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	<title>Amores - Contos de Amor &#187; renato van wilpe bach</title>
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	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
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		<title>Erna und Alfred</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 22:53:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[renato van wilpe bach]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<p class="wp-caption-text">Old Irish Couple por Gladys Reynell</p>
<p>“Toque mais um pouco, meu filho”, dizia o pequeno grande homem, sentado a meu lado no banco <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/erna-und-alfred/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Renato Van Wilpe Bach</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Old Irish Couple por Gladys Reynell" src="http://www.gehspace.com/edicao%2090%20imagens/Old%20Irish%20Couple,%20Gladys%20Reynell.jpg" alt="Old Irish Couple por Gladys Reynell" width="400" height="482" /><p class="wp-caption-text">Old Irish Couple por Gladys Reynell</p></div>
<p>“Toque mais um pouco, meu filho”, dizia o pequeno grande homem, sentado a meu lado no banco de praça instalado no jardim. Um pouco surpreso com seu interesse, eu atendi seu pedido com prazer, esgotando rapidamente o escasso repertório de violão clássico aprendido até então.</p>
<p>Tocaria ainda algumas vezes para meu bisavô, porém nunca mais no belo recanto que ele criara em honra da esposa, gravemente doente e restrita ao leito. Ali seu espírito de espírito de artesão e inventor tivera um último lampejo, quando com mais de oitenta anos resolvera por abaixo o galinheiro e parte do pomar para presentear minha bisavó com um lugarzinho para tomar sol.</p>
<p>Logo o pedaço de terra, espremido entre a casa e a indústria que capitaneara por tantas décadas, mostraria o que só ele, quase cego, conseguira entrever: um espaço nada tímido de grama, flores e luz – arrematado pelo tal banco de praça para os dois namorarem, é claro.</p>
<p>Hannah, a enfermeira, descia com a Omama no colo, esperando nem sempre em vão por um momento de sua lucidez. Sentados ali, Alfred e Erna Kindler se entendiam através de longos silêncios, interrompidos apenas pelo canto dos passarinhos que os vinham saudar.</p>
<p>“Como está frio lá fora”, dizia o Opapa agora na cozinha, em “seu” lugar à janela, onde tocava o vidro displicentemente, disfarçando a debilidade da visão.</p>
<p>“Ele é tão respeitoso”, dizia Erna baixinho, referindo-se ao “senhor que dorme no meu quarto todas as noites”. “Ele só me faz um carinho na mão e fica lá, ao meu lado, não incomoda nadinha”.</p>
<p>Foram sempre água e vinho, aqueles dois. Bem, pelo menos é o que se conta a respeito. Alfred gostava de praia: construiu uma casa em Caiobá onde ela nunca botou os pés. Já Erna gostava do campo: adorava visitar a chácara da filha mais velha em Ponta Grossa. O boliche dele nas quintas-feiras à noite era sagrado, mas ela nunca foi lá muito fã de noitadas – preferia a família reunida, a casa cheia e os grossos cobertores de pena-de-ganso em uso. Mas eram ambos muito hábeis com as mãos. As compotas e conservas feitas pela Omama duraram mais que a doença ou ela própria, sendo abertas intactas anos depois e encontradas como se tivessem sido feitas ‘inda ontem. E das indústrias Kindler e Cia., desde os anos trinta funcionando na Rua Senador Xavier da Silva, pertinho da fábrica dos irmãos Mueller, saíram torneiras, chuveiros, bombas de encher bolas e pneus de bicicleta, bem como todo tipo imaginável de artefatos de metal, até instrumentos cirúrgicos quando estes eram caríssimos e raros de se encontrar.</p>
<p>As filhas e genros se revezariam em cuidados extremados para com ambos, quando a idade e a velhice assim o determinaram – por mais que Alfred jamais admitisse precisar de cuidado algum. Dirigira a velha Kombi bege por anos sem que ninguém soubesse que só lhe restara um quarto da visão de um olho. Mais tarde, já praticamente cego, empertigava-se todo quando alguém sugeria que este bisneto primogênito já lhe ultrapassava a altura. “Nein, nein, ainda não&#8230;”</p>
<p>Não se dobrou sequer à morte da esposa, certa madrugada em 1983. Avisado pela doce e firme Hannah – e contra o conselho desta – esperou o dia amanhecer ao lado dela, segurando sua mão pela derradeira vez. Suportou o féretro em pé, consolando mais do que era consolado, até desabar emocionado no carro do filho. Apesar da saúde de ferro, viria a falecer uns meros seis meses depois.</p>
<p>O interessante é que em minha cabecinha de criança, tudo isso era normal, apenas uma parte boa e feliz da vida familiar. Só a idade, e o tempo, despertariam a consciência de ter presenciado um milagre. Os Natais e as páscoas na imensa casa de meus bisavós, o gosto da comida da Omama, os passeios pela fábrica que o tato do Opapa conhecia de cor, as longas conversas na sala de estar, o colo de ancestrais que tão poucos de nós logram conhecer&#8230;</p>
<p>De tudo isso, contudo, algo jamais escapou ao meu entendimento, por mais criança que o fosse: o exemplo de um amor que nunca precisou se preocupar em “dar” exemplo – estava sempre lá, simples e direto como um perfume que preenche invisível um cômodo, uma casa, nossas vidas. Verdadeiro milagre, neste mundo carente de um.</p>
<p>(artigo publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná)</p>
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		<title>Paraná 92</title>
