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Géssica Hellmann
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O Amor Sublime III (em “O Núcleo do Cometa” por Benjamin Péret)
(“Le Noyau de la Cométe”. Fragmentos extraídos da introdução da “Anthologie de l’amour sublime”, tal como foram publicados na “Medium-Comunication surréaliste”, nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)
Enquanto prosseguia o processo de diferenciação entre os seres e os sexos, o amor não podia ser considerado. Durante milênios, os seres humanos não haviam podido obedecer mais que a impulsos sexuais primordiais, a mulher submetendo-se passivamente ante o homem. Se sua inferioridade física lhe havia significado conhecer uma das condições mais precárias (4), foi também em seu benefício que se levou a cabo a primeira diferenciação: o homem manifestando sua força e abusando dela, enquanto a mulher exagerava sua debilidade e utilizando-a para proteger-se. De tal maneira, o homem assegurava a vida cotidiana da família por meio da caça, da pesca e da coleta, quer dizer, suprimindo a vida; a mulher, enquanto isso, assumia a carga da perpetuação da espécie, a fim de que o ciclo da vida e da morte pudesse prosseguir.
Esta evolução, longe de traduzir-se por meio de uma linha reta e contínua, esteve pelo contrário sujeita a toda sorte de retrocessos e avatares. Conheceu etapas em que foi tentada uma conciliação provisória, fragmentária ou ilusória. Enquanto a mulher havia sido submetida passivamente ao homem, nenhum acordo era possível, porque suas simples necessidades físicas não estavam satisfeitas. Todavia, certos índios da América (5) proíbem às companheiras qualquer manifestação de orgasmo, algo considerado por eles como um sinal de libertinagem. Durante muito tempo, o homem deve ter visto no orgasmo um privilégio de sua virilidade. Assim, viu-se estabelecer uma nova distinção entre o homem e a mulher que consolidava a divisão da humanidade em dois grupos, beneficiando-se cada um por seu lado de uma solidariedade interna, sendo objeto reciprocamente tanto da desconfiança quanto do desejo. Quando o homem foi impelido a renunciar a este privilégio – no sentido mais enérgico da palavra – que ele mesmo se havia atribuído, não podia fazer menos que reconhecer o mérito daquilo que experimentava sua companheira; por outro lado, o comportamento dela nessa situação devia mobilizá-lo. Mas, ao não lhe ser possível compreender o simples resultado das atitudes normais da mulher, que permaneciam invariáveis no mundo mágico que era então o dela, o orgasmo feminino devia representar-se somente como o produto da própria capacidade de comunicação dela com um mundo sobrenatural. Assim, por esse meio, o orgasmo feminino assumiu um caráter mágico desde suas origens, no que constitui a primeira sublimação da sexualidade, num plano que não é seu sob qualquer aspecto. Esta origem mágica ainda não havia sido esquecida durante a antigüidade clássica, porque o paganismo conhecia ritos orgiásticos. Por outro lado, não foi completamente esquecido na atualidade (6).
Esta comunhão sexual se reveste de uma importância decisiva, haja visto os intercâmbios levados a cabo entre o homem e a mulher, no sentido em que revela uma primeira possibilidade de acordo, certamente muito limitada, mas indispensável para um acordo futuro mais completo. Indica também que esta conciliação se realiza em virtude de uma sublimação – aqui artificial – da sexualidade e de um alcance tanto mais limitado na medida em que somente é o homem quem participa dela. Para que o homem e a mulher possam alcançar um acordo total, será necessário que a sublimação, em sentido convergente, se produza simultaneamente no plano humano mais essencial, nunca mais em um mundo imaginado somente pelo homem.
Por fim, a medida em que a comunhão sexual passava do sagrado ao profano, integrando-se aos costumes, não podia de deixar de levar o homem a reconsiderar sua apreciação da mulher. Sem dúvida, não era ainda o caso para a época de Platão porque no “Banquete”, o amor homossexual prevalece sobre o amor heterossexual, até o ponto de não reconhecer outro papel à mulher que não o da concepção. Somente o povo, segundo ele, podia amar uma mulher, de tal modo que não considerava este sentimento mais que um amor “popular”, grosseiro e sensual. O sábio ama os rapazes não pelas satisfações sexuais que lhe podem reportar – estas são secundárias – mas pelos prazeres intelectuais que representa lidar com eles, sendo a mulher intelectualmente inferior ao homem. O amor homossexual deveria assim ser um amor “celestial”. A comunhão puramente sexual com a mulher acompanha-se de uma comunhão espiritual com o homem, com conseqüências sexuais, abrindo uma nova fase no processo alternativo de dissociação e conciliação entre o homem e a mulher.
