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	<title>Amores - Contos de Amor &#187; zander catta preta</title>
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	<description>Coletânea de contos de amor de autores diversos</description>
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		<title>Noite e dia</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 15:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria</p>
<p>por Zander Catta Preta</p>
<p>Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/10/noite-e-dia/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="wp-caption alignnone" style="width: 388px"><img title="Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria" src="http://www.gehspace.com/edicao%2052%20imagens/Grey%20Male%20Nude%20-%20Kliot,%20Rina%20Maria.jpg" alt="Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria" width="378" height="458" /><p class="wp-caption-text">Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria</p></div>
<p><em>por Zander Catta Preta</em></p>
<p>Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.</p>
<p>&#8220;Posso fumar?&#8221; Pediu permissão apenas na terceira tragada. &#8220;Pode sim. Não me incomoda o cigarro.&#8221; &#8220;Você fuma?&#8221; &#8220;Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade.&#8221;</p>
<p>Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.</p>
<p>&#8220;Caramba!&#8221; &#8220;Que foi, lindão?&#8221; &#8220;Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!&#8221; &#8220;Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?&#8221; &#8220;&#8230;&#8221; &#8220;Você sabe que não faz diferença para mim.&#8221;</p>
<p>Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.</p>
<p>&#8220;O que acontece, amor? Você está avoado&#8230; parece que está pensando na vida, na morte da bezerra.&#8221; &#8220;E tô mesmo.&#8221; &#8220;Mas qual o porquê disso?&#8221; Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. &#8220;Vou tomar uma ducha. Quer vir?&#8221;</p>
<p>Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês &#8211; e não o contrário &#8211; e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.</p>
<p>Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.</p>
<p>Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.</p>
<p>Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.</p>
<p>Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.</p>
<p>Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.</p>
<p>&#8220;Benhê. Posso te chupar?&#8221;</p>
<p>Ele abriu um sorriso.</p>
<p>A humanidade tinha esperança, afinal de contas.</p>
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		<title>Telefones e e-mail</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 00:57:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Zander Catta Preta</p>
<p>Os chopes não vinham na velocidade habitual. Parecia que os garçons conspiravam contra os dois. Já fora difícil arrumar um lugar bom para sentarem-se <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/telefones-e-e-mail/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span class="texto"><em>por Zander Catta Preta</em></span></p>
<p>Os chopes não vinham na velocidade habitual. Parecia que os garçons conspiravam contra os dois. Já fora difícil arrumar um lugar bom para sentarem-se e curtir a chuva fina que caia no fim da tarde. Sem as mesas ilegais da calçada, os bares da orla lotam com uma velocidade mercurial. Ali, do lado do banheiro feminino, podiam ao menos avaliar a formação estrutural das moças de vida difícil que transitavam na área buscando refúgio da água que destruía os cabelos armados e alisados com esforço e aproveitavam para sondar um eventual cliente distraído que poderia ter saído de um dos hotéis próximos.</p>