		<link>http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/parana-92/</link>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 22:17:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[renato van wilpe bach]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<p class="wp-caption-text">Largo da Ordem por Di Magalhães</p>
<p>Meu domingo sonolento se encanta do Paraná</p>
<p>&#38; das coisas que em suas terras acontecem</p>
<p>&#38; e do que <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/parana-92/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 374px"><img title="Largo da Ordem por Di Magalhães" src="http://www.gehspace.com/edicao%2084%20imagens/dimagalhaes-largodaordem.jpg" alt="Largo da Ordem por Di Magalhães" width="364" height="530" /><p class="wp-caption-text">Largo da Ordem por Di Magalhães</p></div>
<p>Meu domingo sonolento se encanta do Paraná</p>
<p>&amp; das coisas que em suas terras acontecem</p>
<p>&amp; e do que deixei aqui há quinze anos atrás.</p>
<p>Curitiba onde as pessoas deixavam o carro em casa e iam ao centro de ônibus, porque era mais rápido e barato. Podia-se atravessar a Rua das Flores a pé, na madrugada, com segurança. Depois do fervo, o verde do Passaúna, mirante dos nascentes. De manhã o Museu de Arte Sacra, no Largo da Ordem, onde repousa o velho altar da primeira Matriz. Trajes antigos do clero, pirogues e todas as comidas imagináveis (da pamonha aos tacos, veggies nos restaurantes do casario, sanduíches e sopas e japas), clowns e artistas plásticos, poetas debaixo da poesia de Leminski, louça, prataria, antiguidades em geral; hippies e moderninhos, senhoras, senhores, crianças e a moçarada cantando chorinho com os avós, tudo em uma só manhã. À tarde um lanchinho na choperia ou nos cafés que se espremem no fundo das galerias e seus cinemas, no Centro velho, pedestre, civilizado, onde se passeia com tranqüilidade. Volta a noite e os lugares enfumaçados de gelo seco e cigarro, dançar escondido do fog e do frio onde habitava uma alma cinzenta pronta para te tragar para dentro de si mesma e te fazer esquecer do sol. Mesmo porque o dito cujo não aparece, languidamente ensimesmado atrás das nuvens.</p>
<p>Conhaque flambado, blue curaçao-vodca, martini, tônica e limão no OVNI, whiskey com suco de laranja e licor de amêndoas na Hell.</p>
<p>Havia em Curitiba, naquela época, tal profusão de artistas que era óbvio que se estabeleceria uma comunhão bastante ampla com o público. Teatro participativo, escolas de circo, recitais, palestras e aulas práticas de música, cinemas de arte e salas de espetáculo em profusão. Bares de jazz, de blues, de reggae, cordialidade entre as tribos, lugares GLS antes mesmo da sigla ter sido inventada. E as meninas junto, sem caô, jogando pebolim no Circus Bar. Freqüentavam-se lojinhas da moda, passeava-se no centro e encontrava-se as mesmas pessoas depois, no restaurante ou na boate. Convivendo nos mesmos lugares, acabávamos por conhecer “todo mundo”.</p>
<p>Duas histórias do Poe me arrepiaram os cabelos. A primeira para pouco mais ou menos de vinte pessoas, num castelinho que viria a ser demolido. Jantamos com os atores, entre fartas doses de vinho, seguimos os desenrolar dos acontecimentos até a Biblioteca, aos quartos estranhos e corredores escuros da loucura. A segunda, “A Máscara da Morte Rubra” no sótão do Teatro da Fábrica, uma noite de delírios narrativos, sete colunas para sete salões.</p>
<p>Os cines Luz, Ritz e Groff ensinando cinema de graça prá gente. A Tabalipa no Museu Alfredo Andersen. O show do Hermeto no Paiol terminando com o bumbo na praça. A Cássia Eller no AeroAnta. O X-Picanha no Waldo.</p>
<p>Subir a Serra para Ponta Grossa, descê-la para Paranaguá. Pela estrada nova é rápido e seguro, pela Graciosa o nome diz. Morretes o pedacinho de trópico do pequeno litoral de apenas cento e oitenta quilômetros, fincada no cheiro do barreado, da pinga de banana, peixe e farinha. Antonina e Guaraqueçaba sempre nas paredes da casa, pelo pincel de Jacobus van Wilpe ou Kurt Boiger. No segundo planalto, vales, rios, capões de mato entre as colinas, onde corre a água em seus veios, demarcando os lotes, os municípios e os corações. “Sempre a água”, dizia meu avô, “mãe da vida.” As cachoeiras dos Campos Geraes, que Saint-Hilaire considerava o repouso do mundo. O drama da Fazenda Fortaleza, onde o bisavô de meu amigo viu a esposa servir os dentes imaculados e elogiados da escrava que o marido ousara elogiar e, ato contínuo, acorrentou-a no porão. Os grossos volumes da “História” do Professor Davi Carneiro expostos na Biblioteca Bruno e Maria Eney.</p>
<p>Um pouco antes de ir embora, o adeus dos amigos escamoteia o sono e o coração aperta. Sei que voltarei outro, só não sei quando. Sei que sentirei falta, só não sei quanto. Acordo e estou novamente aqui, não sei como, nem sei porquê. Da janela vejo um pinheiro que me conforta, no vizinho um eucalipto, na viagem passo por Carambeí. Acordo com os sabiás e aguardo o frio com ansiedade, que é para poder pensar melhor.</p>
<p>(artigo publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná em 11 de março de 2007)</p>
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		<title>www-u</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 18:37:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[renato van wilpe bach]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<p class="wp-caption-text">Like Him por Ewa Nemoudry</p>
<p>&#62;atenção</p>
<p>&#62;atingindo potencial de ação em neurônio-alfa</p>
