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	<title>Amores - Contos de Amor &#187; maria antonieta rodrigues mattos</title>
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	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
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		<title>Lourival, o Silencioso</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 17:54:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[maria antonieta rodrigues mattos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Maria Antonieta R. Matos</p>
<p>&#8220;Amigos,
Quando criança eu lí um livro maravilhoso, intitulado &#8220;Obras Primas do Conto Universal&#8221;. Vários contistas consagrados, da literatura russa, francesa, inglesa e mais <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/lourival-o-silencioso/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Maria Antonieta R. Matos</em></p>
<p>&#8220;Amigos,<br />
Quando criança eu lí um livro maravilhoso, intitulado &#8220;Obras Primas do Conto Universal&#8221;. Vários contistas consagrados, da literatura russa, francesa, inglesa e mais uma infinidade de outros expoentes faziam um carrousel de pérolas&#8230; um conto mais lindo que o outro.<br />
Este conto não é apenas meu&#8230; Não, não é&#8230; Eu fui imensamente influenciada aqui, por Fiodor Dostoiévsky que escreveu uma estória que se assemelha. Sem querer ser titular de coisa alguma, e até por isto mesmo esta introdução, apenas deixo o conto para quem gosta de ler&#8230;.&#8221;</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Heaven por John Barton" src="http://www.gehspace.com/edicao%2070%20imagens/johnbarton-heaven.jpg" alt="Heaven por John Barton" width="400" height="401" /><p class="wp-caption-text">Heaven por John Barton</p></div>
<p>Aqui, neste mundo, a morte de Lourival, o Silencioso, não causou impressão alguma. Pergunte a quem quiser quem era o Lourival, que vida levava e de que morreu; se foi de um colapso cardíaco, se lhe faltaram forças, ou se quebrou o espinhaço sob alguma carga pesada. Ninguém saberá dizer. Talvez, no fim de contas, tenha morrido de fome.</p>
<p>Se uma besta de carga tivesse caído morta no meio da rua, teria despertado mais interesse. Apareceriam notícias nos jornais, centenas de curiosos correriam para ver a carcaça do animal e examinar o local do desastre&#8230;</p>
<p>Lourival viveu no silêncio e no silêncio morreu. Passou através do nosso mundo como uma sombra. No dia de seu batismo ninguém bebeu cerveja ou comeu churrasco, ninguém quebrou copos, como era costume em sua família do leste europeu. Também, quando confirmado, não houve discursos. Viveu como vive o grão de areia na praia do mar, entre milhões da sua espécie. E quando o vento o levantou jogando-o para o outro lado do mar, ninguém deu por isso. Quando ele vivia, a lama da rua não guardava impressão alguma das suas pegadas; depois que morreu, o vento derrubou a tabuleta que marcava o túmulo onde fora enterrado. A mulher do coveiro foi encontrá-la muito longe do lugar e utilizou-a para fazer fogo, no qual ferveu uma panelada de batatas. Passados três dias, mesmo o coveiro não mais se lembrava onde o sepultara.</p>
<p>Uma sombra! As suas feições não ficaram gravadas na memória de pessoa alguma, nem no coração dos seus semelhantes; dele não restou vestígio algum.</p>
<p>Sem herança nem parentes, viveu; sozinho viveu e sozinho morreu.</p>
<p>Se o mundo tivesse menos que fazer, talvez alguém notasse que Lourival (que também era um ente humano) andava com o olhar amortecido e as faces encovadas; que mesmo sem carga nas costas a sua cabeça pendia para a terra como se ainda em vida, andasse em busca do túmulo. Quando levaram Lourival para o hospital, o canto dele no porão logo encontrou outro inquilino — eram dez como ele que esperavam, e entre si puseram a coisa em leilão. Quando o levaram do hospital para o necrotério. eram vinte os doentes que aguardavam o seu leito. Quando saiu do necrotério, deram entrada vinte cadáveres vindos de uma construção que desabara. Quem sabe quanto tempo ficará descansando na sepultura? Quem sabe quantos estarão esperando por aquele cantinho de terra?</p>
<p>Se ele tivesse tido, ao menos, um túmulo de pedra, é possível que daqui a um século qualquer arqueólogo o encontrasse e, assim, o nome de Lourival, o Silencioso, seria ouvido mais uma vez no mundo.</p>
<p>Um nascimento silencioso, uma vida silenciosa, uma morte silenciosa e um enterro ainda mais silencioso. Mas no outro mundo não foi assim. Ali a morte de Lourival causou grande sensação.</p>
<p>O troar da grande trombeta Messiânica ecoou através dos sete céus: Lourival, o Silencioso, havia deixado a terra! Os anjos maiores, com as mais largas asas, esvoaçavam e contavam uns aos outros: Lourival, o Silencioso, vem ocupar a sua cadeira na Academia Celestial!</p>
<p>No Paraíso houve algazarra e tumultos de alegria: Lourival, o Silencioso! Imaginem só!</p>
<p>Anjinhos infantis, com olhos resplandecentes, asas de filigrana de ouro e chinelinhos de prata, correram jubilosos ao seu encontro.</p>
<p>O zumbir das asas, o ratatá dos chinelinhos e as risadas das boquinhas rosadas enchiam todos os céus, chegando até ao Trono da Glória, de maneira que Deus logo soube da chegada de Lourival, o Silencioso. Até Abraão estava de pé no portal, com a mão direita estendida em calorosa saudação, e um doce sorriso iluminava-lhe o semblante patriarcal.</p>
<p>Que será que vem rodando através dos céus? Dois anjos estão arrastando uma cadeira de ouro do Paraíso, para Lourival, o Silencioso. Que foi que reluziu com tanto brilho? Levavam uma coroa incrustada de pedras preciosas, tudo para Lourival, o Silencioso.</p>
<p>— O que é isso, indagavam os santos, com uma pontinha de ciúmes, mesmo antes de ser dada a decisão do Tribunal Celestial?</p>
<p>— Oh! — respondiam os anjos — isso será apenas uma formalidade. Mesmo o promotor não dirá uma só palavra contra Lourival, o Silencioso. Todo o processo não levará cinco minutos! Imaginem só! Lourival, o Silencioso!</p>
<p>Quando os anjinhos vieram receber sua alma tocando doces melodias; quando Abraão apertou-lhe as mãos como se fossem velhos camaradas; quando soube que estavam preparando um trono especialmente para si, no Paraíso, e que havia uma coroa de ouro para a sua cabeça, e que nada seria dito em seu desfavor na Corte Celeste; quando viu e ouviu tudo isso Lourival ficou paralisado pelo terror, como sempre estivera neste mundo. Seu coração parecia querer parar. Tinha certeza de que tudo aquilo não passava de um sonho ou de um terrível engano.</p>
