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Castração | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Castração



Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através de casos expostos por psicanalistas consagrados.

Damien Hirst - Mother - arte sexualidade

Mother por Damien Hirst

O complexo de castração consiste em uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.

Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração, foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente se fundira ao complexo de Édipo.

Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração, ou seja, se eu fizer “X” serei castigado (com a castração). Só se pode superar a inibição quando esta angústia é solucionada.

Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud. Chamava-se “willy-cut” (corta-pipi). Era como uma tesoura de jardinagem, mas com funções bem mais específicas. O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias: ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática “Winnicott” (nome do psiquiatra inglês).

O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo e seria arrancado.

Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono. Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um “toque de despertar” para a nação americana. Ora, as torres não deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento. A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora do “crescimento”, como se a investida contra esses símbolos do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.

A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação da diferença sexual; a negação desta diferença; a produção de excitação e como causa de inibição sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo da diferença sexual, e a superação da ameaça determina a identidade sexual.

A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos. Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando o pai chega faz um pedido especial: “você poderia, por favor, por um bebê na minha barriga também”? McDougall relaciona esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades bissexuais da primeira infância.

>A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça da castração. O exibicionista fálico defende-se da angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo. Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência dos genitais femininos e terror da castração que eles originam. Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.

A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças. Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a criança acordava chorando e tremendo: “O cachorro arrancou meu pipi”

Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho divididos – uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro tanques de formol – é uma representação simbólica da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar: sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica, porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela divisão, mas é ele que, no ato de destruição e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário. É em razão do medo da castração que o pai tem um efeito inibidor, não só a castração que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina da mãe.

Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme “A professora de Piano (2001)”. “Me senti com calor e suado, tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que ia desmaiar.” A cena que provou o desmaio era a representação de uma automutilação genital feminina. A professora entra no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada. Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue na banheira. Ward se pergunta: “Por que isso me alarmou tanto?”. Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até mesmos cenas de castração como em “Império dos Sentidos”, não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua angústia não deve ter relação direta com a imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter aflorado inconscientemente.

Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto de crenças infantis; um organizador da diferença sexual; um determinante fundamental do caráter e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos e variáveis para o individuo e para a cultura.

WARD, Ivan. Conceitos da Psicanálise: Castração. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

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