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	<title>Amores - Contos de Amor &#187; paulo de resende</title>
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	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
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		<title>Vôo do Amor</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 01:01:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[paulo de resende]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Paulo de Resende</p>
<p>“Ele só precisava voar para ser feliz”</p>
<p>Abel morava num daqueles prédios construídos na zona norte do Rio de Janeiro durante os anos 50. O <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/voo-do-amor/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Paulo de Resende</em></p>
<p>“Ele só precisava voar para ser feliz”</p>
<p>Abel morava num daqueles prédios construídos na zona norte do Rio de Janeiro durante os anos 50. O apartamento era razoavelmente espaçoso, com uma pequena varanda que revelava a rua e as varandas do edifício logo em frente. Orgulhava-se de ter conquistado cada centímetro quadrado daquele imóvel com o suor do seu próprio rosto. De fato, ele começara a trabalhar aos 12 anos e, aos 29, comprou o seu castelo particular.</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Lovers in the red sky por Marc Chagall." src="http://www.gehspace.com/edicao%2043%20imagens/lovers%20in%20the%20red%20sky%20-%20Marc%20Chagall.jpg" alt="Lovers in the red sky por Marc Chagall." width="400" height="394" /><p class="wp-caption-text">Lovers in the red sky por Marc Chagall.</p></div>
<p>Trazia por companheiro o Tom, gato que salvara de um apedrejamento que lhe havia sido imposto por crianças de rua. Tamanha a gratidão do gato, que este nunca tentou sair do apartamento do seu dono. Ficava ali dia e noite, a cuidar da casa, enquanto Abel lhe assegurava o suficiente para ter algum conforto.</p>
<p>Viviam então os dois, numa cômoda rotina: Abel saía de casa por volta das 8, indo para a redação do jornal no qual era responsável por uma coluna diária. Voltava por volta das 22, a tempo de brincar com Tom e dormir. Além do gato, trazia ainda uma outra companheira, uma dorzinha que por vezes azucrinava o seu pensamento.</p>
<p>Acontece que Abel sempre era rejeitado por suas namoradas após algumas semanas de relacionamento, porque nenhuma delas aceitava se curvar à sua imutável rotina. Por conta disso, ele fizera 6 meses de terapia. Por fim, conformou-se com o fato de que estava vivendo uma fase de dedicação total à carreira profissional. “Amor” seria uma prioridade futura.</p>
<p>Exatamente na primeira quarta-feira de maio, Abel teve um sonho muito estranho. Viu-se voando, levado por fortes ventos que o haviam retirado do chão duro onde antes jazera deitado. E, no ar, encontrou uma linda ruiva, que voava em sua direção. A bela mulher abria os braços e dizia uma única palavra: “vem!”. E voavam, e se amavam intensamente.</p>
<p>Abel acordou com o barulho que Tom provocava ao revolver a areia da caixa sanitária que ficava na varanda. O relógio marcava 3h40min, naquela que era uma madrugada de ventania. Virou-se e voltou a dormir.</p>
<p>Na quarta-feira seguinte, o mesmo sonho. E Abel acordou novamente, às 3h40min, com o som da areia sendo revolvida. Pensou ser um déjà vu, fechou os olhos, dormiu. Pela manhã, Abel relembrou o sonho. Achou surreal demais para dar alguma importância e preferiu ocupar a cabeça com o trabalho.</p>
<p>Pela terceira semana consecutiva, o sonho se repetiu. E o barulho. E o horário. Abel olhou para Tom. Tom olhou para Abel. “Tem alguma coisa estranha acontecendo”, pensou Abel, enquanto tentava pegar no sono novamente. No dia seguinte, quase perdeu o prazo do fechamento da edição. Em sua mente, voava com aquela ruiva desconhecida.</p>
<p>E por mais três semanas, tudo se repetiu. As quintas-feiras passavam a ser conhecidas como “os dias fracos do Abel”, porque ele agora atrasava um pouco o trabalho. A situação estava ficando desesperadora, mas não havia nada a ser feito. Sua vida não comportava folgas às quintas-feiras, assim como não estava comportando seus “vôos noturnos”. Por isso, suportava a situação resignado, mas com crescente irritação.</p>
<p>Quando a cena já se repetia, agora pela sétima vez, Abel decidiu fazer diferente. Levantou-se, nu em pêlo, e foi até a varanda jogar mais areia na caixa sanitária de Tom. Depois disso, estranhamente tranqüilo, sentiu o impulso de olhar para a varanda do apartamento em frente ao seu.</p>
<p>Naquele exato momento, havia uma ruiva verdadeiramente linda, nua como ele, despejando água na tina de um cão que a aguardava na varanda do apartamento. Abel sentiu-se gelar, porque era a musa do seu sonho.</p>
<p>Quando se olharam, o mundo deixou de ser real, e o desejo invadiu seus corpos, deixando-os suados em meio à ventania. Por fim, ela sorriu, abriu seus braços gritou: “VEM!”.</p>
<p>E os dois se lançaram de suas varandas, tocando o chão sujo da rua com grande violência. Depois disso, desprenderam-se dos corpos que jaziam inertes, para voarem juntos naqueles ventos loucos, entrelaçando-se por toda a eternidade em seu vôo de amor.</p>
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