<p>Poeta foi o primeiro a se manifestar.</p>
<p>“Sabe cara, tá difícil voltar a escrever. Eu não consigo mais me inspirar para porra nenhuma. Acho que perdi o dom da coisa.”</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 338px"><img title="Tes pas dans mes pas huile sur toile Maria Amaral - Óleo sobre tela" src="http://www.gehspace.com/edicao%2041%20imagens/Tes%20pas%20dans%20mes%20pas%20%20%20%20huile%20sur%20toile_maria%20amaral.jpg" alt="Tes pas dans mes pas huile sur toile Maria Amaral - Óleo sobre tela" width="328" height="450" /><p class="wp-caption-text">Tes pas dans mes pas huile sur toile Maria Amaral - Óleo sobre tela</p></div>
<p>“É que você fazia o gênero de &#8216;poeta tuberculoso&#8217;, cara. Agora tá feliz e não encontra o caminho antigo das palavras.” “Pode ser isso. Ou então é que as musas, os temas, me fogem. Eu perco as noites e não acho em mim vontade de mais nada.” “Porra, que merda.” “Nem é. Não me lembro de ter estado tão feliz antes. Eu me remexo na cama, coloco uma música no sonzinho da cabeceira e não encontro a angústia que me fazia escrever.”</p>
<p>Veio o chope de um e a caipirinha do outro. Romancista comentou seguindo o serviço.</p>
<p>“Eu também tô com &#8216;bloqueio de escritor&#8217;. Ouço as vozes que me contam os contos, que me os sussurram na calada, mas não consigo mais sentar ao computador e escrever palavra. As músicas continuam me prendendo num loop eterno.” “Cinta de Möebius.” “É. Entra a música – a danada da Carla Bruni – e não faço mais nada. Tô perdido.” “Tá nada. Tá é apaixonado.” “Pode ser. Mas escrever é paixão e paixão é desequilíbrio. É como andar, um exercício de corte com a queda. Um ensaia o tombo e o pé segura na razão. E assim andamos passo a passo. Palavra a palavra.” “Os versos medidos e desmontados.” “Os parágrafos pensados e encadeados. É isso aí. Mas ela me dá paz e na paz fico amarrado.” “Enforcado.” “É.”</p>
<p>Tinham feito o mesmo curso de tarô vinte anos atrás. Brincavam de “carta favorita” a cada evento de chope. Era como se tirassem as cartas para si mesmos sem precisar do baralho. Poeta retomou o papo depois do silêncio.</p>
<p>“Te contei quem divide a minha cama agora? É a Aline.” “Não brinca? Sério. Porra, cara! Tu não é homem bastante para ela! Tem esse jeito bobo, desengonçado, sem graça!”</p>
<p>Riu da própria piada. O outro não.</p>
<p>“Eu sei. Também acho isso. Eu acordo de noite e fico olhando para ela meio embasbacado. Ela ali, nua. E eu fico medindo a minha sorte. A sorte de um merda de um poeta frustrado e funcionariozinho de uma porra de empresa de webdesign. Webwriter de cú – com acento! – é rola! Mas é isso que tá me fazendo levantar cada dia e encarar mais um dia de FGTS. É isso a vontade de ser um homem mais merecedor daquela deusa que divide o suor e o gozo comigo. Essa mulher maravilhosa que me dá o prazer de dividir a sua intimidade.”</p>
<p>Romancista riu baixinho, como se entendesse tudo agora.</p>
<p>“Cara, você quebrou a regra número um do artista: não se come a musa.” “Porra cara!” “É sério. Teu motor de inspiração era o amor não resolvido desfiado em tinta e papel. Teus melhores textos eram aqueles que ficavam ali no fio da navalha entre a corte para a conquista, essa dança de acasalamento moderna, e a punheta da paixão platônica. Era ali, na penumbra, que você se encontrava.”</p>
<p>Poeta ficou meio puto, meio divertido com o comentário.</p>