<p>Sim, ele já estava habituado a isso. Quantas vezes, na terra, não sonhara que estava com os bolsos cheios de dinheiro e mais dinheiro! No entanto, quando acordava, estava mais pobre ainda. Quantas vezes alguém lhe sorrira, dirigindo-lhe palavras bondosas, tomando-o por outra pessoa mas afastando-se imediatamente com uma careta de repugnância ou cólera, ao verificar o engano!&#8230;</p>
<p>Não ousava levantar os olhos, para que o sonho não se dissipasse, para não despertar dentro de alguma gruta cheia de cobras e lagartixas. Estava com medo de falar, com medo de se mexer, receando ser reconhecido e lançado no purgatório. Tremia todo e não ouvia os cumprimentos dos anjos, não vendo como dançavam ao seu redor nem correspondendo à saudação de Nosso Pai Abraão.</p>
<p>E, ao ser conduzido à presença do Tribunal Celestial, nem mesmo se lembrou de dizer bom dia. Estava transido de terror. “Quem sabe com que ricaço, com que rabino, com que santo eles estão-me confundindo? Ele virá — e isso será o meu fim!”</p>
<p>Tamanho era o seu terror, que nem mesmo ouviu o presidente anunciar: O processo de Lourival, o Silencioso! acrescentando, ao passar os autos para o advogado: leia, mas com toda pressa! Todo o salão começou a rodar na vista de Lourival; zumbiam-lhe os ouvidos. Através do zumbido, ouvia com a maior clareza a voz do advogado, que falava com a doçura de um violino:</p>
<p>— O nome dele assentava-lhe tão bem como uma roupa em corpo elegante, confeccionada pela mão do mais artista dos alfaiates.</p>
<p>— “De que estará falando?” — pensava Lourival, e ouviu uma voz impaciente que interrompia:</p>
<p>— Por favor, deixe-se de comparações.</p>
<p>— Dele — continuou o advogado — jamais partiu uma só queixa contra Deus ou contra os homens. Nunca, em seus olhos, brilhou ódio algum. Jamais dirigiu ao Céu um só olhar de súplica.</p>
<p>Lourival continuava sem compreender e mais uma vez ouviu a voz firme interromper:</p>
<p>— Por favor, deixemos de retórica!</p>
<p>— Job não chegou a resistir; este, porém, era mais infeliz&#8230;</p>
<p>— É favor continuar&#8230;</p>
<p>— Ele&#8230;</p>
<p>— Fatos só, cinja-se a fatos unicamente — gritou o presidente cheio de impaciência.</p>
<p>— No seu oitavo dia supurou-lhe o umbigo!&#8230;</p>
<p>— É favor não trazer à baila detalhes realistas&#8230;</p>
<p>— Ele sofreu, pois não conseguiram estancar-lhe o sangue&#8230;</p>
<p>— Continue&#8230;</p>
<p>— Conservou-se calado — continuou o advogado — mesmo quando lhe morreu a mãe e lhe deram uma madrasta, tendo ele treze anos, uma madrasta que era uma cobra, uma virago.</p>
<p>— “Será que, no fim das contas, se trata de mim?” — pensou Lourival.</p>
<p>— Nada de recriminações contra terceiros — advertiu, zangado, o presidente.</p>
<p>— Ela contava-lhe os bocados de pão duro e bolorento, dava-lhe osso em vez de carne, enquanto ela bebia café com muito creme.</p>
<p>— Cinja-se ao essencial — ordenou o presidente.</p>
<p>— De tudo lhe dava muito pouco, menos os maus tratos e as unhadas. As equimoses pretas e azuladas ficavam à vista, através dos rasgões de suas roupas esfarrapadas e bolorentas. No inverno, no rigor das geadas, teve de ir buscar lenha com os pés descalços lá fora, no pátio. Suas mãozinhas eram fracas, os toros grandes demais e o machado não tinha gume. Muitas vezes suas mãos racharam-se de frio e seus pés se congelaram. E ele sempre silencioso. Mesmo diante de seu pai&#8230;</p>
<p>— Aquele bêbedo? — interrompeu o acusador, com uma risada, e Lourival sentiu um frio percorrer-lhe todo o corpo.</p>
<p>— &#8230;ele nunca se queixou&#8230;</p>
<p>— E sempre só — prosseguiu o advogado — sem amigos, sem colégio, nem ensino de espécie alguma. Jamais uma roupa que não fosse rasgada; nunca um momento de liberdade.</p>
<p>— Fatos somente, faz favor! — lembrou o presidente.</p>
<p>— Manteve o silêncio mesmo quando, depois disso, o pai embriagado pegou-o pelos cabelos e arrojou-o na rua, numa noite tempestuosa. Levantou-se silenciosamente da neve e encaminhou-se para onde os seus pés o levaram&#8230; Finalmente, numa úmida e gelada noite do começo da primavera, chegou a uma grande cidade. Desapareceu nela como uma gota d&#8217;água desaparece no oceano. Nessa mesma noite, porém, dormiu na cadeia&#8230; Mas sempre silencioso, sem perguntar por que o tinham prendido, por que o tratavam assim. Ao sair da prisão, dedicou-se aos mais pesados trabalhos. E sempre silencioso! Suando frio, esmagado sob cargas excessivas, com o estômago convulsionado pela fome — continuava silencioso. Enlameado, expulso com a sua carga fora da calçada, era obrigado a andar no meio da rua, entre carruagens, carros e veículos de todas as espécies, cara a cara com a morte a cada passo. Sempre silencioso&#8230; Nunca se preocupou em calcular quantas libras de peso deveria carregar por um vintém, nem quantas viagens para ganhar um níquel. Jamais soube calcular a diferença entre a sorte dos outros e a sua&#8230; Sempre guardou silêncio. Nunca levantou a voz para receber a sua paga; ficava de pé na porta como se estivesse a pedir uma esmola, implorando só com os olhos — volte mais tarde! — e ele se sumia como uma sombra, para regressar ainda outra vez e implorar a sua paga, com humildade ainda maior. Permanecia calado mesmo quando o ludibriavam, roubando-lhe parte, ou quando incluíam alguma moeda falsa. Tudo suportava em silêncio.</p>
<p>“É de mim que eles falam, não resta dúvida” — pensou Lourival.</p>
<p>— Uma vez — continuou o advogado depois de tomar um gole d&#8217;água — operou-se uma mudança em sua vida. Passava em carreira vertiginosa uma carruagem arrastada por dois cavalos desenfreados. O cocheiro caíra por terra e jazia a alguma distância, com o crânio partido. Os cavalos, espantados, espumando pela boca; suas ferraduras desprendiam faíscas da calçada e seus olhos luziam como lâmpadas de fogo em noite escura. Dentro da carruagem mais morto do que vivo estava um homem sentado. E Lourival fez parar os cavalos. O homem que salvara era caridoso e não se mostrou ingrato. Pôs o chicote nas mãos de Lourivsal, e Lourival tornou-se cocheiro. Ainda por cima foi-lhe proporcionada uma esposa. E Lourival continuava sempre no seu silêncio!</p>