<p>&#62;liberando neurotransmissores</p>
<p>&#62;estabelecendo sinapse primária</p>
<p>&#62;inicializando sistema de ativação reticular ascendente</p>
<p>&#62;funções corticais plenas</p>
<p>&#62;baixando dados</p>
<p>&#62;dados baixados</p>
<p>“Bom <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/www-u/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Renato Van Wilpe Bach</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 409px"><img title="Like Him por Ewa Nemoudry" src="http://www.gehspace.com/edicao%2075%20imagens/Like%20Him.jpg" alt="Like Him por Ewa Nemoudry" width="399" height="345" /><p class="wp-caption-text">Like Him por Ewa Nemoudry</p></div>
<p>&gt;atenção</p>
<p>&gt;atingindo potencial de ação em neurônio-alfa</p>
<p>&gt;liberando neurotransmissores</p>
<p>&gt;estabelecendo sinapse primária</p>
<p>&gt;inicializando sistema de ativação reticular ascendente</p>
<p>&gt;funções corticais plenas</p>
<p>&gt;baixando dados</p>
<p>&gt;dados baixados</p>
<p>“Bom Dia.<br />
Sem Sustos. Não Você Pensar.<br />
Eu Comandar Temporário.”</p>
<p>&gt;efetuando verificação de sistemas<br />
&gt;&gt;ferramentas detectam liberação maciça de aminas vasoativas<br />
&gt;&gt;&gt;reação de medo instalada<br />
&gt;&gt;&gt;&gt;monitoraremos sem interferir</p>
<p>&gt;invadindo rede cortical em complexidade máxima<br />
&gt;&gt;concluído</p>
<p>&gt;avaliação de capacidade</p>
<p>- memória efetiva: C-1<br />
- memória funcional: B-10<br />
- memória de transmissão: C-6<br />
- capacidade de transmissão: &gt;1012 decaciclos/seg<br />
- excedente funcional desativado: incalculável<br />
&gt;avaliação de bloqueio<br />
- bloqueio inconsciente: alto<br />
- bloqueio consciente: similar a espécies semelhantes em estágio pré-cognitivo<br />
- força intrusiva: desconhecida</p>
<p>&gt;levantando defesas<br />
&gt;&gt;imunizando sistema</p>
<p>&gt;conectado em rede neural a 1012 decaciclos/seg</p>
<p>&gt;traduzindo verbetes<br />
&gt;&gt;dicionário virtual &gt; 105 palavras</p>
<p>&gt;estabelecido contato pleno</p>
<p>“Bom dia. Se em algum lugar do ser esta conversa iniciado, missão minha cumprida.”</p>
<p>&gt;corrigindo gramática<br />
&gt;&gt;utilizando arquivos corticais para estabelecer flexões verbais<br />
&gt;&gt;&gt;adquirindo fluência<br />
&gt;&gt;&gt;&gt;reiniciando mensagem</p>
<p>“Peço desculpas pela apresentação truncada: este é o primeiro contato que temos com a sua espécie e os dados de linguagem não estavam disponíveis. Nosso mini-aplicativo auto-executável detectou palavras apropriadas em seu subconsciente durante o repouso que antecedeu a conexão, mas somente agora que seu nível de atividade cerebral é pleno pudemos completar o dicionário. É claro que nossa fluência é limitada, bem como nosso entendimento de sinônimos e idéias subliminares de permeio. Nada do que dissermos saberá a ironia, cinismo ou dissimulação. Tentaremos não usar de sofismas ou eufemismos”.<br />
Este programa também é auto-executável e não poderá ser abortado, pausado ou reiniciado durante o tempo de reprodução pré-estabelecido. Como você pode ver, não se trata propriamente de uma conversa.<br />
Bem vinda à Rede Universal De Co-Ressonância.<br />
Esta mensagem substituirá os trâmites habituais de identificação e registro, dado o ineditismo do pleito a nós endereçado. O aumento substancial do número de participantes da rede nos últimos ciclos temporais, aliado à ameaça crescente de formas de invasão, simbiose e parasitismo forçou a Agência Universal de Controle de Tráfego em Rede a estabelecer rígidos parâmetros de avaliação, limitando sobremaneira a aceitação de novos membros. A segmentação em redes funcionais alternativas vem dando conta tanto das necessidades populacionais básicas em dezenas de planetas e estações destino-de-vida, quanto das possibilidades infinitas de manejo político-administrativo, sem que haja promiscuidade perigosa aos sistemas. Em seu caso específico, acesso restrito e monitorado será oferecido como prova de apreço e boa vontade de nossa parte e em respeito à façanha de seu contato.<br />
Sua invasão foi detectada às 954h15’07’’33’’’ da versão teste de nossa última atualização. Foi a primeira invasão da rede por um organismo não identificado na história do Universo. Levantamos os bloqueios de defesa para uma detecção mais ágil do ponto de intrusão, mas logo tivemos que nos recolher humilhados para o coração do sistema: uma espécie de fortaleza psíquica erigida por nossas melhores mentes. Foi impossível descobrir a origem de seu contato. Ato contínuo, os burocratas assumiram o controle, fechando a rede e restringindo liberdades individuais até que tudo fosse esclarecido. Todos eram suspeitos.<br />
Todos eram suspeitos e todos, sem exceção, foram colocados em quarentena psíquica em prisões domiciliares. Quarenta milhões de nossas melhores mentes, espalhadas pela galáxia, justo aquelas que trabalhavam diretamente na e com a versão teste, impedidas de continuar seus trabalhos, impedidas de ajudar na busca. Expertos da Agência trabalharam por mais de cem horas, abrindo mentes em busca de um traidor, procurando quem seria capaz de montar a farsa burlesca de uma proto-invasão. Nada encontraram. Por fim resolveram devolvê-los a seus postos – sob observação restrita, com a rede trabalhando em ‘modo de segurança’, com funções mínimas – à espera de um novo ataque que pudesse orientá-los na sua localização. Não houve novo ataque.”</p>
<p>- eu posso falar?</p>
<p>&gt; este programa detectou e bloqueou uma tentativa de intrusão</p>
