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Géssica Hellmann
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Os papéis no relacionamento – parte I
por Géssica Hellmann
Neste artigo, exponho os principais “scripts” – conceito da Análise Transacional – que participam na elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres nos relacionamentos, segundo Claude Steiner (1976). Primeiramente farei um breve resumo sobre a Análise Transacional e a teoria dos scripts.
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Tela de José Sobral de Almada Negreiros
Eric Berne é um pioneiro de amplo alcance, um radical no campo da psiquiatria. Modificou a raiz das análises psiquiátricas com a Análise Transacional.
Em seu livro, Steiner (1976), resume três conceitos idealizados por Berne, que reunidos, colocam a análise transacional à margem da corrente psiquiátrica tradicional:
- As pessoas nascem OK. Assumir a posição “Eu estou Ok, Você está OK”;
- Pessoas em dificuldades emocionais são, mesmo assim, ser humanos totais e inteligentes;
- Todas as dificuldades emocionais são curáveis, uma vez que lhe propicie o conhecimento adequado e a abordagem apropriada
O autor afirma ainda que a dificuldade que os psiquiatras encontram em tratar a esquizofrenia, psicose depressiva, entre outros, resulta mais da inépcia ou ignorância psiquiátrica do que na incurabilidade.
A teoria dos scripts faz parte da análise transacional. Segundo o autor, Berne definia script como “uma estrutura complexa de transações, repetitivas por natureza, mas não necessariamente repetidas, uma vez que uma atuação completa pode exigir uma vida inteira… O objetivo da análise de scripts é acabar com o espetáculo e colocar alguém melhor a caminho”. (STEINER, 1976:25)
A análise de scripts pode ser chamada de “teoria de decisão”, em vez de “teoria de doença dos distúrbios emocionais”. Ela se baseia na crença de que as pessoas fazem planos de vida conscientes na infância ou primeira adolescência, influenciando e tornando previsível o resto de suas vidas.
A seguir abordarei os principais scripts femininos e masculinos, utilizados na análise transacional, descritas por Hogie Wyckoff.
1 – Os scripts nos relacionamentos
Wyckoff (1976), diz que as definições dos papeis masculinos e femininos são parte integrante da socialização das crianças, e estas mesmas definições são constantemente reforçadas pela vida afora. Afirma ainda que um resultado particularmente doentio de nosso treinamento em papeis sexuais é a lacuna criada nas pessoas, que limita seu potencial de se tornarem seres humanos totais.
Uma “auto-imagem OK” projetada nos meninos é que eles devem ser fortes, inteligentes, hábeis em negócios, pais protetores. Recebem mensagens para ser racionais e não emotivos: “homens de verdade”. Já nas meninas é projetada a sensibilidade acima da racionalidade. Têm que ser boas mães, boas esposas, cuidar da casa e, principalmente, adaptáveis, complementando a metade masculina. As mulheres são persuadidas também a abdicar dos próprios sentimentos e a ter o corpo perfeito ligado ao “ideal da revista”.
Todos somos ensinados a consumirmos um ao outro como brinquedos à disposição: depois que fomos usados até o fim, ou não servimos mais, simplesmente somos jogados fora e trocados por outra pessoa.
Um exemplo utilizado pelo autor: Mary, após dez anos de casamento, olha para o marido e diz: ‘Penso que você não me ama mais.’ Ele responde, ‘absurdo é claro que a amo’. Eles estão passando por uma típica dificuldade entre relacionamentos, ele desconsidera os sentimentos dela e não sintoniza o fato de que poderia haver algo de verdadeiro na forma dela expressar as coisas. A “necessidade de amar a esposa” projetada na infância, aliada a sentimentos de culpa, talvez o mantenha fora dos seus sentimentos reais, embora ela esteja mais apta a estar em contato com os verdadeiros sentimentos. Deste modo, ele desconsidera os próprios sentimentos e as percepções intuitivas dela. Conseqüentemente, ela fica confusa e irracional e, ele, mais culpado e desligado.
