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A vontade do saber | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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A vontade do saber


Géssica Hellmann

O intuito desta resenha é apresentar os primeiros pensamentos expressos nos dois primeiros capítulos da História da Sexualidade – A vontade do saber, de Michel Foucault.

Segundo Foucault, no início do século XVII, os corpos pavoneavam sem refreios, gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias a mostra, crianças vagando entre adultos. No final deste século, porém, a sexualidade é cuidadosamente encerrada dentro dos quartos dos pais.

Afirmava ele que nesta época tinha-se o pensamento que as crianças não possuíam sexo: razão para proibi-las de falar neste assunto (final do século XVII seguindo pelo século XVIII). Este conceito só viria a mudar com os estudos de Freud.

O discurso de repressão sexual, iniciado no século XVII, após centenas de anos de expressão sexual livre, é protegido historicamente e politicamente, coincidindo com o início do capitalismo.

A explicação enunciada por Foucault sobre o pensamento da época: “se o sexo é reprimido com tanto rigor, é por ser incompatível com uma colocação no trabalho, geral e intensa; na época que se explora sistematicamente a força de trabalho…” (FOUCAULT, 1977:11).

O que revela que um dos principais motivos, da repressão sexual, foi controlar a população para manter uma economia a favor dos dirigentes.

Outra dialética apresentada neste primeiro capítulo foi: “se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, a inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e da sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada.” (FOUCAULT, 1988:12). Com esta afirmação Foucault quiz levantar o benefício do locutor que emprega essa linguagem, que de certa forma se encontra fora do alcance do poder.

A idéia da repressão sexual, não é somente objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca fora dominada com tanto rigor, como na época da hipócrita burguesia negocista, é acompanhada pela ênfase de um discurso destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economia na real, mudando seu futuro. Podemos observar que esta “verdade sobre o sexo”, era dita com a finalidade que os efeitos beneficiassem a burguesia e os que estavam no poder.

No primeiro capítulo, Foucault levantou várias questões, não para negar a teoria de repressão sexual, e sim para explicar por quais razões e por que meios se estabeleceu esta repressão. Questões tais como:
- A repressão do sexo seria realmente a acentuação ou talvez a instauração desde o século XVII, de um regime de repressão ao sexo? (Questão histórica)
- A mecânica do poder, a que é posta em jogo em uma sociedade como a nossa, seria de ordem repressiva? (Questão histórica-teórica)
- O discurso crítico que se dirige a repressão viria a cruzar com a mecânica do poder, que funcionava até então sem constatação, barrando-lhe, faria parte dessa mesma rede histórica daquilo que denuncia, chamada de repressão? (Questão histórica-política)

No segundo capítulo ele se propõe a responder as questões levantadas sobre a hipótese repressiva, explicando o motivo da incitação dos discursos.
Como já havia comentado, no final do século XVII, não se podia falar de sexo com as crianças; a regra era silêncio e discrição absoluta. Mas, quanto ao nível de discurso a regra era a proliferação, principalmente a partir do século XVIII. O cerco às regras da decência, provocou uma intensificação nos discursos indecentes.

Nos discursos no campo do poder havia uma incitação institucional para falar do sexo, sob forma da articulação explícita e do detalhamento. A evolução do pastoral católico e do sacramento da confissão, depois do concílio de Trento, obrigava todo um exame minucioso do ato sexual. A discrição é cada vez mais recomendada: no que se refere ao pecado contra a pureza. é necessária a maior reserva. A contra-reforma católica dedicava-se a acelerar a quantidade por ano das confissões, atribuindo grande importância às penitências – todas as insinuações carnais, pensamentos, desejos, deleites, tudo detalhadamente. Por este meio, a Igreja, pretendia controlar o seu “rebanho”, através do amplo e detalhado conhecimento dos hábitos sexuais da população.

O projeto de uma colocação do sexo em discurso formava-se já há muito tempo, numa tradição ascética e monástica. O Século XVIII fez dele uma regra para todos. Uma obrigação colocada ao bom cristão.

O essencial: que o homem ocidental há três séculos tenha permanecido atado a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre seu sexo, que a partir da época clássica tenha havido uma constante valorização do discurso sobre sexo. Censura sobre sexo? Pelo contrário, constitui-se uma aparelhagem para a produção de discursos sobre sexo, suscetíveis a funcionar e de serem efeito para sua própria economia capitalista. Nasce assim, no século XVIII, uma incitação política, econômica, técnica a falar de sexo, sob forma de contabilizar, classificar, especificar, através de pesquisas quantitativas ou casuais. Foucault demonstra aqui a verdadeira intenção da repressão sexual, não como uma forma de censura, mas como uma forma de controle populacional com objetivos políticos e econômicos.

No século XVIII o sexo torna-se questão de polícia, não como repressão da desordem e sim como necessidade de regular o sexo por meio de discursos e não pelo rigor da proibição. A polícia tinha o papel principal não com o rigor de proibir, e sim de “rotular” os que não seguiam o discurso da época.

Com o surgimento do problema “população”, entendeu-se que controlar o sexo era de certa forma controlar a natalidade, idade de casamento, filhos legítimos e ilegítimos, freqüência das relações, a maneira de torná-las fecundas ou estéreis, celibato entre outros. Forma-se toda uma teoria de observação sobre o sexo, surgindo as análises de condutas, seus efeitos no limite entre a biologia e o plano econômico. Através de pesquisas, governantes e capitalistas controlavam a população, visando principalmente dominar a “força de trabalho”, em benefício econômico deles próprios.

Já em meados do século XVIII, era incentivado através de discursos, a orientação de educadores, administradores, médicos e pais, a uma educação sexual para as crianças, permitindo intensificar a multiplicação dos discursos, mudando a estratégia familiar na educação sexual das crianças: a idéia de que a criança não possuía sexualidade não teria sido derrubada, mas a educação sexual serviria para exercer controle sobre elas.

Foucault conclui no fim do segundo capítulo que o que é próprio das sociedades modernas não é terem condenado o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem devotado a falar dele sempre, o valorizando como segredo.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.

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