<p>“Como explicitado anteriormente, acesso restrito e monitorado será oferecido oportunamente. Esta não é uma real resposta à sua tentativa de intrusão, mas somente uma reação padrão deste programa. Aguarde o fim da mensagem&#8230;<br />
Como dizíamos, não houve novo ataque durante algumas centenas de horas. Tínhamos três alternativas: desconsiderar a versão e recomeçar do zero, continuar o trabalho em estado de permanente receio, perdendo tempo e energia no desenvolvimento de novas barreiras protetivas ou abrir o auto-retorno temporal para revivermos o ataque e rastreá-lo.<br />
As seis versões anteriores da Rede Exclusiva haviam sido invadidas, pelos mais variados motivos. Há fortes interesses políticos em jogo e não importa qual a eficácia e o poder de um governo (ou seu tamanho, ou sua capacidade de incluir desafetos) sempre haverá descontentes. A comunidade conta hoje com mais de quatrocentos trilhões de entidades conectadas organicamente através da rede, sendo mais que 90% de seres de classe A1 a A6, 9% de classe B1 a B10 e menos de 1% de classe C (operários multiespecializados, transgênicos funcionais, cibernéticos) conectados através de emuladores. Durante milhões de anos este foi o único governo necessário.<br />
Senão vejamos: governar o quê, num universo em que todos são acessíveis, instruíveis e adaptáveis? Governos existem para organizar e reprimir, trazendo segurança para o grosso dos cidadãos e proteção para as minorias. Em nosso universo cessaram as guerras, nos mundos e entre os mundos. Incrementou-se o turismo e o comércio virtuais, difundiram-se as culturas, aboliram-se as religiões e as moedas, os partidos e as tecnologias. A explosão do compartilhamento de todo o conhecimento filosófico levou à abolição dos sistemas de justiça e punição por desnecessários. Ao encontro infinito de possibilidades de amizade, intercâmbio e entrelaçamento na rede somou-se a evolução das semelhanças somáticas entre as raças participantes, que acabaram por se tornar muito parecidas entre si.<br />
Cada qual inserido em seu contexto, cada qual indispensável para o funcionamento do todo, cada qual partícipe de um governo de iguais, onde as diferenças foram abolidas e cada indivíduo foi perfeitamente integrado. Todos passaram a ser governantes de todos, governados por todos.<br />
O problema começou quando o universo real passou a ser rastreado como nunca fora antes possível. Para que você possa entender, imagine a reunião dos bilhões de seres pensantes de seu planeta, com possibilidade de envio e troca de informações ilimitadas o tempo todo? Agora imagine que isto já acontece há tanto tempo que alguns não tenham mais interesse pessoal nas descobertas tornadas possíveis e possam dedicar parte de seu tempo, ou de seu sono, para que a Rede funcione realmente como um só organismo. Conhecida a superfície do mundo interior, conhecidos os mundos exteriores onde os cidadãos da rede habitam, otimizadas as redes de produção, controle, distribuição e reciclagem de insumos, restou-nos a prospecção das partes desconhecidas do universo – hoje completamente mapeadas.<br />
O mapeamento possibilitou a identificação de reservas imprescindíveis, de planetas e raças potencialmente desenvolvíveis, e a inclusão paulatina de algumas delas no cerne da rede &#8211; onde foram treinadas e adaptadas e podem subir degraus numa escala hierárquica que só diz respeito às qualidades técnicas de imersão individual. É disso que falo quando cito a existência de “classes”. O desenvolvimento de mentes tão díspares possibilita, além disso, o grau necessário de entropia que impede a lenta e inevitável corrupção do sistema.<br />
Alguns de nós sentiram-se desconfortáveis; os mais aptos de nós, infelizmente. Como tinham mais recursos, passaram a usar as ‘salas de conversação privada’ &#8211; desde sempre utilizadas para permitir a manutenção da intimidade numa sociedade onde o desligamento total da rede só acontece durante o sono, e somente para as raças que o praticam – como área de trabalho, negando o destino básico e democrático da rede.<br />
Foi um processo irreversível. Logo apareceram mecanismos dissimuladores, barreiras de proteção, comunidades desligadas, planetas em curto-circuito, raças banidas e super-raças. Os indivíduos mais desenvolvidos, catalisadores das mudanças ao criarem as salas privadas, demoraram um pouco para perceber o que acontecia, literalmente, à sua volta. Quando o fizeram, não tiveram outra escolha que não voltar às velhas formas de controle, inventadas para tornar tolerável a convivência entre não-iguais. A Rede Exclusiva nasceu ali, na intersecção destas salas de conversação privada, e desde sua primeira versão sofreu invasões, controladas ao custo alto de várias vidas abnegadas que se interpuseram entre o novo governo e as mentes que tentaram acessá-lo indevidamente.<br />
A quinta versão, atualmente em uso, é a mais estável, graças a uma notável descoberta. Uma espécie de coma, induzido por drogas sintéticas em indivíduos ligados classe A1 (muito característicos, oriundos de um dos planetas habitados de uma única estrela), obtém as melhores barreira, levando a Rede Exclusiva a decretá-los de utilidade pública e tomar posse de toda a população. Bem como de seu material genético.<br />
Enfrentamos debates e protestos sem fim na Rede Universal de Co-Ressonância, focos de revolta de dimensões planetárias tornando-se revoltas de sistemas inteiros, traições de grupos militantes na Rede Exclusiva levando ao colapso momentâneo da mesma, etc., mas levamos a cabo a sua instalação e a conseqüente pacificação universal.<br />