A simples comunhão sexual é então considerada insuficiente, às vezes até grosseira. Assim, o homem e a mulher não alcançam mais que um acordo fugaz, tornando-se em seguida completos estranhos um para o outro. O homem evoluído desta época é induzido a considerar, em virtude dos postulados platônicos, que a inteligência é um privilégio da virilidade (da mesma maneira que, pouco antes, havia-se atribuído o benefício exclusivo do orgasmo), a subestimar a mulher, quando não a depreciá-la, e a intercambiar com os homens um arranjo espiritual de que derivam relações sexuais. Reciprocamente, a mulher é compelida a ter que preferir a sensibilidade e doçura dos seres do seu sexo, antes que a violência masculina. De tal maneira se pronunciou como nunca a separação entre homens e mulheres. É a razão pela qual “a diferença entre nossa vida erótica e a da antigüidade consiste em que, outrora, era sobretudo a tendência que importava, enquanto que atualmente é o objeto” (7). Ao mesmo tempo, estão dadas as condições para uma conciliação superior entre o homem e a mulher, uma vez reconhecida como ilusória a desigualdade imaginada por Platão e descobertos os tesouros do psiquismo feminino. Plutarco (8) foi o primeiro a percebê-los, mas o cristianismo já estava ali.
Estava reservado a esta religião opôr à sexualidade um amor inteiramente desencarnado, orientado unicamente para a divindade. A moral cristã ensina que a mulher deve estar submetida ao homem (ao marido); e o único objetivo que atribui à sexualidade é o da concepção dentro do matrimônio. Esta submissão do homem tem sido indicada até pela forma do coito prescrita pela Igreja. Ao livre exercício da sexualidade, sem outro objetivo inicial que sua satisfação, a Igreja impõe uma mancha inevitável. Canaliza o impulso sexual sem esforçar-se em transcendê-lo no plano afetivo, conformando-se em orientar para a divindade as forças espirituais que tendem obscuramente à metamorfose no amor. Por ele mesmo, o ser humano não encontra proveito, não ganha mais que uma possibilidade de evasão. A mulher se constitui numa simples matriz, cuja vida afetiva não encontra outra saída que não a do exercício da maternidade e na ternura que possa esperar dos filhos. É o único amor carnal cujo benefício legítimo reconhece o cristianismo, e se não lhe impõe limite algum é porque representa um benefício para ele. Com esta religião, o homem, e a mulher mais ainda, vão conhecer a angústia permanente do pecado. Vendo-se a afetividade feminina compelida a prosseguir por vias divergentes, quando não opostas: o amor maternal e o amor espiritual surgidos do amor sexual negado à humanidade, cujos impulsos ela foi obrigada a desviar na direção da divindade.
(4) A guerra é suficiente para que ela volte a experimentá-la: telegramas de agências noticiosas reportavam, em 1945-46, durante as primeiras semanas da ocupação russa, que as autoridades civis de Viena haviam recebido 160 mil denúncias de mulheres violentadas.
(5) Marqués de Wavrin: “Moeurs et coutumes des Indiens sauvages de l’Amérique du Sud”, Payot, París, 1937, p.176 e “Les Indiens sauvages de l’Amérique du Sud”, Payot, 1948, p.138.
Tenho todo direito de crer que nestas sociedades, comumente, a mulher ignora o orgasmo durante a vida inteira. A este respeito, uma pesquisa levada a cabo no interior francês, seria sem dúvida das mais edificantes. O relatório Kinsey sobre as mulheres norte-americanas nos informa, por outro lado, que somente entre 40 ou 50% delas chega ao orgasmo em cada relação e, 10% delas nunca chegam a experimentá-lo. Informa-se também que 25% se sente frustrada durante seu primeiro ano de casamento e que 14% tem de esperar 10 anos para atingir o orgasmo. Faz-se referência inclusive ao caso de uma mulher que precisou completar 29 anos de casada para conseguir isso e de outra que não o obteve se não com o quinto marido. Como compensação, a maioria delas havia praticado o “petting” (carícias onde tudo é permitido, menos penetração) desde os 12 anos de idade. De tal modo, uma época de involução tem como resultante levar uma mulher a um estado que ela havia conhecido em tempos primitivos, em que existiam grupos de retardados.
(6) Geyraud (“L’Occultisme à Paris, les Religions secrètes de Paris”, etc.) demonstra que a magia sexual goza de predileção inclusive na atualidade.
(7) Freud: “Trois essais sur la sexualité”.
(8) Plutarco: “Oeuvres morales”, traduzidas por Amyot, impressor de Cussac, Paris, ano X, T.V.: De l’amour, p. 68.