<p>— “É de mim que falam” — pensou Lourival mais uma vez, e lhe faltou coragem para dirigir o olhar para o Tribunal Celestial.</p>
<p>Ouviu o advogado continuar&#8230;</p>
<p>— Ficou em silêncio quando seu antigo benfeitor faliu e não lhe pagou os salários acumulados&#8230; Silencioso conservou-se quando sua esposa o abandonou, deixando-o com o filhinho doente&#8230; E em silêncio permaneceu quando, quinze anos mais tarde, seu filho, já homem forte, expulsou-o de casa&#8230;</p>
<p>— “É de mim que estão falando! É de mim!” — pensou Lourival, jubilosamente.</p>
<p>— Guardou silêncio até — prosseguiu o advogado, com voz mais meiga e mais triste — quando o mesmo filantropo pagou a todos os seus credores, menos a ele e, mesmo quando (outra vez uma carruagem com cavalos desenfreados) Lourival caiu e passou-lhe a carruagem por cima. Guardou silêncio tanto na polícia como no hospital, para onde o levaram. Ficou calado quando o médico não quis cuidá-lo, sem receber cinquenta “Reais”, e quando o enfermeiro exigiu mais vinte, para mudar-lhe a camisa. Permaneceu calado nos últimos momentos da sua agonia e silencioso ficou quando a morte se aproximou. — Nem uma só palavra contra Deus; nem uma só palavra contra os homens&#8230; Tenho dito!</p>
<p>Mais uma vez Lourival tremeu da cabeça aos pés. Sabia que depois do advogado vem o promotor. Quem podia saber o que ele diria? Lourival mesmo não se lembrava de mais nada da sua vida. Mesmo no outro mundo ele não se recordava do que lhe acontecera, dos momentos que passara. O advogado é que fizera reviver tudo na sua mente. Quem sabe o que o promotor lembraria?</p>
<p>— Senhores — começou o promotor, numa voz áspera e ácida como vinagre. — Senhores — tornou a começar, mas a sua voz agora era mais suave. E, agora, daqueles lábios se desprende uma voz quase acariciadora: — Senhores: Ele silenciou. Eu vou silenciar também!</p>
<p>Fez-se o silêncio. E então se faz ouvir uma nova voz, meiga e trêmula: — “Lourival, meu filho! (esta voz soa como uma harpa). Meu querido filho Lourival!”</p>
<p>E o coração de Lourival como que se desfaz em lágrimas. Quer abrir os olhos, mas eles estão rasos de lágrimas. Jamais chorara tão doce e sentidamente. — Meu filho! Lourival! Ninguém depois da morte de sua mãe, lhe tinha dirigido palavras tais como estas.</p>
<p>— Meu filho! — continuava o Supremo, — tu sofreste e mantiveste silêncio; não há articulação nem ossos inteiros no teu corpo e neste não há a mínima parte sem cicatriz, sem ferida. Nem uma fibra da tua alma que não tenha sangrado — e tu ficaste calado. Lá eles não te compreendiam. Talvez tu mesmo não soubesses que poderias ter clamado e que ao teu grito se teriam desmoronado as muralhas de Jericó. Tu mesmo nada sabias da tua força oculta. No outro mundo o teu silêncio não foi compreendido. Mas aquele mundo é o da desilusão; no mundo da Verdade receberás a tua recompensa. Tuas dívidas não serão julgadas; os teus créditos não pesarão na balança. Podes tomar o que quiseres! Tudo o que há no céu te pertence.</p>
<p>Lourival ergue os olhos pela primeira vez. Fica deslumbrado: tudo reluz, tudo resplandece. Faíscam raios de glória, vindos das paredes, dos vasos, dos juízes. Uma infinidade de estrelas! Ele baixa os olhos, seus fatigados olhos.</p>
<p>— Na verdade? — pergunta timidamente.</p>
<p>— Sim! — responde o Supremo — em verdade te digo, tudo é teu. Tudo o que há no céu te pertence. Escolhe e toma o que quiseres, que só tomaras o que por direito te pertence.</p>
<p>— Na verdade? — pergunta ainda Lourival, mas desta vez com voz mais firme.</p>
<p>— Na verdade — respondem de todos os lados.</p>
<p>— Bem, se assim é — sorri Lourival — peço que me dêem cada dia, para o meu almoço, um pão quente com manteiga fresca&#8230;</p>
<p>O Tribunal e os anjos baixaram os olhos, um tanto envergonhados; o promotor sorriu com doce piedade&#8230;</p>
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		<title>Um adeus ao passado</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 16:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[maria antonieta rodrigues mattos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Maria Antonieta Rodrigues Mattos</p>
<p class="wp-caption-text">Piano Lesson with Ashura por Kazumi Honda</p>
<p>Depois de tantas incertezas, ela tinha escolhido aquela tarde. Quantas vezes já havia passado de ônibus <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/um-adeus-ao-passado/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Maria Antonieta Rodrigues Mattos</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Piano Lesson with Ashura por Kazumi Honda" src="http://www.gehspace.com/edicao%2064%20imagens/Piano%20Lesson%20with%20Ashura,%20oil%20on%20canvas%20by%20Kazumi%20Honda.jpg" alt="Piano Lesson with Ashura por Kazumi Honda" width="400" height="346" /><p class="wp-caption-text">Piano Lesson with Ashura por Kazumi Honda</p></div>
<p>Depois de tantas incertezas, ela tinha escolhido aquela tarde. Quantas vezes já havia passado de ônibus por aquela rua&#8230;. Sempre que passava por ali seu olhar se detinha naquela vitrine e ela só voltava a olhar para frente quando o ônibus dobrava a esquina, não tendo mais o que olhar e, mesmo assim, voltava seu rosto lentamente e com o olhar perdido&#8230; Mas hoje seria diferente, ela iria àquela loja. Ela trazia consigo, aflorando em seu coração, o desejo de reviver o passado. Ela apertou o cordão com uma certa aflição e o barulho monótono da campainha, fez o motorista frear o coletivo, parando-o em frente ao Out Door da Pepsi&#8230;Desceu com o seu coração já em descompasso. Atravessou a rua e, parecendo hipnotizada, entrou na loja. Foi direto ao ponto&#8230;. Ele estava lá sim&#8230;Não ouviu nem o que o vendedor havia dito, caminhando rumo ao piano&#8230; Suas mãos suavam frio e estava trêmula, mas só percebeu isso quando viu suas digitais marcadas no tampo do teclado.</p>
<p>Limpou os dedos na saia e, como se preparando para um concerto, sentou-se em frente ao teclado. Esticou as costas, ajustou-se na banqueta, retirou o feltro que cobria as teclas. O nome Essenfelder, com a letra &#8220;f&#8221; apagada lhe deu um nó na garganta. Começou a dedilhar, sentindo seu corpo trêmulo. Seus dedos se ajustavam entre os espaços das teclas. Errou nos primeiros acordes, mas nada disso era importante. A emoção era maior: entre um acorde e outro, as lembranças vinham. Era o seu passado chegando. Podia se lembrar das aulas com a professora de piano, Dona Yolanda que fora sua professora por tantos anos. Ela era rígida e cobrava uma seriedade e uma responsabilidade impossível de uma adolescente cumprir. Podia sentir agora a mão firme, porém macia e flácida de cor quase que transparente de D. Yolanda sobre a sua, tentando fazê-la acertar; sua voz rouca e baixa, dando o tom da melodia.</p>