<p>“Você queria que eu fizesse o quê? Nunca fui bom nessa merda de cantada, de cortejar. Sempre me perdi nesses dois lados do muro. Nunca sabia se pedia o telefone ou email.” “Como é que é?” “Se eu pedisse o telefone, significava que eu já ia para a abordagem, apontava a proa do navio e abalroava a menina. Se eu pedisse o email, era para ficar na cantada insossa, no cerca-lourenço que se convencionou chamar &#8216;a corte&#8217; hoje em dia.” “Cara, e o meio-termo?” “Te disse, nunca fui bom nisso. Eu acabo que me atiro antes dos sinais de permissão e invado o espaço alheio me fazendo querer. Só que nem sempre o outro lado tá sabendo das regras do jogo e nunca combina resultado, né?” “Acho que entendo.” “Então. Ela veio, entendeu o jogo antes de eu colocar as regras. Me desarmou, se instalou, tornou-se parte da decoração do meu quarto.” “Que merda de metáfora.” “Tô falando que perdi a mão!”</p>
<p>Ambos riram, pediram um jiló em conserva, saideira e a conta. Chovia menos. Andaram até a Nossa Senhora de Copacabana e fizeram sinal para um táxi. Partiram para a Tijuca. Um atrás de quem já lhe esperava, outro atrás de algo que havia perdido.</p>
<p>Quando Poeta desceu do carro, virou-se para o amigo.</p>
<p>“Quem tem medo do fim, não deve nem começar.” “Tu tá bêbado.” “E feliz!”</p>
<p>Fechou a porta, mesclou-se com a paisagem da Praça Vanhargen. Súbito, o que ficou tinha uma história para contar.</p>
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		<title>Que coisa é essa que não se amansa na gente?</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 00:22:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Zander Catta Preta</p>
<p class="wp-caption-text">Self-portrait, (1961) por Alek Rapoport</p>
<p>Ele estava ali, parado na avenida da vida, esperando as coisas acontecerem. Sabe como é? Se mexer muito, desanda <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/que-coisa-e-essa-que-nao-se-amansa-na-gente/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>por Zander Catta Preta</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Self-portrait, (1961) por Alek Rapoport" src="http://www.gehspace.com/edicao%2034%20imagens/Self-portrait,%201961%20alek%20rapoport.jpg" alt="Self-portrait, (1961) por Alek Rapoport" width="400" height="562" /><p class="wp-caption-text">Self-portrait, (1961) por Alek Rapoport</p></div>
<p>Ele estava ali, parado na avenida da vida, esperando as coisas acontecerem. Sabe como é? Se mexer muito, desanda e já tinha desandado muito do todo. Saído muito fora dos caminhos desenhados, negado o que era destino e queria ter inventado história para si mesmo. Sabia bem das cartas, das estrelas e das mãos. Sabia um pouco das rachas do casco de tartaruga, mas isso não importava. Todos diziam que o seu destino estava rachado, partido, e era obra dele mesmo.</p>
<p>“Tinha dito não quando deveria ter dito sim e o Carma” &#8211; ah o Carma! &#8211; “ia carregá-lo de volta ao que era tido como certo, traçado.” “Mas se era certo e traçado, como poderia ter desviado do caminho?” Perguntava torto sem se entender na situação e nos próprios sentimentos. “Estava certo, mas não estava exato.” “Ah bom, agora entendo tudo.” “Pois faz mais sentido assim, não é mesmo?” “Não faz, mas entendo.” “Não importa, é inexorável e irresistível o teu destino.” “Por que sempre que se fala em destino e coisas afins, usamos termos que não cabem no dia-a-dia?” “Não me conteste, vil criatura. És apenas pueril espectador da transeunte efeméride.” “Você não disse coisa alguma.” “É verdade, mas isso também não importa. Vai lá e segue o teu caminho.”</p>
<p>E já ia saindo quando deu conta que não perguntou aquilo que queria. Foi enrolado com o palavrório do outro que se dizia dono do futuro. E nem falar com as conchas ele sabia. Voltou e encarou de frente enquanto o outro jogava dados.</p>