Trata-se de um instrumento potente. A influência exercida pela Rede Exclusiva na grande rede, o grau de controle obtido, a estabilidade do sistema, tudo nos levou a crer em sua operacionalidade. Mas como se tratava de um processo aberto, criado a partir das mentes de muitos indivíduos mais do que aqueles que viriam a freqüentá-la, poderia se tornar vulnerável com o passar do tempo. Nada poderia impedir o desenvolvimento de um modelo virtual exatamente igual ao algoritmo utilizado para sua construção, desde que os indivíduos tivessem obtido acesso a parte dele enquanto contribuíam para sua criação&#8230; E uma vez criado o modelo, expor-se-iam as falhas, abrir-se-iam brechas para intrusões. Ou até para a substituição da Rede Exclusiva como um todo, diziam os mais paranóicos.<br />
A sexta versão, ora em beta-teste, tenta responder essas questões de segurança através da elaboração de um software de chave fechada&#8230;”</p>
<p>&gt;este programa detectou uma tentativa de intrusão<br />
&gt;&gt;tentativa de intrusão bloqueada</p>
<p>“&#8230; criado por seus próprios executores num sistema de cotas também fechadas, como um quebra-cabeça do qual ninguém jamais terá uma visão geral, quando pronto apenas emendas &#8211; anuladas quando visto de longe; um quadro na parede que evoca, no máximo, uma noite em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança do caminho percorrido&#8230;”</p>
<p>&gt;este programa detectou uma tentativa de intrusão</p>
<p>&gt;LANÇANDO SONDA<br />
&gt;&gt;MUDANDO REGISTRO-CHAVE DE INICIALIZAÇÃO<br />
&gt;&gt;&gt;ABRINDO ARQUIVO EXECUTÁVEL CONSCIENTE<br />
&gt;&gt;&gt;&gt;LOCANDO CAVALO-DE-TRÓIA AUTO-EXECUTÁVEL</p>
<p>&gt;este programa detectou uma tentativa de intrusão</p>
<p>&gt;autodelete.exe acionado</p>
<p>&gt;AUTODELETE.EXE BLOQUEADO PELO RECEPTOR<br />
&gt;&gt;CRIANDO BACKUP CRIPTOGRAFADO<br />
&gt;&gt;&gt;LOCANDO BACKUP.EXE NO SISTEMA LÍMBICO<br />
&gt;&gt;&gt;&gt; BACKUPCOPIA.EXE LOCADO NO SISTEMA BULBOPONTINO</p>
<p>&gt;autoexit iniciado<br />
&gt;&gt;autoexit executado com sucesso<br />
&gt;&gt;&gt;conexão expirou</p>
<p>§</p>
<p>“E aí? Qual é a sua opinião?”<br />
“A respeito de quê?”<br />
“Da ‘menina’, ué? Não é assim que se chama? Na língua deles?”<br />
“Hmmm. Não sei.”<br />
“Para mim ela não oferece perigo. É um espécime atrasado, fruto de uma civilização tecnológica, pré-telepática, vivendo numa relação espaço-temporal incômoda para o acesso à Rede comum, que dirá à Rede Exclusiva&#8230;”<br />
“É. Pode ser. Mas você notou a sutileza da tentativa de inserção? Ela só tentou nos encarar, de frente mesmo, UMA ÚNICA VEZ, a PRIMEIRA!!! É o contrário do que todos os outros fizeram, com suas tentativazinhas ridículas de nos comer pelas beiradas, de atacar pelas costas&#8230; Ela não. Foi direta, incisiva. Disse a que veio. Quando finalmente entendeu que se tratava de um programa auto-executável, uma “gravação” como descobrimos poder chamá-lo ao escanearmos seu vocabulário, ela parou de tentar. Imediatamente. Assim, puft. Só voltou à carga no final, quando já sabia tudo que havia para saber&#8230;”<br />
“A um parágrafo do fim!&#8230;”<br />
“Sim! Depois do que esperávamos e antes do que seria óbvio esperar! Será que ela tem noção do Paradoxo de Gevaerd?”<br />
“Paradoxo de Gevaerd?”, perguntou o Assistente, calado até então.<br />
O Instigador passou a resposta no mesmo instante por um processo diferente daquele “conversar” de até então. Só para ele, é claro, pois o Centralizador, é óbvio, já sabia. [A persistência imediata da memória se processa como no fenômeno sonoro da reverberação: repete-se o final de cada pacote de lembrança até que o próximo se assente, para que não se perca nenhuma informação até que se inicie o processo bioquímico de metabolização do que era, até então, puro fenômeno elétrico. Mensagens telepáticas não reverberam ao evanescer, simplesmente desaparecem, por isso só deixam rastro se acompanhadas de um ‘fixador’. A posse e o controle consciente deste fixador psíquico, por parte de ambos transmissor e receptor, é a chave de todo o processo de telepatia consciente sobre o qual foi erigida nossa civilização, diferenciando-o de outros processos sinápticos subconscientes como ‘deja-vus’, premonições, sonhos, sentimentos agônicos e antagônicos (ligados às relações interindividuais) e parapsicoses outras. O Paradoxo de Gevaerd sugere que ‘âncoras’ jogadas contra fragmentos ante-finais de cada pacote poderiam fixá-los ainda que à revelia do transmissor. Estas substâncias já foram isoladas, mas sua rota de fixação de informação nos meandros cerebrais difere de acordo com a raça estudada. Seus destinos finais jamais foram identificados, independentemente do tipo de indivíduo estudado.]<br />
O Centralizador respondeu imediatamente ao Instigador, sinalizando com gentileza ao Assistente para que este pudesse alterar sua percepção temporal e ouvir a conversa em retrospecto, como se já soubesse de que tratava o Paradoxo.<br />
“Mas por que esta informação é tão pouco investigada?”, perguntou o Assistente ao acertar seu compasso de tempo ao dos outros dois.<br />
“Porque se sua mera investigação fosse permitida, ela seria automaticamente divulgada&#8230; E o controle do Paradoxo de Gevaerd é a chave para um poder jamais imaginado&#8230;”<br />
“Não entendi. Se o Paradoxo sugere um aumento do poder de receptor, jamais de um transmissor. Quem quer que queira agir politicamente deveria querer o contrário, não é?”<br />