Para o autor, dois pontos cruciais podem minar um relacionamento: a incapacidade de manter boas relações amorosas intimas e a dificuldade em desenvolver relações de trabalho satisfatórias e igualitárias.
1.1 – Scripts banais para mulheres
Supermãe: É a mulher que passa a vida cuidando e protegendo todo mundo, menos dela mesma. Geralmente, dá mais do que recebe e aceita o desequilibro por se sentir inferior. Representando um “contra-script” ela, algumas vezes, pode conseguir um emprego, parecendo que está se tornando independente e violando o roteiro; mas isto tem curta duração, por acumular o trabalho adicional com as tarefas domésticas.
Enquanto menina, lhe foi projetada a idéia de “ser boa mãe e esposa e, a de se sacrificar pelos outros”. Na juventude, ela decide representar o papel da supermãe em vez de almejar uma carreira própria assumindo sua independência.
Muitas vezes estas mulheres tendem ao excesso de peso e pode negligenciar sua saúde em favor das dos filhos. Emocionalmente vivem o jogo da mulher “Maltratada”/”Mulher Frígida”/”Veja o quanto tentei”.
Antítese: Ela começa a ouvir e respeitar os próprios desejos interiores, principia a receber afagos pelo que é e não pelo que pode dar. Começa a prestar atenção no seu corpo, colocando muitas vezes suas necessidades à frente das dos outros.
Mulher de Plástico: Num esforço para receber afagos, ela se cobre de plástico: jóias, saltos altos, roupas exóticas, perfumes, maquiagem. Tentam comprar a beleza e a sensação OK, mas nunca conseguem. Sente-se sempre abaixo do padrão de beleza da mídia. Sente-se segura no papel de consumidora. Repetidamente, testa a validade do script ao ser ignorada quando não segue seu padrão de beleza. Quando a beleza artificial não pode ser mais comprada ou maquiada, ela tende à depressão, freqüentemente prenchendo o vazio com drogas como álcool ou tranqüilizantes. Representando um contra-script, ela se sente bem quando acabou de fazer uma dieta, está bem vestida e é admirada. Também se sente bem quando está um pouco “alta” pelo álcool ingerido no almoço, mas essas sensações têm curta duração e, mais uma vez, ela se sente vazia e insatisfeita.
É atribuída a ela a idéia de não envelhecer, não ser ela mesma e ser atraente. Na juventude, decide pegar um emprego temporário para comprar suas roupas, em vez de continuar o trabalho no jornal da escola ou concretizar seu interesse em escrever.
Geralmente seu corpo é fino, mas flácido. Pés torturados por sapatos finos e a pele secou com excesso de óleo de bronzear. Emocionalmente, vive os jogos: “Compre-me alguma coisa”/”Bobona”/”Alcoólatra” (ou outro tipo de droga)
Antítese: Ela decide gostar do seu eu natural. Conclui que o seu poder como consumidora é ilusão, decide ser responsável por si mesma. Deixa de usar drogas e adere a um grupo de resolução de problemas aprendendo a fazer mudanças em sua vida.
A mulher por trás do homem: Estas mulheres dirigem seus talentos e capacidades em apoiar o marido, que freqüentemente é menos talentoso que ela mas que, de acordo com a sociedade sexista, é quem deve ser bem sucedido. A serviço do apoio do marido, ela lhe dá afagos e permite que ele receba afagos que pertencem a ela por direito. Ela acha muito mais fácil dirigir seu instinto de sucesso para o marido do que lidar com a realidade difícil e competitiva de ser uma mulher de carreira.
Representando um contra-script, ela se sente muito bem quando o marido genuinamente aprecia seu papel mas, à medida que ele passa a considerar-se como autor do próprio sucesso, ela começa a sentir ciúmes e ressentimento, pensando não ser OK ter esse tipo de sentimento.