<p>Os primeiros treinos de solfejo, o contato com o piano, o Bona&#8230;O cheiro do perfume doce, forte e barato que a professora usava, o cheiro de naftalina das roupas dela e o som metálico da marcação do compasso imposto pelo metrônomo ( saco !) sobre o tampo do piano&#8230; Sempre às quintas-feiras pela tarde tinha aula de piano. Também podia jurar que naquele momento vinha da cozinha um cheiro de café fresco, e ouvia o fritar dos bolinhos de chuva que seriam envoltos em açúcar e canela que sua mãe fazia nas tardes de sábado para servir aos amigos que iam ouvi-la tocar. Sentiu a presença de seu pai que, atentamente, aguardava ao seu lado o sinalizar com a cabeça para virar a folha da partitura da música que estava tocando. Agora já era o passado, ali mais vivo do que nunca. Quanto tempo ela ficou ali não sabia dizer, mas foi trazida ao presente pela mão fria e calejada do vendedor tocando no seu ombro, avisando que era hora de fechar a loja.</p>
<p>Ela ainda tonta e embriagada pelo transe levantou-se, agradeceu e, quando já estava deixando a loja, o vendedor, um senhor baixo, de voz baixa, que também se vestia de passado, com uma boina de feltro marrom, um colete de veludo grená e um relógio de corrente dourada pendurada sobre o colete, a chamou com uma voz melodiosa e triste&#8230; Disse que aquele piano seria retirado no dia seguinte, pois havia sido vendido. Ela silenciosamente voltou, passou as mãos suavemente sobre as teclas, recolocou o feltro, fechou o tampo, olhou nos olhos úmidos do vendedor que também refletiam as suas lágrimas, e saiu sem olhar para trás. Seu passado fora, de certa forma vendido e, naquele momento se despediu dela&#8230;</p>
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		<title>A PRIMEIRA&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 16:20:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[maria antonieta rodrigues mattos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Maria Antonieta R. Mattos</p>
<p class="wp-caption-text">The garter por Salvatore Zofrea</p>
<p>Ela tremia. Pernas, mãos, o corpo inteiro. Seus passos se tornaram imprecisos, inseguros. Os clientes começariam a chegar <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/a-primeira/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Maria Antonieta R. Mattos</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="The garter por Salvatore Zofrea" src="http://www.gehspace.com/edicao%2058%20imagens/Salvatore%20Zofrea%20%20-%20the%20garter.jpg" alt="The garter por Salvatore Zofrea" width="400" height="457" /><p class="wp-caption-text">The garter por Salvatore Zofrea</p></div>
<p>Ela tremia. Pernas, mãos, o corpo inteiro. Seus passos se tornaram imprecisos, inseguros. Os clientes começariam a chegar por volta das oito da noite e Kate tratou de respirar fundo, se recompor&#8230; Só faltavam quinze minutos!! Mais de uma vez, pensou em abandonar tudo. E se alguém conhecido aparecesse por lá, meu Deus, o que seria dela!!?</p>
<p>Ah, pensamento positivo&#8230; Pensamento positivo.! Estava a quilômetros de seu bairro. Estava na Zona Sul e ela morava na Zona Leste. Não, não apareceria ninguém!! Uma cidade deste tamanho, com milhões de pessoas&#8230; Além do mais, estava irreconhecível. O melhor daquele emprego, até então, era ter conseguido aquele trato todo. Cabelos, unhas, perfumes. Ela justificou para Dona Eugênia – sua mãe – que conseguira emprego numa lanchonete de um posto de serviços na Anchieta. &#8211; “E como você vai para lá, menina? É tão longe&#8230;” -<br />
- Mamãe, estou grandinha!! Por favor, não se preocupe!!.<br />
Ela pegaria carona com um frentista, o Paulo Roberto – “aquele do fusquinha azul, lembra?”. E chegaria cedo, por volta das 7 horas da manhã. Já estaria claro e a mãe nem precisaria ficar tão nervosa. O primeiro cliente entrou pela porta dupla&#8230; Ela presenciou o segurança o revistando. Havia dezenas de garotas. E o cliente foi direto ao america bar. Monique, sua instrutora, se aproximou do rapaz. Ele parecia assustado, envergonhado. Pediu uma bebida qualquer. Pareceu um Campari. Sim, era um Campari. Com gelo e limão. Monique alisava a cabeleira do rapaz. Sorria, sempre. Sorria e o alisava. Kate observava. Tinha sido orientada pelo patrão a não pegar nenhum cliente antes de ver Monique em cena. Monique era bacana, diferente das demais veteranas, que soltavam piadinhas para ela desde que fora contratada. Ela mesma se propôs a ensinar os primeiros passos para Kate. O segredo, amiga, é o sorriso contínuo. Sempre sorrindo, entendeu?<br />
Mais rapazes foram chegando. Alguns pareciam conhecer as cortesãs. Abraçavam. Beijavam. Faziam pequenas carícias em seus cabelos. Outros vinham em duplas. Eram mais descontraídos. Os que chegavam sós eram mais arredios. Perscrutavam o ambiente, investigando se um vizinho ou parente não estava por lá. Depois de algum tempo relaxavam. Bebiam. Aproximavam-se, aos poucos, dos outros solitários. Até começarem a investir nas garotas. Monique largou o primeiro rapaz. Despediu-se friamente e foi em direção à Kate. &#8211; O viado deve estar com medo, Kate. Babaca! Tá vendo aquele ali, de camisa vermelha. Parece um bom cliente. Agora é a sua vez. Vai lá, menina, vai logo! Antes que alguma piranha chegue junto. As mãos de Kate suaram. Mas não havia mais como adiar. Armando, o gerente, sinalizou com a cabeça que ela deveria ir. Deu uma leve arrumada no vestido transparente, apertando o busto farto.<br />
Aproximou-se&#8230;. “Oi, gatão! Posso tomar uma bebida?” Sentou-se ao lado do gatão, que retribuiu a pergunta com um sorriso e com a promessa de que, mais tarde, assim que o irmão chegasse, ele pagaria um Martini. Ele devia ter mais de quarenta anos, era moreno, cabelo crespo, preto. Além da camisa vermelha, vestia uma calça branca bem apertada, limpa. E um par de botas de cano alto. Tinha uma larga falha entre os dentes da frente. Kate repousou sua mão miúda sobre as coxas do homem. Ele, por sua vez, começou a alisar os cabelos negros de Kate, suavemente, sem pressa. Você é nova aqui, não é princesa? &#8211; Hoje é minha estréia, para dizer a verdade. E eu escolhi você, gato&#8230; &#8211; Como você é linda. Sabia que você é linda, princesa? &#8211; Obrigada, são seus olhos, gato. E então, veio se distrair um pouco? &#8211; Fui despedido. Mas eu não queria mesmo continuar naquela espelunca. Meu chefe é um idiota. Um babaca. Burro que só vendo&#8230;<br />
