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Géssica Hellmann
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Inferninho
Saudades daquele inferninho! Isso mesmo. Aquela boate GLS num beco de Sampa! Saudades de ser a única “raxa” trabalhando entre Drag Queens! Saudades da bee berrando sempre que me via chegar “Lá vem aquela que dá a ELZA”. Saudades do inferninho que derretia a maquiagem toda que tinha que usar. Do Velvet Goldmine em terras paulistas. Dançar “Down By the Water – PJ” com aquela gente.

Rocca - Foto por Renato Stockler
Saudades daquelas pessoas tão maravilhosas e tão perseguidas pelos preconceituosos. Perdi a conta de quantas vezes olhei pra alguém com pena. Pena da postura pequena, cabeça fechada… Pena de saber quanto àquela pessoa estava perdendo por ser medíocre. Do namorado que propôs “pro nosso namoro continuar você tem de escolher eu ou ser hostess desse inferninho”. Pedi desculpa, mas não podia chorar e correr o risco de borrar a maquiagem, afinal, tinha a que estar ali até às 8h da manhã de segunda-feira. Se cuida, querido!
Saudades de andar de metrô as nove da manha e ser observada como um alien. Coturnos, corseletes and make-up. Saudades do rosto assustado da minha mãe quando me reencontrou quatro anos depois de me mandar embora. Rosto de descrença e orgulho. Como quem diz “Ela sobreviveu, ainda que eu não faça mais idéia de quem seja minha filha, mas to vendo uma mulher com RG de menina. Confesso que senti muita magoa da minha mãe. Papai, e melhor amigo, morre. Mamãe surta. E Rocca teve que enterrar os dois em menos de três meses. Um morto, literalmente. Ela, uma viva morta que, surtada, falou, tchau Rocca. Mas quer saber? Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Te vira nêga é o que toda mãe deveria fazer com os filhos”.
“Ela é tão nova!”, falou o tiozinho da padaria um dia desses. Eu agradeci sorrindo e concordei “sim, sou nova. Uma velhinha assanhada” Ele não entendeu, mas retribuiu o sorriso! Kadu fala que se não me conhecesse há 15 anos jamais teria casado comigo. Ele sabe que sempre fui responsável demais. É perfeitamente possível estar num banheiro compartilhado por homens e mulheres drogados e bêbados e não ser um. Ter 19 tatuagens e não ser um marginal perigoso fora da jaula. E quando vinham aqueles zombies oferecendo “um pega” eu agradecia falando “não obrigada eu sou o traficante e não o usuário” e caía na gargalhada. Sempre fui tão moleca no meio de tanta “droga”.
E os porteiros que achavam que eu era puta. Por que? Ué, por pagar a PUC e o apErtamento sozinha, com 18 anos… “Isso só puta consegue” – Eu caia na gargalhada – Não há argumento que convença quando você chega no prédio pela manha fedendo a cigarro nem corselete e salto alto! Eu brincava: “Tá louco! Puta? Não querido, eu sou acompanhante de luxo” e mais gargalhada. Bons tempos…
“Hoje digo a essas pessoas que tantas vezes acolheram aquela garota dos ojos de perra (olhos de cachorra): A mulher que sou hoje, é reflexo do que aprendi com vocês. Quando meus olhos buscam visualizar o que valeu a pena, garanto, vocês foram o que valeu a pena.”
Com todo meu amor, muito obrigada!
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