É atribuído a ela: ser prestativa / não receber reconhecimento / ficar por trás de seu homem.
A certa altura, ela decide não terminar os estudos, para conseguir um emprego e custear os estudos do marido, decidindo, assim, que para ser boa esposa não deve brilhar mais do que ele.
Geralmente tem a postura um pouco curvada, tende a manter os ombros encolhidos para parecer insignificante e inofensiva. Emocionalmente vive os jogos:”Você é formidável, professor”/”Feliz em poder ajudar”/”Se não fosse por você…”
Antítese: A saída é começar a receber reconhecimento pelo seu talento e usá-lo para o seu próprio bem, desistindo de se ocultar e assumindo a responsabilidade, livrando-se, assim, das mensagens internas que lhe dizem que ela está não OK.
Coitadinha de Mim: Ela passa a vida como uma vítima à procura de um salvador. Seus pais fazem tudo por ela, porque ela é uma “moça”, tornando-a dependente deles. Ela geralmente casa com um homem importante que possa protegê-la, que possa desempenhar o papel do “papai salvador da menininha desamparada”. Não recebe afagos por estar OK sempre que demonstra alguma força, somente afagos de “não-OK” quando está mal. Aprende que pode conseguir as coisas mais facilmente se representar seu papel de vitima, contando seus problemas às pessoas.
Representa um contra-script quando parece estar bem logo após se casar com o seu cavaleiro heróico: ele a salva tão bem que parece que as coisas saíram conforme ela queria.
É atribuído a ela ser uma eterna criança (desprotegida), fazer o que os pais mandam e não pensar por si mesma. Na juventude, após ter sido coagida a não escutar seus próprios pensamentos e sentimentos, decide que seus pais sabem melhor do que ela.
Geralmente tem um corpo fraco, desequilibrado, olhos muito abertos com um tom de tristeza e surpresa. Emocionalmente vive os jogos: “Não é horrível?”/”Estúpida”/”Faça alguma coisa por mim”.
Antítese: Ela se recusa a aceitar a saída mais fácil, decide que dentro dela existe um adulto a se desenvolver. Passa a receber afagos por ser OK quando demonstra força.
A beleza decadente: Ela possui os atributos de padrão de beleza estabelecido pela mídia. Mas não se sente bem como pessoa e não se sente atraente, julga-se frívola. Recebe afagos em demasia por ser bela, e desconsidera todos eles. Ela deseja ser apreciada como pessoa e está em constante procura do príncipe encantado. Pelo fato de não usar seu adulto na relação com o príncipe encantado, ele eventualmente pode dilacerá-la emocionalmente. Mais tarde, ao perder a beleza, ela continua mantendo o relacionamento hostil que sempre manifestou com os outros, sendo agora considerada “puta” sem razão alguma. Na maioria das vezes acaba solitária, não amando ninguém, nem ela mesma.
Representa um contra-script quando está feliz, perdidamente apaixonada pelo seu príncipe, o relacionamento parecendo incrível durante seis meses, quando então as coisas começam a degenerar e ele passa a se interessar por outra mulher bonita.
Geralmente é atribuído a ela que sua beleza é artificial, para que ela não se aproxime das pessoas e não seja ela mesma.
Ela decide ver a si mesma como um objeto sexual para conseguir o que deseja. Seu corpo é lindo, mas tem poucos sentimentos. Por ser tensa, tem dificuldade para chegar ao orgasmo. Emocionalmente vive os jogos: “Defeito (nela mesma)”/”Se não fosse por você”/”Estupro”.
Antítese: Começa a exigir afagos pelas qualidades que possui além de sua beleza. Pára de atribuir defeitos a si mesma e passa a valorizar a beleza interior. Decide usar o eu Adulto para construir um relacionamento com alguém que goste dela como pessoa.
(continua na próxima edição)
STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.
WYCKOFF, Hogie. Elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.160-170.
WYCKOFF, Hogie. Scripts: banais para mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.171-189.
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