Aposto que não conseguirá tocar a loja por um mês. Sempre se escorou em mim, o fdp! &#8211; Meu gato!, Não fica assim nervoso não! Relaxa. Toma mais uma bebida. Desabafa pra mim. &#8211; Obrigado, princesa. Você é muito atenciosa. Mas, me conta: como veio parar aqui? Naquele momento Kate insinuou se entristecer. Abaixou a cabeça. Em seguida olhou para o lado. Olhou para o nada. Fez mistério antes de pronunciar a primeira frase. O homem apertou-lhe levemente a mão e fez cara de quem está curioso para saber. Ela contou que também tinha perdido o emprego. Trabalhava num escritório na Rua São Bento, mas a firma faliu e ela não recebeu seus direitos. Isto há quase cinco meses. E, por mais que procurasse outro trabalho, não conseguiu encontrar. Tinha uma filha de quatro anos e a avó doente para sustentar – perdera os pais num acidente de carro quando ainda era adolescente. Estava passando por muitas dificuldades, estava quase enlouquecendo, quando uma velha amiga lhe contou sobre aquele trabalho.<br />
Pensou mil vezes antes de dizer sim. Acabou aceitando porque pensou no futuro da filha. Mas era temporário. Voltaria para a faculdade e arranjaria um emprego, tinha certeza. Os olhos do cliente lacrimejaram. Ele tomou mais um gole e deu-lhe um beijo carinhoso na face morena. Depois abraçou-a fraternalmente. Ela recebeu o sinal do gerente de que seu tempo tinha se esgotado. Ao se desgrudarem, ela perguntou se ele queria fazer o programa. &#8211; Você faz tudo, amor? &#8211; Tudo o que quiser, gato! Quer dizer, tudo, menos anal. &#8211; Então não quero. Fica para a próxima. Despediram-se e ela correu atrás da amiga. Monique estava com um cliente. Demoraria mais meia hora. Kate ficou perdida. Queria fugir do olhar provocador do Armando, que a perseguia. Não sabia o que fazer. Só se tranqüilizou quando viu Monique descer de mãos dadas com um rapaz loiro, esguio. Contou como fora sua abordagem. Um desastre, o cara é um tarado fdp! &#8211; E a história da filhinha e da avó? &#8211; Não colou. Acho que precisamos inventar outra história!&#8230; – sorriu.<br />
Somente as duas da madrugada Kate conseguiu levar um cliente para o quarto número 7, que ficava no segundo andar. Era um bêbado imundo, com um bigode imenso, olhar caído, roupas horrorosas. Tinha um bafo insuportável e ela quase não conseguia entender o que ele falava. Só sabia que ele sempre repetia a mesma coisa. “Eu te amo, amô&#8230; eu te amo, amô&#8230;! Ela sugeriu que se lavassem antes de ir pra cama. Ele não aceitou. Então Kate jogou uma água no corpo muito rapidamente. Ele já estava pelado na cama, mexendo no negócio. Foi só meia hora. Mas Kate fez tudo. Ou melhor, quase tudo. Kate chegou em casa às sete e meia. Deu um beijo na testa da mãe, que dormia, e foi para o seu quarto. Lembrou da madrugada. Do animal com quem tinha transado. Do seu bafo. Do bigode incomodando-lhe a pele. Do seu próprio gemido teatral. Sentiu vergonha. Chorou. Deixou a bolsa sobre o criado-mudo.<br />
Deitou-se.<br />
- Maria das Graças, onde arranjou esses vinte reais?<br />
- Caixinha, mamãe. Caixinha.</p>
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		<title>Um conto inocente</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:58:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[maria antonieta rodrigues mattos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Maria Antonieta R Mattos</p>
<p>Eis um conto&#8230; Coisa romântica e meio purista, &#8230;. uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/um-conto-inocente/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Maria Antonieta R Mattos</em></p>
<p><em>Eis um conto&#8230; Coisa romântica e meio purista, &#8230;. uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um lado e o corpo em reação contrária por outro. Uma fase difícil&#8230; que só me propiciava sonhar&#8230;.</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 385px"><img title="Swinging Infinity por Margaret Cilento" src="http://www.gehspace.com/edicao%2057%20imagens/Margaret%20Cilento_SwingingInfinity.jpg" alt="Swinging Infinity por Margaret Cilento" width="375" height="500" /><p class="wp-caption-text">Swinging Infinity por Margaret Cilento</p></div>
<p>Verão. No céu nuvens desenhavam elefantes, ursos e palhaços. Estou deitada no fundo quintal, mãos atrás da cabeça, lápis sendo mordiscado no canto da boca e a lição da Dna Margarida, esquecida ao lado&#8230;</p>
<p>Um ruído em crescendo e identifico um carro de som que acaba de dobrar a esquina. Em alvoroço trato de ajeitar a saia, arrumo a blusa torta e corro para o muro que separa minha casa da rua. E na rua passa uma pick up com alto falante, onde aos berros, uma voz entusiasmada anuncia o maior circo do mundo!! E ele vai se apresentar bem na nossa cidade, lá no descampado da Prefeitura. Finalmente o Circo Americano em Apucarana!!..Entrei casa a dentro à toda sorrindo e já sonhando com o espetáculo que ia assistir já no no final da tarde. Vi minha mãe fazendo recomendações de meu comportamento, mas nos meus quinze anos, pensava que sabia tudo. Ansiava com a chegada da hora.</p>
<p>Escolhi o vestido mais lindo, queria ver de perto o circo tão falado na cidade. Minhas amigas chegaram, meus cabelos ainda molhados, esvoaçavam com o vento, sorria numa alegria de menina. A fila enorme, o pipoqueiro foi à primeira atração que vi. Compramos pipocas para a hora passar, as pessoas andavam de lá pra cá. Lourdes era a mais quietinha, parecia indiferente. Quando a fila foi diminuindo, ela olhou para a imensa lona meio assustada, mas a minha alegria era tanta, que nem ouvi seu comentário. Escolhemos a arquibancada mais próxima do picadeiro. Vestia um vestido de seda verde, meus cabelos negros combinando com o esmeralda de meus olhos, diziam que eu parecia uma artista. Ah&#8230;. eu me sentia mesmo uma artista&#8230; Minha primeira ida ao circo&#8230; puxa!! Debrucei meus braços nos joelhos e fiquei sonhando com aquele picadeiro, gostaria muito de fazer parte daquele mundo colorido do circo.</p>