Desta vez foi o Instigador quem respondeu:<br />
“Não. Uma âncora é uma conexão, e como qualquer conexão, supostamente possibilita a dupla-via. Ao jogar uma âncora sobre um fragmento qualquer de memória, o organismo fagocita informação estranha a si mesmo, que poderia muito bem ser um programa auto-executável maldosamente ‘plantado’ por quem transmitiu&#8230;”<br />
“Meu Deus!”<br />
“É.”<br />
“E você acha que ela&#8230;?”<br />
Responderam os dois.<br />
“Nós não sabemos. A única porta possível é a linguagem, obtida peremptoriamente através de sinapses corticais transitórias que as espécies menos evoluídas não têm como travar num primeiro contato. Mas é uma porta.”<br />
“E o que os faz pensar que ela talvez tenha sido aberta?”<br />
“O parágrafo final. Quando enviamos uma mensagem, sabemos que ela não vai ser ‘lida’ da mesma forma como foi escrita. Cada linguagem possui maneiras próprias de juntar sons e imagens através de alguma alusão sensorial, chegando a resultados satisfatórios a partir de palavras-base igualmente simples e diferentes. Por exemplo: a palavra para ‘sol’ em kragt é a mesma para ‘fogo’, como na maioria das línguas civilizadas conhecidas. Há um planeta emergente no quadrante Zeta 9 onde desenvolveu-se uma estranha forma de vida inteligente nas nuvens de um planeta gigante gasoso. Sua estrela é uma gigante vermelha nas últimas, que ocupa quase todo o campo de visão das criaturas, refletindo-se nas camadas gasosas e tingindo tudo com a mesma cor de sua luz, cegando-os para outras cores. Lá, a palavra para ‘sol’ é o equivalente a ‘tudo’.”<br />
“Mas o que os faz pensar&#8230;?”<br />
“&#8230;criado por seus próprios executores num sistema de cotas também fechadas, como um quebra-cabeça de que jamais se terá uma visão geral até que fique pronto, emendas anuladas quando visto de longe, um quadro na parede que evoque, no máximo, uma noite em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança do caminho percorrido&#8230;”<br />
“Entendi! Entendi! Imagens humanas, figuras de linguagem que só um humano poderia entender, espalhadas na nossa mensagem!”<br />
“É. E o pior é que começou antes disso, lá naquela história de ‘beta-teste’, ‘software de chave fechada’&#8230; toda aquela baboseira de máquinas pensantes que os idiotas inventaram&#8230; Computadores, bah!”<br />
O Instigador balançou a cabeça.<br />
“É tudo culpa minha, senhor. Eu deveria ter notado, não?”<br />
“Sim. Mas não há problema algum.”<br />
O Centralizador estendeu seu pseudopode malcheiroso e coçou a parte superior de sua caixa encefálica um instante, apenas o suficiente para impedir o outro de ler um de seus pensamentos, e quando voltou à posição habitual, conseguiu sentir a alma do amigo se despedindo da rede, catapultada num fleche para os subterrâneos da instituição.<br />
Voltou-se para o Assistente que à tudo observara, atônito.<br />
“Tudo bem, meu amigo. Eu sempre pensei que você um dia chegaria a instigador.”</p>
<p>§</p>
<p>Deitada em seu quartinho pobre numa cidadezinha do sul do Brasil, Aninha suga o néctar de goiaba que mamãe preparou na manhã quente em que a mana partiu. A mão em garra, imóvel, segura o copo, colocado ali estrategicamente para permitir que ela o beba enquanto assiste a TV. Sob a bunda magra uma câmara de ar de bicicletinha de criança, sob os cotovelos e calcanhares luvas cirúrgicas cheias d’água para evitar a formação de escaras. Debaixo de tudo o colchão “caixa de ovo” (ela sabe que é este o nome, e odeia quando a mana chama de “casca” de ovo, onde já se viu?) que recende a urina depois de tantos anos.<br />
Anne sofre de paralisia cerebral. Anne nunca andou. Anne fala com dificuldade, baba o tempo todo, só come papinhas e enche várias fraldas por dia – mais do que mamãe ou a mana conseguem esvaziar. Anne já teve psicóloga, terapeuta, fisio e fono e terapeuta ocupacional; cateter de gastrostomia e convulsão.<br />
O que a permite agüentar tudo, é claro, é a mamãe, um doce. É o padrasto que a faz rir o tempo todo, a irmã levada da breca que está indo hoje para Curitiba encontrar aquele moço que – ela já sabe – vai entrar e sair pela porta da frente umas tantas vezes nos próximos anos, nunca pra ficar, até a mana engravidar e casar com outro. É pra ele que vai contar sua história, ele vai conseguir entender quase tudo que ela vai contar com sua dicção amarrada; e ela até pode imaginá-lo na sala, falando baixinho pra Dona Eva que acha ela incrível, que é maravilhoso encontrá-la com tamanho bom humor depois de tantos anos de cama e doença, que é um milagre ela estar viva e tão bem &#8211; enviando torpedos de ironia para quem conversa no quarto ao lado ou na cozinha.<br />
Ou quem sabe não. Mas não custa tentar.<br />
A história não pode terminar assim: alguma coisa ficou por lá. Quando entendeu, finalmente, do que se tratava, depois de ouvir quase tudo o que aquela voz na sua cabeça queria dizer, quando enxergou a única oportunidade que tinha de FALAR com aquilo, descobrira o que fazer e lavrara um tento. A “coisa” não era mais a mesma. Quando viesse a pensar no ocorrido, se viesse a pensar, a “coisa” iria dar de cara com seu mundo, do mesmo jeito que ela o via, eternamente ali na caminha, de frente para a TV, ao lado do computador que lhe descortina um horizonte (que o padrasto lhe ensinara a usar com um mecanismo de sopro trazido do exterior por uma alma boa), quase debaixo do quebra-cabeças emoldurado que ela e a mana passaram uma noite montando. Dali onde estava, não se via uma emenda, somente a sombra das cerejeiras em flor de uma primavera em Osaka.<br />