<p>“Ei. Eu quero perguntar uma coisa aí.” “Fala meu filho.” “Eu posso falar de mim para os outros? Falar dos amores errados? Das coisas que me arrependo, da memória que não quer ficar quieta? Das pessoas do passado perto que me surgiram no intermezzo das quietudes? E de como eu me comovo quando ouço o Beach Boys e lembro dela? E de que, mesmo achando que é tudo errado, que não tem de ser, que não há mais o que fazer quando as coisas chegam nesse estado, ainda sinto uma vontade enorme de correr à noite na beira da praia, do Posto Seis até o Leme e berrar: EU TE AMO. De que eu vi a merda de um futuro a dois e neguei-o por estupidez, surto ou desespero e todo dia, quando acordo, não sei se estou vivendo o meu destino ou o meu erro. E, por isso, tenho de sentar na frente de papel, pena e tinta e colocar o fígado do lado do copo até esvaziá-lo da bile, destilando o nanquim?”</p>
<p>Ele jogou os dados, desenhou algo que nunca faria sentido.</p>
<p>Disse: “Não. Cala-te.”</p>
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		<title>As tempestades eternas</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Mar 2009 00:13:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Zander Catta Preta</p>
<p class="wp-caption-text">Embracing couple por Nora Patrich</p>
<p>Por vezes atravessamos uma rua sem sequer olhar se os carros possíveis se fazem presentes ou não. Normalmente isso <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/as-tempestades-eternas/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Zander Catta Preta</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 410px"><img title="Embracing couple por Nora Patrich" src="http://www.gehspace.com/edicao%2033%20imagens/Nora%20Patrich%20embracing%20couple.jpg" alt="Embracing couple por Nora Patrich" width="400" height="302" /><p class="wp-caption-text">Embracing couple por Nora Patrich</p></div>
<p>Por vezes atravessamos uma rua sem sequer olhar se os carros possíveis se fazem presentes ou não. Normalmente isso se dá quando temos certeza que está tudo bem. Sinal fechado, altas horas da madrugada, ruas desprovidas de interesse viário. Ou então quando o nosso mundo interior está tão conturbado, tão agitado, que os eventos externos deixam de ser importantes.</p>
<p>Ele chegava em casa e sempre atravessava a Avenida Atlântica assim, sem ao menos ver se um automóvel mais saidinho ameaçava atravessar os sinais vermelhos ou se precipitar por sobre a faixa de pedestres. Sempre atravessava no sinal, quando vermelho, como lhe fora ensinado na escola. Andava na linha até o trem chegar. Não ousava nem ao atravessar a rua.</p>
<p>Não chegava muito tarde em casa não. Umas oito, nove horas no máximo. Chegava exausto, consumido pelo processo diário de lobotização empresarial da empresa em que trabalhava. Se acordar era um esforço, levantar-se para voltar à casa era a realização da inutilidade de seus dias.</p>
<p>Já se desencantara com quase tudo. A própria carreira fora a primeira a sucumbir. Depois os amores, a vontade de ficar rico, de fazer cinco faculdades e seis mestrados, a diversão inocente, a diversão hedonista, o desânimo, o niilismo, tudo perdera o seu encanto, o glamour.</p>
<p>No verão parecia que tudo piorava: o ar pesado; o calor desumano; as poucas roupas das semi-deusas, filhas de Afrodite, inalcançáveis pelo seu salário sub-gerencial. Mas havia tempestades! Banhar-se na chuva da tempestade de verão quando chegava do trabalho era o máximo que chegara a um orgasmo.</p>
<p>Certa feita, antes de anoitecer, anunciava-se a tempestade. A expectativa parada do ar à beira-mar. Não ventava. Não esfriava. O bafo quente e úmido era a certeza que era um típico Verão Opressor. Não eram dias da alegria tradicional dos trinta e poucos graus, com Sol a pino e as roupas no armário. Era a face de Helios que se voltava lembrando aos seus adoradores que ele é pai: dá a vida e alegria mas toma-as ambas ao mesmo tempo, se necessário.</p>