<p>Nesse momento, um rapaz loiro, atravessou o picadeiro para puxar uma corda atravessada que ia até a arquibancada perto de nós. Ele parou e pediu licença, num sotaque que desconhecia. Nossos olhos se encontraram, notei um sorriso em seus lábios, meu coração disparou, ele parou e quando puxava a corda, jogou um beijo pra mim. Fiquei sorrindo numa alegria tão grande que minhas amigas aplaudiram. Não via hora do começo do espetáculo. Tentava imaginar qual seria a função daquele rapaz, seria um ajudante, e com certeza não mais o veria. Mas ficava olhando por toda parte do circo, onde estaria aquele loiro tão lindo que parecia um anjo. Nesse momento uma música de orquestra invadiu o circo, as pessoas aplaudiam, um senhor regiamente vestido e com ar seríssimo veio andando majestosamente até o centro do picadeiro e anunciou o inicio dos espetáculos.</p>
<p>Um grupo de palhaços invadiu o palco, as pessoas riam e um deles se destacou do grupo, foi se aproximando de nós e jogou uma flor pra mim&#8230; Peguei, e consegui ver seus olhos azuis escondidos na maquiagem. A alegria foi misturada em gargalhadas, aquele circo estava sendo uma grande mudança em minha vida, jamais sentira tanta emoção. E outros espetáculos aconteciam, mágicos, domadores, malabaristas, uma infinidade de atrações que nunca mais vi nos circos modernos&#8230; Circo, uma arte em extinção&#8230; Ah&#8230;mas eu já não estava mais interessada nas maravilhosas atrações se sucedendo umas às outras&#8230; Eu ficava era desejando ver de novo aquele rapaz que me dera alegria e depois desaparecera&#8230;<br />
Meu Deus, meu primeiro flerte&#8230; E logo com um palhaço de circo&#8230;.!! Ai, e tão lindo&#8230; Nesse instante, o homem de roupas elegantes e que fazia a locução, anunciou o espetáculo do trapézio.</p>
<p>Uma música começou a embalar o publico, as pessoas aplaudindo, uma rede foi estendida abaixo dos trapézios que ficavam lá no alto da lona à milhares de metros de altura para mim&#8230;Mexendo com o coração dos espectadores, estava o locutor fazendo o suspense do perigo que os trapezistas iriam desafiar!&#8230; Nesse momento dois rapazes e uma moça aparecem no picadeiro&#8230; Suas roupas colantes, brancas e com brilho, os transportavam; ao menos na minha cabeça, aos reinos de seres mitológicos e fantásticos tão comuns na imaginação juvenil.. Eles chegaram bem perto do publico para agradecer as palmas antecipadas ao espetáculo.Quando eles se viraram para nosso lado, dois palhaços atravessaram o palco, minha atenção voltou-se de imediato para eles, queria ver de novo o meu anjo vestido de palhaço enão o grupo de trapezistas, agora virados pra nós.</p>
<p>Eu procurava o olhar dos palhaços, reconhecer um deles mas, foram embora sem olhar pra mim. Ansiosa; senti uma ponta de decepção, quando Lourdes bateu de leve em meu braço para que eu olhasse para o trapezista mas&#8230; eu não dava atenção a ela, queria o olhar do palhaço,. Com o grupo se afastando, é que percebi que um dos trapezistas era o meu anjo&#8230;Tentei olha-lo, mas ele já se virara para a direção da escada de corda. Senti a sensação de perda, e Lourdes então disse que ele ficara o tempo todo me olhando. O espetáculo começou, ele bailava no alto, sentia um vento frio em meu rosto, a platéia aplaudindo, e lá do alto, seu corpo bem feito desafiando o perigo, em acrobacias cronometradas e a música melancólica da orquestra ajudando o show ficar mais fascinante&#8230; Ele olhou em minha direção&#8230; consegui ver seu sorriso, e do trapézio ele jogou outra flor que, em parábola quase perfeira, desenhou um longo arco desde o trapézio em movimento alucinante, acabando no entanto por cair duas fiadas atrás de mim, agarrada imendiatamente por uma outra moça intusiasmada.</p>
<p>Senti ciúmes, mas ele deu outro sorriso&#8230;Ficamos assim trocando sorrisos, beijou mão e a passou no coração e fez que jogara pra mim, fiz o mesmo gesto&#8230;Estávamos curtindo um flerte maravilhoso.</p>
<p>Nesse instante, número terminado, os três foram descendo as cordas, com aplausos e gritos confusos. Meu herói descia rápido, no fascínio daquele sentimento novo, não percebia, nem eu também, maravilhada com a perspectiva de vê-lo na minha frente, que as pessoas estavam gritando&#8230; que uma claridade sinistra de fogo surgiu do outro lado&#8230; Por um momento pensei que fazia parte do espetáculo, mas era um incêndio. As pessoas gritavam e corriam por varias direções. Um elefante enlouquecido passou em disparada, cindo sabe-se lá de onde, arrastando atrás de si lonas inflamadas, num paroxismo de pavor e dor. foi abrindo caminho de forma enlouquecida, arrastando o que encontrava pela frente, atropelando pessoas, pisoteando-as em busca de sua própria salvação.</p>
<p>Nesse momento a arquibancada começa a balançar. Apavorada, procurei minhas amigas com um olhar mas elas haviam desaparecido de perto de mim. Tentei descer do madeiro mas era tarde.. com um horrível estrondo elas se desmontaram, me deixando presa&#8230; Meu Deus, recordar estas cenas me trás novamente ao meio daquele fogo, pessoas gritando, outras virando verdadeiras tochas humanas&#8230; Minha perna estava presa entre as madeiras e eu estava impossibilitada de sair do lugar e quando já perdia as forças, senti alguém tentando tirar-me dali&#8230;Nossos olhos se encontraram nesse instante de puro pavor. O fogo já dominando quase tudo e ele fazendo força para livrar minhas pernas.Pedi em desespero que ele fosse embora, que salvasse sua vida mas ele, gesticulando muito saiu à procura de ajuda. O calor era insuportável e eu já nada mais via com aquela fumaça acre, quando outra vez tive esperança de sair daquele incêndio.</p>
<p>Ele voltou com um ferro enorme, e com uma força descomunal, conseguiu empurrar partes das arquibancadas que prendiam minhas pernas. Ele me retirou semi inconsciente e tentou sair&#8230; Mas tinha muito fogo&#8230; Ele me carregava entre os braços; a dor era tanta, que queria apenas permanecer ali&#8230; quieta, que tudo acabasse, no intanto uma outra parte de mim, guerreira e lutadora tentava permanecer acordada&#8230; E ele conseguiu um atalho por entre o fogo e as pessoas pelo chão. Já chegávamos quase do lado de fora, quando outras partes de arquibancadas cairam, arrastando-nos impotentes no mar de fogo.. Ficamos abraçados e sem esperança de sobreviver.Meu herói não desistira, no entanto.. Tentava me carregar, apesar de muito ferido&#8230;Desesperada, consegui me arrastar mais pra dentro das tábuas para defender-me do fogo&#8230; Um instante de calmaria e esquecendo-me da dor implorei novamente para que le saísse dali.. então acabou.. com um estrondo toda a estrutura veio finalmente abaixo.</p>