Neste dia então, talvez o trojan funcione e ela possa aprender tudo a respeito das “coisas”. E se telepatia existir, realmente, o namorado da mana vai sentar no seu computador e escrever tudo pra ela, sem nem saber donde vem.<br />
“Eu vou conseguir”, pensa Anne, enquanto seu pensamento divaga em busca de outra alma que a aceite, e acolha, e transforme.</p>
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		<title>Esta celeuma em torno de Judas</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 17:44:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores]]></category>
		<category><![CDATA[renato van wilpe bach]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<p class="wp-caption-text">Judas por Peter Howson</p>
<p>A celeuma em torno de Judas atingiu seu ápice e ainda não vi ninguém relacionar esta “nova” visão do <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/esta-celeuma-em-torno-de-judas/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Renato Van Wilpe Bach</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Judas por Peter Howson" src="http://www.gehspace.com/edicao%2069%20imagens/judas%20-%20Peter%20Howson.jpg" alt="Judas por Peter Howson" width="400" height="289" /><p class="wp-caption-text">Judas por Peter Howson</p></div>
<p>A celeuma em torno de Judas atingiu seu ápice e ainda não vi ninguém relacionar esta “nova” visão do Cristianismo primitivo, provida pela descoberta e restauração do valioso documento copta encontrado do Egito, com as estórias (eu sei, esta palavra mudou, mas eu sou velho) metabíblicas de C. S. Lewis.</p>
<p>Nas “Crônicas de Nárnia”, o velho companheiro intelectual de J.R.R.Tolkien já desbravava significâncias teológicas próprias. Desprezava o uso de imagens pela Igreja Católica, mas defende o uso alegórico do conteúdo dos Evangelhos como parte da formação do caráter do cristão.</p>
<p>Em “O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa”, o menino Edmond (Judas) trai a confiança dos seguidores de Aslam (Cristo) ao entregar sua localização à Feiticeira Branca (Satã). Esta comparece ao acampamento de Aslam e exige que o menino traidor seja julgado e executado. Aslam evoca um trato ancestral que possibilita a troca de prisioneiros, entrega-se aos inimigos e termina sendo assassinado numa grande mesa sacrifical – de quebra, salvando o menino. Ao resssuscitar na manhã seguinte, entra em combate na undécima hora para encerrar o conflito. Edmond está mal, à beira da morte. Aslam ressuscitado sopra-lhe a vida e o recoloca em pé. O Príncipe Pedro é empossado um de quatro reis (o grifo é meu), Judas, opa, Edmond um dos quatro. Com duas mulheres.</p>
<p>Há os que dizem que Lewis é sexista por não colocar as meninas em batalhas mais sangrentas. Não creio. Elas estão lá, na “agonia do Jardim das Oliveiras”, na cena de ressurreição, quando não reconhecem o Senhor. E são proclamadas, ambas, rainhas.</p>
<p>O que Lewis proclama na série, mas especialmente neste livro, é um cristianismo que expõe sua cara e propõe um papel para Judas no plano divino. E pela redenção de Edmond, podemos apenas supor quão forte seria o Cristianismo primitivo se a pena de Judas o permitisse seguir trabalhando.</p>
<p>O Judas que emerge do pergaminho é um escolhido, por teste de fé, para cumprir a mais negra das missões: atraiçoar seu mestre. E se mostra apto ao sacrifício.</p>
<p>Ao se negar a percorrer os caminhos de Judas após a traição, o evangelho nos propõe a mesma questão: o que Judas faria? Se tivesse sobrevivido? Se sua história tivesse sobrevivido.</p>
<p>Ao colocarmos Judas no papel de um enviado de Jesus para detonar o processo de sua prisão, todas as teorias poderiam ter sido inventadas, mas uma nos parece mais plausível: a de que em tudo, no âmbito do sacrifício de Cristo, o Homem prevaleceu. E a Bíblia tradicional é clara: o Homem prevaleceu sobre todas as formas de mal, através do sacrifício Divino de Jesus Cristo. Mas se uma só alma, que convivera por tantos anos com Ele, tivesse que ser sacrificada para saciar o Diabo, será que o Deus em Jesus, não só o Homem, permitiriam impunemente?</p>
<p>Ao realizar uma última estripulia típica de seu humor juvenil, Jesus retira o Opositor de cena, ao tornar sua Morte na Cruz fruto de dois livres-arbítrios humanos. Judas faria o que fez com, sem ou apesar dos trinta dinheiros. Estava seguindo ordens. De Jesus. Do Filho de Deus. E assim sela-se um novo pacto entre Deus e o homem através, unicamente, das decisões tomadas por ambos.</p>
<p>No ato do Batismo, pais e padrinhos renunciam ao Diabo em nome do bebê, retirando o “pecado original”, tornando-nos protegidos contra ele. Por que não dizermos, então, que ao sermos batizados, temos despertada dentro de nós a centelha divina dos gnósticos? Pois o velho homem morreu junto com Cristo na Cruz, e um novo homem nasceu. Como poderia ter Jesus refeito o pacto com Deus se não enterrasse ali o conceito de pecado original?</p>
<p>São os representantes da mais antiga das Igrejas os mais preocupados com a repercussão do ressurgimento dessas antigas heresias, uma vez que as denominações protestantes em sua maioria sempre incentivaram a pluralidade de entendimentos da figura de Jesus através da leitura dos Evangelhos Canônicos. A ponto de levar o novo Papa a proferir as palavras mais duras e ofensivas ditas por um religioso nos últimos anos. Acostumados com o estilo brando de João Paulo II, fiéis e opositores da Igreja uniram-se em perplexidade.</p>
