresa, Joana reconheceu que era verdade. Dona Madalena trocou a mão direita pela esquerda e tornou: &#8220;Entre tantos homens que a disputam, você se interessou pelo único que a repudia. Já usou diversos expedientes para envolvê-lo e nenhum obteve êxito. Já se ofereceu, já interpretou a moça frágil e a mulher dominadora, já se aproximou da mãe dele, já se enturmou com os amigos, já tentou até embebedá-lo. Nada. Ele continua indiferente. Está se consumindo pela paixão não correspondida. Sonha, fantasia, e sente que morreria para tê-lo&#8221;. E fitando-a com o olhar divertido, indagou: &#8220;Estou certa?&#8221;</p>
<p>Joana balançou a cabeça em sinal afirmativo, espantadíssima com o que acabara de ouvir. E como a cartomante mantivesse silêncio, inclinou-se para frente, ansiosa: &#8220;A senhora pode me ajudar?&#8221;</p>
<p>Dona Madalena alisou os cabelos cor de fogo, pensativa. &#8220;Posso, sim, menina, mas não da forma como pensa&#8221;. Joana franziu o cenho: &#8220;Como assim?&#8221;.</p>
<p>A cartomante tirou os óculos. Parecia outra pessoa, com expressão séria e espantosamente lúcida. &#8220;Acho que o melhor a fazer é esquecer isso, nenhum capricho vale tanto desgaste&#8221;. Joana apressou-se em falar, em defender a sua paixão com veemência, mas foi impedida pela outra. &#8220;Pense comigo, menina. Não acha que ele é perfeito demais?&#8221; Joana indignou-se: &#8220;A senhora está insinuando que ele é bom demais para mim?&#8221; A cartomante riu. &#8220;Não, querida. Estou dizendo simplesmente, que ele é bom demais. Pense. Bem vestido, sabe dançar, cozinhar, pinta, gosta de filmes de arte, de ópera e de se exercitar. O que podemos concluir disso?&#8221;.</p>
<p>Joana deixou cair o queixo. Não podia ser!</p>
<p>E, ante a expressão estarrecida da moça, Dona Madalena sorriu docemente. &#8220;Se o seu nome fosse João, querida, não haveria nada que a impedisse de conquistá-lo&#8221;.</p>
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