<p>E milagre, à nossa volta o céu estrelado sendo vez por outra obscurecido pela fumaça ao nosso redor. Fomos amparados por várias pessoas e perdi os sentido. Acordei no hospital, uma semana depois. Fiquei então sabendo a catástrofe tinha sido terrível, que muitas pessoas tinham morrido. Lembrei-me então do trapezista&#8230; Não sabia nada dele, nem ao menos se estava vivo. Chorei baixinho, ninguém poderia entender que um amor poderia acontecer tão rápido e ter um fim tão trágico. Voltei a minha vida normal, todos os dias nos jornais saiam noticias de pessoas que perderam amigos, famílias inteiras morreram. Minhas amigas, graças à Deus, conseguiram se salvar. Passaram-se alguns anos. Fui para a universidade e lá conheci o André, estudante de psicologia. Bom rapaz, educado e gentil, foi meu companheiro por dois anos na escola. Eu estava com ela quando fomos convidados para um seminário na Argentina.</p>
<p>Córdoba é uma cidade linda e foi lá que chegamos numa noite clara&#8230; A cidade toda iluminada tinha um brilho especial em um canto&#8230; As luzes iluminavam intensamente a lona filetada e inconfundível de um grande circo. Meu pensamento voltou-se incontinenti para uma outra época e eu não podia deixar de ter um trauma violento por causa do acidente ocorrido em apucarana anos antes&#8230;Meu herói trapezista e palhaço veio imediatamente à memória&#8230; Naquela noite André bateu à porta de meu apartamento no hotel, com os outros colegas presentes no mesmo seminário. André era muito atencioso, entrou no quarto e abraçou-me e olhando pela janela, para a redoma iluminada ao longe, pediu que eu falasse daquele dia. Senti uma sensação ruim, e implorei em não ter que trazer novamente à tona, os acontecimentos daquela noite mas, por ser psicólogo, ele gentil mas dominador, insistiu dizendo que eu tinha que vencer o medo.</p>
<p>E mais, iríamos todos juntos ao circo&#8230;Recusei, mas André e os colegas insistiram . A sensação de medo era muito forte&#8230; quando chegamos àfinal na entrada do circo, não agüentei, entrei em pânico e recuei violentamente&#8230; Fui abraçada ainda chorando por André. Nesse instante nossas mãos se encontraram, senti segurança, ele dizendo que me ajudaria a curar o trauma.. Enfim, agarrada à ele e escoltada pelos amigos, fomos procurar uma arquibancada, André me abraçava, nunca sentira tanto carinho depois daquela época. O espetáculo começou, em minha lembrança, olhei para os lados, meus colegas de faculdades, comiam pipocas, parecia a mesma cena, André acariciava minhas mãos, nesse instante o locutor anunciou o espetáculo do trapézio.</p>
<p>Um murmúrio de excitação elevou-se da platéia e um trio elegante apareceu no palco, uma lágrima rolou em meu rosto, lembrança daquele sorriso que nunca mais saiu de minha lembrança&#8230; Senti as mãos de André segurando firmes, as minhas.. A troupe se dirigiu Aos presentes em cuprimentos e, neste momento três palhaços atravessaram o palco. Lembrei-me de Lourdes e meu olhar foi para o grupo de trapezista,. Os palhaços davam cambalhotas e faziam micagens.. Dois&#8230; O terceiro ficou estático&#8230;</p>
<p>Faltava-lhe uma perna&#8230; Tirou a flor espalhafatosa que trazia na lapela do paletó bizarro e, abrindo um sorriso enorme, jogou-a em minha direção&#8230; Nesse instante meus olhos encontraram-se com os dele&#8230; Senti um calafrio&#8230; Levantei-me calmamente e comecei a descer as arquibancadas. André tentou me impedir mas nada e nem ninguém teria podido me parar&#8230;</p>
<p>Aproximei-me do picadeiro, ele estendeu as mãos, pulei para o lado de dentro com dificuldades e nos abraçamos&#8230;A platéia aplaudia sem nada entender, o que ocorria ali.. Aquele abraço sentido, que não acabava, era um abraço de saudade, de uma página virada, de felicidade&#8230;Foi o perder as asas da fantasia e ter de vez os pés na realidade&#8230;.</p>
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		<title>Um conto</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:34:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[maria antonieta rodrigues mattos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Maria Antonieta R Mattos &#8211; poeta, escritora, e apaixonada pela vida</p>
<p class="wp-caption-text">Old woman (1996) por Joel Kass</p>
<p>Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/um-conto/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Maria Antonieta R Mattos &#8211; poeta, escritora, e apaixonada pela vida</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Old woman (1996) por Joel Kass" src="http://www.gehspace.com/edicao%2054%20imagens/Old%20woman%20(1996)%20-%20joel%20kass.jpg" alt="Old woman (1996) por Joel Kass" width="400" height="398" /><p class="wp-caption-text">Old woman (1996) por Joel Kass</p></div>
<p>Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país.</p>
<p>A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus&#8230; Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista&#8230;.</p>
<p>Chamei o próximo paciente e aquela sensação acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer. Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando, a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe segurança, embora eu própria não soubesse ainda que caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada. Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar. Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir.</p>
<p>Voltaria dentro de um mês para avaliarmos o seu estado. Por cinco meses seguidos eu o vi entrar em meu consultório e a cada vez a sensação estranha tomava conta de mim. Com o tempo fomos nos tornado mais amigos e paulatinamente fui conhecendo um pouco de sua vida Quando criança, Eduardo via as primas ricas sendo quase que empurradas para as aulas de piano que detestavam. Ele, que gostava tanto de música, ficava morrendo de vontade de ocupar o lugar delas mas não podia realizar seu desejo por conta da sociedade interiorana de onde vivia, que achava pouco viril para um homem, estar às voltas com aulas de piano. Tinha um pai severo e que se recusava a pagar pelas aulas. Quando terminou o curso normal, foi ser professor. Reservava de seu pequeno salário uma quantia para poder manter-se no conservatório. Formou-se em piano como sempre sonhara. Devido ao seu esforço acabou por destacar-se. Foi convidado a dar um recital no teatro municipal e seu trabalho começou a ser reconhecido fora dos limites de sua cidade.</p>
