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Mocinhas e Pistoleiras | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Mocinhas e Pistoleiras



Mocinhas e pistoleiras são dois dos muitos estereótipos impostos à figura feminina pela teledramaturgia brasileira, representada pelas novel(h)as. Não vamos nem falar nas décadas passadas, onde as “mocinhas” normalmente surgiam como seres dóceis e fúteis, à espera de um suposto príncipe encantado. Ah, e virgens, claro.
Com a passagem dos anos, às “mocinhas” foi concedido um mínimo de liberdade sexual, mas, vale lembrar que elas só davam por amor, embaladas pelo hit romântico do momento, tipo o inesquecível Rock’n roll lullaby.
Essa visão maniqueísta que divide as personagens da dramaturgia na galera do bem e galera do mal persiste, como se fosse possível definir e catalogar gente. As pistoleiras, normalmente, engrossam as fileiras da turma do mal. Todas deixaram de ser virgens na encarnação passada, são infiéis, usam o sexo como instrumento de manipulação, mentirosas sempre, ocasionalmente assassinas, enfim, são apresentadas como mulheres inescrupulosas. A arqui-vilã Nazaré, personagem da atriz Renata Sorrah em “Senhora ‘do destino”, último sucesso global, consolidou essa imagem.
O que me deixa p. da vida é observar que o autor, Agnaldo Silva, com Nazaré acabou reforçando a idéia de que mulher que gosta de sexo é pistoleira. A ofensa mais utilizada contra Nazaré pelas outras personagens da trama, o termo “piranha”, tem uma conotação claramente sexual. A prostituta Nazaré deixava milhares de donas de casa indignadas quando se olhava no espelho, fazia biquinho e dizia pra si mesma: loira gostosa.
Se nesse país a prostituição fosse sindicalizada era caso de processar o autor: onde já se viu botar tamanha pecha na profissão?
A Nazaré era estéril e o autor fez questão que essa esterilidade abrangesse todas as outras áreas de sua vida; é preciso lembrar que segundo dogmas prevalentes em nossa sociedade o sexo guarda um vínculo estreito com a reprodução: a heroína Maria do Carmo tinha cinco filhos (missão cumprida) e a outra mocinha da estória, interpretada por Carolina Dieckman, se divertiu com o namorado durante uns capítulos e logo apareceu grávida, lembram-se? Nazaré era estéril, portanto não tinha licença social para vivenciar sua sexualidade. A maternidade justifica o orgasmo?
Conforme os próprios autores gostam de afirmar, as novelas refletem os cenários sociais. Isso mostra que a mulher que decide vivenciar plenamente sua sexualidade ainda é vista com desconfiança, como uma ameaça ao status quo e, porque não dizer, como uma “piranha”. Não é de admirar, então, que o relatório da sexóloga Carmita Abdo, relate que 53% das mulheres entrevistadas em sua pesquisa afirmem que nunca atingiram o orgasmo. É muito difícil romper o condicionamento cultural, principalmente quando a discriminação ainda predomina, aliada à idolatria da maternidade, que, afinal, sustenta um poderoso dogma religioso, mas isso é tema pra um outro artigo…

Sandra R. S. Baldessin

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