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O Amor Sublime (por Benjamin Péret) | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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O Amor Sublime (por Benjamin Péret)


Traduzido por Worgtal


(“Le Noyau de la Cométe”. Fragmentos extraídos da introdução da “Anthologie de l’amour sublime”, tal como foram publicados na “Medium-Comunication surréaliste”, nº 4, janeiro de 1955, Ed. Arcanes, Paris, pág. 20/22. Tradução para o espanhol de Juan Carlos Otaño.)

Todos os mitos refletem a ambivalência do homem frente ao mundo e frente a si mesmo, ambivalência que, por sua vez, é resultante do profundo sentimento de dissociação experimentado pelo homem e inerente a sua natureza. Considera-se a si mesmo como débil, desamparado, frente às forças naturais que o dominam. Pressente que poderia levar uma existência menos precária, sentir-se mais afortunado. Mas não pode discernir o caminho do seu bem-estar sob as condições de vida que a natureza e a sociedade lhe impõe e se consola em situá-lo em uma idade de ouro perdida ou em um futuro extraterrestre. A importância dos mitos reside então na aspiração à felicidade que contém, na percepção de sua possibilidade, e nos obstáculos que se interpõem entre o homem e seu desejo. Em suma, expressam o sentimento de uma dualidade na natureza da qual o homem participa, e na qual não vê uma solução possível na extensão de sua existência.

Os mitos religiosos refletem esse processo; mas em vez de tentar resolver essa dualidade inicial, ocupam-se em acentuá-la ao extremo. É por isso que sua função consiste em proteger a estrutura da sociedade da qual reclamam ou que as aceita. Os mitos primitivos tendem a um mesmo fim, porém em menor escala, tanto sua sociedade seja mais homogênea. Por isso, em compensação e numa mesma proporção, valorizam os elementos de exaltação inerentes a esses mitos. Apresentam, em temas diversos, o aspecto dual referido ao consolo e a exaltação, depositando a ênfase, quase sempre, sobre o primeiro destes. Expressam, portanto, o desejo humano e o sentimento dos obstáculos que deve superar para alcançar seu objetivo.

Até aqui a humanidade não concebeu mais do que um único mito de exaltação pura, o amor sublime, o qual, partindo mesmo do coração do desejo, aspira à sua satisfação total. É assim o grito da angústia humana metamorfoseado em canto de alegria. Com o amor sublime, o maravilhoso perde igualmente seu caráter sobrenatural, extraterrestre ou celeste, que até então havia tido em todos os mitos. De alguma forma, regressa à sua fonte para descobrir sua verdadeira solução e inscrever-se nos limites da existência humana.

Partindo das aspirações primordiais mais poderosas do indivíduo, o amor sublime lhe oferece uma via de transmutação confluente rumo a um acordo entre a carne e o espírito, tendendo a confundi-los numa unidade superior onde já não podem ser distinguidos mutuamente, encarregando-se o desejo de realizar esta fusão que é sua justificativa última. É o ponto extremo ao qual a humanidade atual pode aspirar. Em conseqüência, o amor sublime se opõe à religião e especialmente ao cristianismo, posto que o cristão não pode senão reprovar o amor sublime, chamado a divinizar o ser humano. Como conseqüência, este amor não tem lugar senão em sociedades onde a divindade aparece como oposta ao homem: o cristianismo e o islamismo; em acréscimo neste último caso, sendo que desde sua origem, o peso da teologia impediu que pudesse integrar-se ao ser humano (1).

O amor sublime representa então em princípio, uma revolta do indivíduo contra a religião e a sociedade, dado uma apoiar-se na outra.

É o “Grande Desejo, aquele que une o Corpo e o Espírito, durante um tempo muito mais vasto do que a união com o corpo no pequeno desejo” (2). O “Grande Desejo” enraizado na condição humana expressa essa tensão do homem orientada rumo à felicidade total, que pode ser esperada pela supressão de sua ruptura, não sendo esta felicidade possível até que suas causas sejam descobertas. O amor sublime só poderia satisfazer este “Grande Desejo” entrementes, se alimentado e ampliado pela satisfação do “pequeno desejo” carnal. O reconhecimento da universalidade deste desejo, de sua significação cósmica e de suas manifestações no homem, reclama por sua vez sua sublimação e a do seu objeto. Ao manter-se afastado do amor sublime, o ser humano – o homem, sobretudo – quase não se entrega ao desejo exceto na medida em que este o conduza ao seu estado mais primitivo. No amor sublime, os seres arrebatados pela vertigem não aspiram senão a deixar-se levar o mais longe possível nesse estado. O desejo, permanecendo ligado à sexualidade, se vê então transfigurado. Frente à perspectiva da saciedade, tem a possibilidade de incorporar todos os benefícios que sua sublimação anterior, inclusive a mais absoluta, lhe haviam acarretado e que provocam sua renovada exaltação. Fora do amor sublime, de algum modo, a sublimação do desejo leva implícita sua desencarnação, já que para obter satisfação, deve perder de vista o objeto que a suscitou. Por este meio se mantém no homem um estado de dualidade, em favor do qual a carne e o espírito permanecem opostos. Por outro lado, no amor sublime essa sublimação não é possível a não ser a partir da intermediação com seu objeto carnal, que tende a restabelecer no homem uma coesão com a anterioridade inexistente. O desejo, no amor sublime, longe de perder de vista o ser carnal que lhe deu origem, tende então, em definitivo, a sexualizar o universo.

(1) Os sufis árabes parecem, à primeira vista, conter uma aspiração ao amor sublime; mas se trata na verdade de um amor que rechaçou todo objeto humano em proveito da divindade a qual atributos humanos, às vezes carnais, são atribuídos. Ref. “Les plus beaux textes arabes”, apresentados por Emile Dermenghem, ed. La Colombe, Paris.


(2) R. Schwaller de Lubicz: “Adam l’homme rouge”, Librairie Le Soudier, Paris. Nesta obra consagrada ao esoterismo do amor, me indica André Breton, o autor exalta uma concepção dos intercâmbios amorosos que, em mais de um ponto, coincide com o amor sublime.

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