<p>Na rua: pessoas apressadas para curtir o restinho de sol na praia; engravatados derretendo como velas, querendo chegar em casa para banho e cerveja gelada; crianças vivendo o resto da sua liberdade dos livros e horários, umas retratos do caos em sorrisos, outras deixando a infância em cada beijo dado; vendedores sobrevivendo na oportunidade e na contravenção.</p>
<p>Ele se apressara a sair do trabalho a tempo de ver as nuvens se amontoando como uma decisão de futebol no Maracanã. Aquela massa cinzenta vindo irresistível fazendo-se aterradora aos homens pobres de espírito.</p>
<p>Saltou do ônibus e sentou no quiosque em frente à Hilário de Gouveia. Esperou a primeira gota como quem espera a sobremesa depois de um almoço de vegetais insossos e minerais inertes. Em segundos estava encharcado de água e porra. Levantou-se. Pegou a pasta com os papéis inúteis e inutilizáveis. Atravessou a rua sem olhar para os lados.</p>
<p>Caminhava sem se preocupar em disfarçar a cara que pedia um cigarro pós-coito. Deparou-se com ela.</p>
<p>Primeiro notou os cabelos negros, cacheados, à altura dos ombros. Depois a pele alva. Aí viu que estava de vestido branco, seios à mostra na transparência dos tecidos. Os pêlos, mais discretos, perceptíveis a quem não fosse míope. Por último o sorriso de quem gozava como se não houvesse amanhã.</p>
<p>Ao redor dos dois, as pessoas apressadas em fugir da água, como se fossem de açúcar, outras abrigavam-se nas marquises dos restaurantes da beira-mar. Os raios no oceano soavam o encontro e os carros lentos se acumulavam na pista, compondo uma sinfonia de surdos elétricos, motores à explosão e buzinas eventuais. Esse mundo de pessoas, esse mar de histórias, passava invisível àquele casal.</p>
<p>Olharam-se. Descobriram que eram um para o outro. Os braços enlaçados. As bocas sôfregas. Os instintos finalmente descobrindo para que foram feitos.</p>
<p>Acordaram em um desses hotéis caros e vagabundos do Lido. Ele, contemplando a beleza nua dela. Ela, aninhada no peito dele, brincando com os pêlos parcos que insistiam em nascer. Ele pediu um café da manhã que veio rapidamente. Comeram. Beijaram-se. Amaram-se pela quarta vez.</p>
<p>Ao término da maratona, ela tentou esboçar assunto. “Qual o seu nome?” “Não faz isso.” “O quê?” “Não quebra esse silêncio.” “Como assim? Só quero saber o seu nome.” “Faz assim: não tenho nome para você. Se quiser, sou Chaac.” “Hein? Você é maluco?” “Não. Não é isso.” “Explica!” “Chaac é o deus Maia das chuvas e que&#8230;” “Deixa de babaquice. Qual é o galho?” “Tá bom. É que tem um cínico que mora aqui dentro, sabe?” “Hmhm.” “Um cara que acha que os encantos da vida são distração de um tolo, de um babaca distraído que se encanta com coisas corriqueiras, mundanas. De um idiota que não sabe que chuva é chuva, pedra é pedra, pão é pão.”</p>
<p>Fez cara de quem não estava entendendo nada, mas deixou ele continuar. “Então. Ele estava distraído – fugindo da chuva, eu acho – quando me encantei por ti. Nos encantamos pelo momento, pela magia das águas do céu e do mar, pelo anúncio da tempestade. Em ti, vi a Deusa que Chaac fecunda para a colheita do outono.” “Acho que estou entendendo.” “É isso. E você ao abrir a boca, ao me pedir o nome, estava prestes a despertá-lo. Te peço apenas um momento de silêncio.”</p>
<p>Ela consentiu mas ele não se calou. Encostou a cabeça no seu colo e, visivelmente emocionado, desabafou. “Me deixe tolo, naïve, ingênuo. Quero olhar o mundo novamente como quem não o viu e viveu dezenas de vezes. Vida, após vida.”</p>
<p>Ela o olhou nos olhos. Beijou-o. Sussurrou algo no seu ouvido numa língua há muito morta e o recebeu como não fazia há centenas de anos.</p>
