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Entrevista com Maria – Violência Sexual | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
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Entrevista com Maria – Violência Sexual


por Géssica Hellmann

O lema da campanha mundial do Center for Women´s Global Leadership (Centro para a Liderança Global das Mulheres) deste ano é “Pela saúde das mulheres, pela saúde do mundo, basta de violência”. O UNIFEM – Fundo das Nações Unidas para a mulher, denunciou em seu relatório anual que a violência de gênero provoca mais mortes em mulheres entre 15 e 44 anos que o câncer. A pedido, não iremos divulgar a identidade da entrevistada, dona de casa, de 52 anos, a quem chamaremos de Maria. Atualmente está em seu terceiro casamento. Os incidentes ocorreram no seu segundo casamento.

Géh: Sabemos que na maioria dos casos, antes da própria violência física, existe a violência psicológica. Maria você poderia nos contar como tudo começou?

Maria: No inicio era tudo bom. Ele era atencioso carinhoso, levava café na cama, com flores e tudo, um verdadeiro sonho. Nos divertíamos muito, saíamos para dançar, passear, éramos eternos namorados. Na época ele ainda não bebia, pois tomava remédio para os nervos. Quando terminou o tratamento, começou a beber, foi aí que tudo começou.

Géh: Quais as mudanças que ocorreram na relação? Quando notou as primeiras alterações?

Maria: Ele chegava embriagado, quase todos os dias, não se controlava, fazia agressões verbais, me cobrando sobre as coisas que ele me dava.

Géh: Ele começou com agressões verbais. Qual foi a primeira vez que ele demonstrou violência física?

Maria: A primeira vez que demonstrou violência, foi quando me empurrou contra parede. Ele só demonstrava violência quando estava embriagado, me agredia verbalmente, cobrando as coisas boas que tinha feito pra mim. Ameaçava que dormiria com uma faca para me matar, mas nunca o fez.

Géh: E como ele reagia no dia seguinte?

Maria: Quando ficava sóbrio se arrependia, pedia perdão, prometia que nunca mais ia fazer isso, era o melhor marido do mundo, fazia o café, o almoço, lavava roupa, comprava coisas que eu gostava pra comer, etc.

Géh: E você acreditava nas palavras dele?

Maria: Não, mas a esperança é a ultima que morre.

Géh: Intimamente, esperava que a situação mudasse, é isto? Que voltasse a ser o que era no começo?

Maria: Sim, com certeza.

Géh: Na época você contou, para alguém o que estava acontecendo?

Maria: Para a filha dele, o irmão e a cunhada.

Géh: E qual a reação deles?

Maria: Eles diziam que ele me amava mas não me merecia porque, com a primeira mulher, ele também era violento, diziam até que, comigo, ele ate tinha melhorado um pouco. Eles me aconselhavam a cair fora.

Géh: E você o que fez?

Maria: Enquanto ele não me machucasse fisicamente, eu ficaria ali, com esperanças, de que ele se tratasse, ele até começou um tratamento no AA, mas desistiu. Depois de alguns encontros no AA ele disse que não precisava, que sabia se conter.

Géh: Todos acham. É difícil admitir que se está doente e precisa de ajuda.

Maria: Eu não tinha medo, sempre achava que essas coisas só aconteciam com os outros. Pois eu nunca tinha sido agredida por ninguém.

Géh: A situação piorou?

Maria: Piorou, e muito. Quando nos mudamos para longe dos familiares, não durou três meses.

Géh: Os registros das delegacias brasileiras demonstram que 70% dos incidentes ocorrem dentro de casa e que o agressor é o próprio marido ou parceiro. O que a fez por um fim no relacionamento?

Maria: Foi na noite em que ele chegou embriagado e me bateu. Foi terrível a pior noite da minha vida. Era um pesadelo sem fim.

Géh: Você conseguiu pedir ajuda?

Maria: Gritei muito, até uma vizinha escutar. Ela chamou a polícia. Quando chegaram, ele me ameaçou e mandou que eu não contasse. Com medo de morrer, obedeci. Então foram embora, cheguei a pensar que tudo tinha acabado, mas estava só começando. Ele me bateu até se cansar, entre torturas físicas e verbais. Quando acabou já tinha amanhecido.

<Géh: Qual foi sua reação após o acontecido?

Maria: Ele foi trabalhar, quando fiquei sozinha, liguei para o meu trabalho, contei o que tinha acontecido, eles me pediram para ir até lá conversar.

Géh: Você teve coragem de denunciá-lo a policia?

Maria: Me aconselharam a denunciá-lo, mas por vergonha não fui.

Géh: Muitas mulheres, por vergonha, humilhação e medo não denunciam o caso a policia. O que fez então? Voltou pra casa?

Maria: Voltei, para pegar algumas roupas e objetos pessoais, para dormir na casa das minhas filhas, mas não deu tempo. Ele chegou, então quando tudo ia começar, o telefone tocou. Era minha filha, perguntado se eu precisava de ajuda. Falei que sim. Em poucos minutos meu irmão veio me buscar.

Géh: Após o término da relação. Ele ainda voltou a te ameaçar ou perseguir?

Maria: Nos separamos, ele foi para casa dele e eu fiquei morando lá sozinha. Uma semana depois ele apareceu querendo ser prestativo, disse que veio arrumar o portão que havia estragado. Nesta oportunidade ele entrou em casa e me estuprou.

<Géh: Você sofreu de violência psicológica, física e sexual. É um trauma difícil de superar.

Maria: Isso me deu forças para denunciá-lo, só assim consegui me livrar deste monstro.

Géh: Qual o conselho que você daria as mulheres que sofrem violência dentro de casa?

Maria: Quem bate uma vez bate sempre, não confiem, denunciem.

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