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Vida dentro do armário | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Vida dentro do armário



Sexualidade homoerótica ainda é reprimida, apesar de tudo. Uma espiada pelas frestas da porta do armário revela dramas e alegrias humanas de gente como todo mundo… Com preferências, desejos e prazeres – e também dores, conflitos e angústias. Gente que ama, sente e vive o seu prazer como mandam os seus corpos e mentes.

Foi mais difícil no começo, admitir pra mim mesmo que não era igual aos outros. Por algum tempo, me enganei com raciocínios como “é uma fase” ou “se nunca transei com mulheres, não tenho como saber”, etc. No entanto, algumas experiências decepcionantes com o sexo oposto me fizeram cair na real. O que facilitou muito a minha vida foi a Internet, onde pude conversar com outros adolescentes que passavam pela mesma situação, mantendo o anonimato.

Foi também graças à Internet que consegui minha primeira experiência homossexual com um rapaz de outra cidade. Não foi muito boa, mas precisava confirmar. Esse negócio de “confirmar” orientação sexual é uma bobagem, percebi, porque muito antes de ter qualquer tipo de contato físico com homens ou mulheres, já sabia do que gostava só de olhar (homens são visuais).

No meu caso, foi mais difícil admitir pra mim mesmo do que para os outros. Uma vez vencidos os meus próprios preconceitos, os dos outros ficaram fáceis. Mas isso porque eu dei sorte, e venho de uma família de pessoas esclarecidas. Meus amigos também aceitaram bem, alguns se afastaram, mas a maioria permanece fiel.

Sei que muitos homossexuais vêm de famílias preconceituosas ou trabalham em ambientes homofóbicos. Nesses casos, o armário é uma prisão segura. Não entendo esse negócio de ter que sair do armário. Vida sexual é um assunto privado, não deveria ser da conta dos outros. Imagine se todo mundo que gosta de apanhar durante o sexo recebesse um rótulo e fosse identificado por ele? “Olha lá, um masoquista!”.

Mas o pior é fingir ser o que não é. Por exemplo, o cara pode se casar e ter três filhos, lá pelos 40, vem a crise masculina da meia-idade, ele se pergunta: “O que estou fazendo da minha vida?”. Em seguida, começa a freqüentar “saunas masculinas”, escondido da esposa. Quanto mais o cara espera, mais difícil fica pra sair. Há muito mais coisas em jogo: emprego, família, reputação. Tenho um amigo de São Paulo que tem 3 filhos. A mulher dele, quando casou, sabia que ele preferia homem, mas eles se casaram assim mesmo. Os filhos sabem da preferência do pai e, pra eles, é normal.

No armário, eu era mais revoltado. Quando se é parte de uma minoria oprimida qualquer, surge um sentimento de cumplicidade com outras minorias na mesma situação. Logo, quando se abandona o preconceito em relação ao próprio desejo, abandonam-se também outros preconceitos, como os de racismo, religiosos, políticos e assim por diante.

JWK, 25 anos, catarinense.

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