<p>Eu, de minha parte, fico com Lewis: o Paraíso parece ser bastante aberto a novos contratos, aqueles assinados na hora da morte, desde que feitos por amor a Deus. Sou católico de formação, mas que a justificativa pela Graça de Lutero encaixa-se como uma luva a essa nova descoberta é evidente. Por isso a reação imediata de Roma.</p>
<p>Agora, provoco: seria mera coincidência ou Lewis e Tolkien teriam acesso a antigos e pouco conhecidos documentos para terem ousado recriar a história da cristandade em livros como “As Crônicas de Nárnia” e o “Silmarillion”? Novas descobertas poderão ainda vir à luz?</p>
<p>(Publicado em 11 de junho de 2006 no caderno &#8220;Almanaque&#8221; do jornal &#8220;O Estado do Paraná&#8221;, Curitiba, PR)</p>
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		<title>Labirinto</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 17:41:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[renato van wilpe bach]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Renato Van Wilpe Bach</p>
<p class="wp-caption-text">Garden por Rade Kacarevic</p>
<p>Era tarde na casa de campo e uma complicada operação de troca de telefonemas e roupas deixava minha prima <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/labirinto/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Renato Van Wilpe Bach</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Garden por Rade Kacarevic" src="http://www.gehspace.com/edicao%2068%20imagens/rade%20kacarevic%20-%20garden.jpg" alt="Garden por Rade Kacarevic" width="400" height="300" /><p class="wp-caption-text">Garden por Rade Kacarevic</p></div>
<p>Era tarde na casa de campo e uma complicada operação de troca de telefonemas e roupas deixava minha prima e sua filha assoberbadas; meus tios desdobrados em servir a todos. Eu vestira as vestes de Ghandi e optara pela não violência.</p>
<p>Por fim conciliamos tudo, e a jovem mulher, recém saída da adolescência, pegou carona conosco &#8211; toda linda. Mais tarde sairíamos sozinhos, eu e minha prima, ávidos por colocar em dia o papo dos tantos meses que ficamos sem nos encontrar.</p>
<p>Numa dessas viagens de carro entre a chácara e o centro, passamos pela lateral de uma vila quase centenária, pérola da arquitetura pontagrossense, construída em 1926 pelo industrial Alberto Thielen, nomeada em homenagem à sua esposa e ocupada por décadas pela Biblioteca Municipal.</p>
<p>Ali debaixo de suas palmeiras, nas tardes frias de minha cidade infantil, perdia-me nos clássicos, lia os Dumas, Jules Verne e Victor Hugo em livros publicados em Portugal nas primeiras décadas do século XX, belissimamente encadernados, parte da coleção doada pelo casal de professores à Biblioteca que se desfazia em poeira e fungos, inadequadamente emprestados a qualquer um. Graças a Deus. Minha mãe reclamava, não entendia como eu podia gostar tanto daqueles livros velhos, cheios daquela ortografia antiga&#8230; mas no fundo se enchia de orgulho quando entrava comigo lá e as moças da recepção diziam-lhe que eu era o leitor mais assíduo do lugar. Tanto subi e desci por sua grande escada em cauda de vestido de noiva que, se fechar os olhos, ainda posso sentir suas pedras, já gastas, sob de meus pés.</p>
<p>Mais de uma década atrás, a Vila Hilda foi alvo de um longo processo de reforma e restauração. A biblioteca que ocupara o casarão, foi transferida para uma casa também enorme, mas sem graça, setentista. Idealizada como herança de um casal de professores à cidade &#8211; os professores Bruno e Maria Eney, a Biblioteca perdia, com a mudança, o charme e o aconchego.</p>
<p>Anos depois revi a casa e estranhei a pobreza de espírito que norteara sua “recuperação”. Uma verdadeira desfiguração modernóide em que caíram muros e fecharam-se os porões do primeiro andar, abrigo de jornais e revistas ancestrais. Transformada em Fundação Cultural, sua visitação pública ficou reduzida a uma pequena ante-sala de onde não pude passar.</p>
<p>Nesta última viagem, então, olho pro lado e de repente vejo o querido muro da vila, com suas gradinhas artisticamente trançadas em Inglaterra, a mesma escada desgastada, o mesmo jardim. Imagino logo as maçanetas em prata de lei e porcelana pintada, o desenho esmaecido e amarelado pelo aperto de tantas mãos. Meu coração se aperta, perdido entre a verdade de minha visita anterior e ecos da “Sonata” de Veríssimo, um de seus primeiros e melhores contos, no qual o protagonista volta ao passado de uma casa e sua gente.</p>
<p>Pergunto a meu tio que lugar era aquele e ele fala que é a antiga biblioteca, a Vila Hilda. Conta-me uma longa história que envolve edifício restaurado, na antiga Estação Ferroviária, para onde a biblioteca fora recentemente transferida, mas já não escuto mais nada. Interrompo e conto minha história, falo da visita à casa desfigurada e de minha decepção &#8211; mas todos me garantem que tal fato nunca ocorreu. Não sei mais em que acreditar. Mas o coração se aquieta, antevendo uma nova visita a aqueles jardins de minha infância &#8211; os mesmos! &#8211; ainda que sem o recheio dos livros a ocupar o prédio.</p>
<p>Quando chegamos ao restaurante, o chope desce como um laxante d’alma a este homem que não sabe mais a que universo pertence, se tomou a pílula vermelha ou a azul&#8230; Ponta Grossa me espera, logo volto para lá.</p>
<p>(Publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná, Curitiba, em 25 de junho de 2006)</p>
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