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Géssica Hellmann
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Homossexualidade
A homossexualidade ainda é percebida, especialmente entre leigos, como um estigma, uma doença ou, o que pode ser pior, uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida.
O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois a sexualidade ainda é percebida como algo de sujo, de ruim, de vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações entre as minorias sexuais.
Claro que, se transmitimos a uma criança a idéia de que o homoerotismo é uma distorção, será muito difícil que, mais tarde, ela possa desenvolver uma visão menos preconceituosa sobre o assunto.
Estudos demonstram que crescer é basicamente uma questão de moldagem, de ajuste a uma sociedade. É um processo vital, pois nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro de algum grupamento social.
Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se a estagnação. Observa-se que tal rigidez pode mutilar a mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente como o costume de atar os pés mutilava antigas gerações de mulheres chinesas.
No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação e, em pouco tempo, se desintegra.
A tendência dos estereótipos culturais em resistir à mudança é essencial para a manutenção da sociedade, mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da sociedade quanto de seus membros.
É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o “ponto-chave” de compreensão diante de novos conceitos e acontecimentos. E é justamente em sua ausência que as incompatibilidades quanto à homossexualidade repousam e criam seus mais diversos modos de encará-la, e por que não dizer, de abordá-la.
Sendo o Homem um ser bio-psico-social, enquanto “bio”, podemos entender que ele nasce, entre outras, com as características fisiológicas, que faz indivíduos homens ou mulheres. É enquanto “psico” que ele aprende a expressar, isto é, a transmitir a sua sexualidade dentro de um contexto. E é o componente “social” propriamente dito que determina a obrigação de que as pessoas do sexo masculino comportem-se como “machos”, enquanto as do sexo feminino devem ser “femininas”. Portanto, quando o ser humano se percebe portador de desejo por outro do mesmo sexo, ele entra em dissonância (crise), porque aquilo que ele sente não combina com o que é determinado socialmente.
A questão da escolha afetiva é determinada e aceita, socialmente, a partir da heterossexualidade. A mulher deve escolher o homem, o homem deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória e coerente. E é justamente aí que reside a incoerência, pois a escolha de parceria afetiva é individual, pessoal.
Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela opção por parceria afetiva do mesmo sexo, isto é, escolha de objeto amoroso e não de um modo de vida.
A confusão entre escolha de objeto amoroso e escolha de um modo de vida representa grande parte do sofrimento emocional que experimentam as pessoas que têm dificuldade em conciliar a sua orientação sexual com o contexto social. Ou seja, se a homossexualidade é vivida como a escolha de um modo de vida, ela tende a se manifestar em todas as áreas de inter-relação do indivíduo.
No entanto, por temerem antagonismos ou rejeitação por sua condição homoerótica, os homossexuais empreendem um enorme esforço no sentido de expressá-la apenas nos “guetos”, tentando escondê-la em outras situações do cotidiano. Ou, ainda, podem adotar uma outra atitude: a luta incessante pela aceitação social de sua opção sexual.
O que podemos afirmar é que não existe uma forma homossexual de lidar com o mundo, de ver a realidade, que não seja a estereotipada ou estigmatizada, ditada a partir da heterossexualidade. Exemplo disso é acreditar que o homossexual assumido é aquele que expressa características do sexo oposto.
Ora, se o conceito de homossexualidade nos diz que essa condição é a escolha amorosa por alguém do mesmo sexo, o ato de assumir características do sexo oposto, neste caso, é uma reprodução (ainda que inconsciente) do modelo heterossexual, em que, para se formar uma parceria, um membro deve ter as características de homem e, a outra pessoa, as de mulher.
O que se deve ponderar, quando necessário, é o uso que a pessoa faz da sua sexualidade. É nesse uso que podemos nos deparar com prostituição, comportamentos sexuais bizarros, ligações de dependência patológica, por exemplo.
A resolução quanto à própria sexualidade reside no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente, poder discriminar, nessas situações, com quem se deseja um envolvimento maior pelo nível de satisfação e prazer que essa escolha amorosa possa proporcionar.
Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante normal do comportamento sexual, assim como outras diferenças inerentes à condição humana.
Margareth de Mello F. dos Reis