<p>Foi assim que sua carreira teve início. Ele falava com naturalidade, como se ser famoso por seu talento fosse apenas questão de muito empenho. Eu ouvia tudo como se eu própria progredisse com ele. Quase não me dei conta de que estava me apaixonando. Ansiava por revê-lo e esperar um mês por cada consulta começou a representar um tormento para mim. Ficava imaginando-o em sua casa, ao lado da mulher e da filha adolescente que acabara de passar no vestibular de medicina. Sentia ciúmes daquela vida da qual eu não participava. O fato de não ter me casado nunca chegara a me incomodar antes de conhecê-lo. Eu estava com trinta e sete anos, faria trinta e oito dentro de dois meses, e minha vida parecia completa com o meu consultório e a reputação de médica talentosa e bonita. De repente, eu me via com desejo de ter uma família estabelecida, de ter filhos e Eduardo como esposo. Meu Deus, isto me deixava desconcertada.</p>
<p>Procurei infiltrar-me mais em seus pensamentos, conhecer mais de sua vida. Precisava estabelecer um contato mais pessoal e menos profissional.<br />
Era antiético, eu sei, mas inconscientemente eu estava travando uma guerra de conquista. Eduardo foi se recuperando aos poucos. Sua febre havia desaparecido e ele estava-me grato por isso. Seus olhos adquiriram um brilho natural, menos vítreo. Sentia-se mais disposto. Relutante, por meus próprios motivos, acabei por indicar seguimento médico de dois em dois meses. Foi difícil deixar de vê-lo todo mês mas eu não poderia fazer de outro modo: ele estava visivelmente mais saudável. E eu, apaixonada. Ele era maduro, seguro, inteligente, brilhante. Eu parecia uma garota (de quarenta anos) descobrindo o primeiro amor, incapaz de mostrar os meus sentimentos com medo de ser rejeitada. Havia ainda um outro problema: ele era casado e, ao que tudo indicava, bem casado&#8230; Foi num começo de fevereiro. Ele entrou em minha sala e eu percebi na hora, por ter-lhe olhos tão atentos, que algo o perturbava. Tivera febre naquela semana e passara dois dias de cama. Solicitei exames de sangue. Com os resultados em mãos, novamente eu o tinha diante de mim. Tirou o paletó esporte e quase que arriou na cadeira.</p>
<p>Constatei imunidade em baixa. Insisti para que ele me contasse o que o estava incomodando. Eduardo relutou muito antes de dizer-me, quase que entre lágrimas, que vinha atravessando uma fase difícil no seu relacionamento com a esposa. Ela não o apoiava em sua paixão pela música e passava a maior parte do tempo em viagens frívolas e desnecessárias. Ele estava se sentindo sozinho e rejeitado. Nem me vi levantar da cadeira. Quando me dei conta já estava de joelhos ao seu lado, enxugando suas lágrimas com minhas mãos. Segurei seu queixo e colei os meus lábios nos dele. A princípio ele ficou assustado, depois levantou-se de súbito e abraçou-me em desespero e deu-me um beijo longo. Ficou me abraçando fortemente enquanto eu passava os dedos em seus cabelos, me embriagando de sua colônia, ar sumindo de dentro de mim e a cabeça nas nuvens.. Meu Deus&#8230; que sensação era aquela? Desvencilhando-se devagar do meu abraço, pegou do espaldar seu paletó, e saiu do consultório sem olhar para trás.</p>
<p>Fiquei ali parada, os braços ao longo do corpo, inertes, coração me saindo pela blusa e o rosto afogueado&#8230;. Parecia anestesiada. Um misto de emoções me invadia mas eu não conseguia sair do lugar. Queria correr até ele e falar de tudo que represara por tanto tempo: que eu o amava, que o queria sempre perto, que queria casar com ele. Cancelei as consultas seguintes e fui para minha casa vazia.</p>
<p>Aguardei um telefonema, um sinal. Fiquei à espera da próxima consulta como criança aguardando o Papai Noel. Eduardo desmarcou-a na semana seguinte. Quando a atendente deu-me o recado, eu levei um choque. Precisava tanto revê-lo, precisava explicar. Depois fiquei apreensiva. Será que ele iniciaria um processo por assédio e arruinaria a minha carreira? Senti-me então uma idiota por ter este pensamento: Eduardo estava acima disso. Ele não voltou ao meu consultório.</p>
<p>Segui a sua carreira à distância. Comprava pelo menos três jornais por dia para não perder qualquer notícia que falasse dele. Exultava com cada sucesso, enfurecia-me com cada comentário desabonador. Acabei fazendo um álbum de recortes. Se via o anúncio de uma apresentação, corria a comprar ingresso para a última fileira do teatro, de onde eu podia vê-lo sem ser vista. Aplaudia-o de pé ao final do espetáculo, rendendo homenagem àquele homem que marcou a minha vida. Nunca me aproximei. Eu não me sentia no direito. Não sei se eu era uma covarde ou uma mulher de caráter.</p>
<p>Hoje pela manhã, como faço há quarenta anos, passei pela banca e comprei meus jornais. Sentei-me no banco da praça e calmamente comecei a folheá-los. Porque agora me sobra tempo, leio até os anúncios dos classificados. Quando cheguei à página dos necrológios, um quadro saltou-me aos olhos, as letras parecendo grudar na minha retina: “&#8230;os parentes e amigos do consagrado pianista Eduardo Mayo agradecem os gestos de pesar e convidam para a missa de 7º dia de falecimento a ser realizada hoje às dezenove horas, na Igreja Matriz&#8230;”</p>
<p>Como, meu Deus, eu não fiquei sabendo antes? Que falha a minha não ter prestado atenção nesta seção do jornal na semana passada! Meu coração se entristeceu e um pouco de mim morreu ali. Vesti-me com esmero e, no final da tarde dirigi-me à Igreja Matriz. Sentei-me no último banco. Ao invés de prestar atenção às palavras do padre que rezava a missa, detive-me na figura trêmula e chorosa de uma senhora de vestido escuro, na primeira fila, que era confortada por uma mulher de cabelos negros. Provavelmente seriam a viúva e a filha, médica como eu. Fiquei imaginando que, se tivesse tido mais coragem, fosse mais impetuosa, a velha vestida de preto ali, poderia ser eu.</p>
<p>Saí da igreja cabisbaixa mas não desesperada. Sei que com meus oitenta anos não demorarei muito a seguir o caminho dele.</p>
<p>A partir de amanhã não comprarei mais jornais. Não preciso mais&#8230;.</p>
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