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		<title>Sobre diferenças e semelhanças</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 23:51:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Géssica Hellmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[amores urbanos]]></category>
		<category><![CDATA[zander catta preta]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>por Zander Catta Preta</p>
<p class="wp-caption-text">Lovers 24 - Nicoletta Tomas Caravia </p>
<p>O fôlego fora suficiente apenas para cruzar a portaria, pegar o elevador e entrar em casa. Abriu <a href="http://gehspace.com/contos-de-amor/2009/03/09/sobre-diferencas-e-semelhancas/"  >&#187;&#187;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>por Zander Catta Preta</em></p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 398px"><img title="Lovers 24 - Nicoletta Tomas Caravia " src="http://www.gehspace.com/edicao%2029%20imagens/lovers%2024%20-%20%20Nicoletta%20Tomas%20Caravia.jpg" alt="Lovers 24 - Nicoletta Tomas Caravia " width="388" height="513" /><p class="wp-caption-text">Lovers 24 - Nicoletta Tomas Caravia </p></div>
<p>O fôlego fora suficiente apenas para cruzar a portaria, pegar o elevador e entrar em casa. Abriu a porta de supetão e desmanchou-se ali mesmo. Era só soluços e lágrimas ácidas. Levou poucos minutos para recuperar o controle sobre si mesma e menos para desmontar-se. Entrou no banho e deixou que a ducha quente lavasse a alma e as dores. Viu a espuma descer em redemoinhos no ralo. Pensava na vida e na morte da bezerra.</p>
<p>Não entendia como entrava sempre nesses mesmos rolos. Conhecia o cara, saía com ele, amavam-se alucinadamente como se não houvesse um amanhã e depois de um café da manhã no Garcia e Rodrigues (com sorte): beijo, tchau e nunca mais. Não que achasse ruim. Na maioria dos casos os sapos continuavam uns batráquios inexpressivos, não importando o quão ou como os beijasse. Ou onde.</p>
<p>Mas o que lhe incomodava mesmo eram os carinhas que aparentemente pareciam que iriam lhe ligar no dia seguinte, aqueles que esperava ter um algo mais, nem que fosse uma segunda vez. Ou uma terceira, quarta. Sabe-se lá.</p>
<p>Pior que esses: os que realmente ligavam! Ligavam, marcavam, saíam e eram melhores que antes, se superando a cada noite. Sempre uma surpresa, uma novidade: um restaurante da moda, um presente bem escolhido, um show especial e pimba! Cama e espetáculos pirotécnicos nos motéis da vida. Ou nos apartamentos cinematográficos. Ou nas casas discretas no Alto da Boa Vista ou na Urca. Mas tinha dentre essa turma toda, tinha um tipinho que era hors concours na canalhice e na perfídia: os que se apaixonavam por ela.</p>
<p>Ele era perfeito: bonito à medida exata, inteligente o suficiente para saber que não deveria ofuscá-la, elegante, sabia onde levá-la, tinha os programas corretos, conhecia as pessoas nos locais exatos, bem-resolvido financeiramente, disponível para os seus caprichos e um atleta sexual.</p>
<p>Então porque ela sentiu-se agoniada quando ele a deixou em casa? Não conseguia achar razão e só manteve o fôlego por questões de compostura e câmeras indiscretas nas áreas públicas.</p>
<p>Mais calma, quebrou alguns pratos e copos enquanto esquentava a comida. Xingou os cachorros que pouco tinham a acrescentar ao diálogo interno que ela travava. Sentou-se à sala, entre as almofadas e colocou um devedê aleatório no tocador. Rá! Manhattan de novo! PUTA QUE PARIU!</p>
<p>Encostou. Assistiu. Pegou o telefone.</p>
<p>“Não vai dar certo.” “Mas, qual o porquê?” “Não tem atrito.” “Hã?” Antes que se debulhasse novamente, desligou.</p>
<p>Apagou o número dele da agenda do celular.</p>
<p>Antes, porém: “Hmmmm&#8230; Ângelo. Acho que vou ligar para esse escroque!”</p>
<p>E assim achou o caminho para a sua felicidade.</p>
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