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Mídia e Sexo: as colunas sobre sexualidade enquanto concretização da busca da satisfação | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Mídia e Sexo: as colunas sobre sexualidade enquanto concretização da busca da satisfação


Mídia e Sexo: as colunas sobre sexualidade enquanto concretização da busca da satisfação

Conforme filósofo Charles S. Peirce (1839-1914), a inteligência humana se traduz em nossa capacidade inata de aprendizagem e tendência contínua ao aperfeiçoamento. Essa tendência pode se concretizar tanto na mais individual e trivial atividade – cortar caminho para gastar menos energia – como nas mais complexas, por exemplo, a união de líderes de estado em prol da miséria no mundo. Mas nem sempre nossas idéias se atualizam nos melhores rumos, há enganos terríveis, a censura e os genocídios promovidos por causas santas ilustram bem essas falhas. No sexo não é diferente, todos queremos, de acordo com nossas capacidades e ambições, melhorar em algum aspecto (físico, psíquico, ambos), pelo menos até chegarmos em um patamar que consideramos satisfatório.

Neste artigo pretendo mostrar como as colunas tipo perguntas-e-respostas sobre sexo das revistas Claudia e Playboy (ambas da Abril), contribuem para o desenvolvimento da idéia de sexualidade e podem ser consideradas, portanto, como um dos modos de concretização da tendência ao aperfeiçoamento de que fala Peirce. Ao colocar em circulação temas relativos ao sexo, as colunas indicam um amadurecimento da sociedade no tratamento do tema em relação a tempos passados, nos quais a informação produzida era mínima e fundada em preceitos religiosos. Sobre o percurso: passarei por alguns fatos relativos a Idade Média e início da modernidade para em seguida tratar das revistas.

A Igreja, durante a época Medieval, viu na restrição do sexo à procriação um dos modos de estar em conformidade com Deus. Certamente, este foi um caminho errôneo o qual limitou (senão proibiu) a felicidade de muitos. Conforme a prof.a. Ângela Mendes de Almeida, de fins da Idade Média até os primeiros séculos da modernidade, a Igreja manteve uma forte preocupação quanto à vida íntima dos casais. Pois os clérigos julgavam o sexo lícito somente se o ato tivesse como meta a procriação; o próprio casamento só tinha razão de ser por sua função reprodutora.

Assim, qualquer ação que previsse apenas o “deleite” (sem objetivo de procriar) era considerada pecaminosa, mesmo sendo entre casados. Os “tocamentos” (entenda-se masturbação), dele ou dela, seriam admitidos apenas “se dados em sinal de amor” e nos casos em que antecedesse a cópula; do contrário, era considerado “pecado venial” e, se os toques provocassem a “polução” (ejaculação), aí sim o fiel teria realmente que se preocupar, pois seu ato seria enquadrado como pecado mortal. A fim de propiciar maiores chances de fecundação, os padres empenharam-se até em estudar e recomendar posições mais adequadas para o ato sexual. Segundo os eclesiásticos, o homem deveria ficar por cima, para que “emitisse o sêmen dentro do vaso natural da mulher”. Outro ponto curioso de intervenção da Igreja sobre a vontade dos cristãos era o “débito conjugal”. Estaria em débito o cônjuge que se opusesse a solicitação do parceiro para o sexo: isso valia tanto para o homem quanto para a mulher. Só não estaria pecando aquele que negasse o coito alegando uma das justificativas previstas também pela igreja, “tais como a menstruação, o parto recente ou – e isto servia para os dois cônjuges – uma doença contagiosa qualquer”.

Em contraste às manifestações de repressão sexual medievais, temos hoje uma quantidade enorme de informação correndo livremente, fornecida pelos veículos de comunicação e, com isso, dispomos de liberdade de escolha quanto aos caminhos a tomar e em que acreditar. Exemplo da disponibilidade de livre informação acerca da sexualidade são as colunas de perguntas-e-respostas oferecidas em revistas masculinas e femininas, que podem ser adquiridas em qualquer banca. A dinâmica nas revistas funciona assim: os interessados mandam suas dúvidas (por carta ou e-mail) e obtêm a avaliação de um especialista nas edições seguintes. Guardadas as particularidades com que abordam o tema (Playboy mais descontraída, Claudia mais austera), essas revistas contribuem para o crescimento da idéia de sexualidade, o que, sem dúvida, se mostra benéfico, pois é só através do exame e ampliação do tema que podemos identificar o que é saudável e aprazível e o que precisa ser superado. Quanto mais se discutir, melhor.

Mas, além do óbvio trabalho de aconselhamento que desempenham, tratando incisivamente das variadas hesitações dos leitores, as colunas podem ser consideradas indício de amadurecimento da compreensão e tratamento de nossa sexualidade. Em que outro período homens e mulheres tiveram à sua disposição um veículo público com o qual pudesse dialogar livremente (sem serem repreendidos) a respeito de detalhes de sua vida íntima? Hoje, há rapazes perguntando a revista qual posição sexual dará mais prazer a sua namorada, e outros pedindo indicações de como tratar a ejaculação precoce. Mulheres querendo orientações sobre a prática de swing (troca de casais), ou alegando falta de desejo pelo marido. Ou seja, a intimidade sexual, que em tempos medievais deveria passar pelo crivo ameaçador dos eclesiásticos, porque fundados em saberes (ditos) divinos, atualmente amadureceu e encontrou na esfera pública (mídia) um certo abrigo, uma espécie de amigo a quem recorrer sem o risco de ser desqualificado. Ao exporem seus problemas e dúvidas às revistas, os leitores mostram que aprenderam que o melhor caminho para atingir a satisfação é conversar, é debater as questões que consideram relevantes. Se as revistas não são o meio mais adequado ou eficaz para sanar os males que ainda nos rondam, ao menos tornam públicos atos individuais de pessoas interessadas em se aperfeiçoar e despertam, talvez, em outras pessoas, o desejo de também refletir a respeito de sua vida afetiva e sexual.

Não podemos concluir que os problemas referentes ao sexo estão resolvidos, ou próximos disto, pois a satisfação é sempre momentânea e delicada, sujeita a revisões que podem implicar um novo movimento em busca de um patamar mais elevado de satisfação, e assim por diante (isso vale para todas as áreas do comportamento humano). Mas percebemos que o melhor caminho para concretizar nossa tendência natural ao aperfeiçoamento é darmos continuidade a produção e debate de idéias. Portanto, que a informação circule e cresça!

Bibliografia

ALMEIDA, Ângela Mendes de. O Gosto do Pecado: casamento e sexualidade nos manuais de confessores dos séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

TALESE, Gay. A Mulher do Próximo. Rio de Janeiro: Record, 1980.

FOUCAULT, Michel. Sobre a História da Sexualidade. In: Microfísica do Poder. São Paulo: Edições Graal, 2003.

Mauricio José Melim é Bacharel em Comunicação Social

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