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Entrevista com Oswaldo M. Rodrigues Jr. | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Entrevista com Oswaldo M. Rodrigues Jr.



por Géssica Hellmann

Oswaldo Rodrigues - psicólogo especialista em sexualidade humana

Entrevista com o Psicólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr. – CRP 06/20610-7 – Presidente (2005-2007) – SBRASH – Sociedade Brasileira para o Estudo em Sexualidade Humana

Alzamora Roundbench

Round Bench por Emil Alzamora

Géh: Falando como especialista, qual a importância de se estudar a sexualidade e da facilitação do acesso a informações sobre o tema?

Oswaldo: Estudar sexualidade nos leva a preencher um dos três aspectos envolvidos em problemas da sexualidade que ocorrem na vida toda. A compreensão cognitiva é um passo muito importante por permitir a liberdade e a auto-produção da vida sexual.O estudo da sexualidade humana permite reconhecer os mitos e enfrentar os erros do passado na vida de uma pessoa ou mesmo impedir que mitos e idéias errôneas produzam ansiedades e comportamentos de esquiva.

Géh: Em 2006 acontecerá o XIII Congresso Latino Americano de Sexologia em Salvador. Como Vice-Presidente do Comitê Organizador poderia falar sobre os principais temas abordados, a importância e as expectativas em relação a esse evento?

Oswaldo: São várias áreas que chamam a atenção dos profissionais e que serão apresentadas neste que é o maior evento sobre sexualidade na América Latina. O congresso acontece a cada dois anos. O último foi em Santiago do Chile e já esteve em Belo Horizonte em 1992.

A área mais em moda é a destinada às disfunções sexuais com os medicamentos que foram colocados nas farmácias desde 1998 para auxiliar vencer dificuldades de ereção nos homens. A discussão sobre formas de tratamentos ainda é calorosa, pois mantém-se a tentativa e expectativa de que apenas os medicamentos bastam para curar estes problemas comportamentais… Claro que isto não é verdadeiro, pois nenhum governo foi mobilizado para distribuir gratuitamente o medicamento para acabar com estes problemas. Nesta área deve ser apresentado um medicamento para reposição hormonal em homens para restabelecimento de funções vitais que são a base do desejo sexual masculino.

A Educação Sexual estará representada de forma fortalecida com mesas-redondas, com grande divulgação e facilidades nas inscrições para professores da rede de ensino básico e médio que desejem participar do congresso (XIII CLASES). Um grupo de professores universitários, dentre eles posso citar a Profa. Sonia Melo (UDESC), a Profa. Mary Neide Figueiro (UEL), e Paulo Rennes (UNESP) deverão apresentar o “State of the Art” da Educação Sexual no Brasil. Professores de outros países também trarão suas teorias e métodos para a Educação na Sexualidade.

Estudos sociais da sexualidade e pesquisas antropológicas e psicológicas também estão entre os destaques. A Violência sexual e de gênero permeará as discussões e mesas redondas. Ambicionamos um público que pode atingir 1000 profissionais de Educação e Saúde. Já contamos com o apoio formal de várias entidades brasileiras, em especial as filiadas à FLASSES: SBRASH – Sociedade Brasileira para os Estudos em Sexualidade Humana; CEPCoS – Centro de Estudos e Pesquisas em Comportamento e Sexualidade, InPaSex – Instituto Paulista de Sexualidade, CESEX – Centro de Estudos em Sexologia de Brasília.

Géh: Na cultura brasileira, ainda se prevalece mitos e tabus relacionados ao sexo e a sexualidade. Qual a sua visão sobre isto?

Oswaldo: Toda e qualquer cultura tem que manter mitos e tabus sobre a sexualidade para exercer poder sobre os indivíduos. A sexualidade é a única área de relacionamento interpessoal que é menos dirigida pela cultura e pela sociedade. Por ser uma área não pública, a cultura tem menos acesso a modelar o comportamento e atitudes das pessoas. Assim, instituir tabus e mitos permite que o controle social seja exercido sobre as pessoas até mesmo em sua intimidade.

Também se mantêm mitos e tabus pela falta de acesso a informações fidedignas sobre sexualidade. As discussões e debates sobre sexo precisam ocorrer sempre, pois sempre temos novos adolescentes com idênticos questionamentos que, se não forem resolvidos, permanecerão até a vida adulta, trazendo problemas e afastamentos da sexualidade.

Géh: Ao falar em tabus, é interessante falar sobre parafilias, antigamente chamadas de “perversões sexuais”. Poderia nos citar os tipos mais comuns de parafilias?

Oswaldo: As formas diferentes de se fazer sexo sempre preocuparam as sociedades que sentiam suas regras quebradas pelos praticantes desses “sexos diferentes”. Por isso eram chamadas de “perversões”, um chamativo moral e não-científico, mas que foi assumido por profissionais de saúde desde o século XIX.

Atualmente as formas mais comuns de se obter excitação e prazer sexuais são: travestismo fetichista, sadomasoquismo, sexo virtual. Com advento da internet, muitos praticantes isolados encontraram suas turmas e têm trocado informações, incluindo o aumento do numero de praticantes entre pessoas que antes nem pensavam em determinadas práticas. O controle social imediato foi perdido e a modelagem do comportamento passa a ser virtual e a partir de desconhecidos.

Géh: Pedofilia, se verificarmos no curso ao longo da História, desde a antiguidade, sempre ocorreu de uma forma ou de outra. O que leva as pessoas a praticarem a pedofilia? E quais os traumas que podem sofrer as crianças que sofrem deste abuso?

Oswaldo: Existe uma grande diferença entre o que a legislação chama de pedofilia e o que a psicologia denomina pedofilia.

Na legislação brasileira, e na maior parte do mundo, denomina-se pedofilia o sexo de um(a) adulto(a) com um(a) criança ou adolescente. Mistura-se o conceito com o crime de estupro (sexo não consensual ou com presunção de força com menores de 14 anos).

O brasileiro adulto, geralmente homem, que gosta de fazer sexo com adolescentes é muito normótico, muito parecido com qualquer um da rua. Historicamente sempre foi uma prática muito tolerada e socialmente considerada positiva. Falar aos amigos que transou com uma “menina” sempre foi motivo de orgulho para muitos homens. Assim é que temos algumas centenas de milhares de prostitutas menores de idade no Brasil, sustentadas por talvez, uma dezena de milhões de homens adultos…

O que se denomina pedófilo, em Psicologia, é o adulto, geralmente homem, que precisa de uma pessoa de pouca idade para conseguir excitar-se e realizar-se sexualmente. São pessoas que estruturam a sexualidade ao redor de um padrão muito específico de objeto sexual. Este adulto específico, por exemplo, somente desejará meninos com idades em torno de 10 anos; o outro apenas meninas com 8 anos… e assim por diante.

Muitas vezes, esta estereotipização implica em padrões de personalidade psiquiatricamente reconhecíveis como perturbadas, mesmo porque são pessoas que não assimilaram adequadamente a cultura e as regras sociais (sem falar nas legais).

Considera-se que cerca de 30% dos adultos foram abusados sexualmente quando crianças. Apenas para alguns isto terá significado negativo e promoverá comportamentos semelhantes na vida adulta. Para a maioria não haverá maiores problemas. Um dos problemas mais sérios será a falta de confiança nos relacionamentos afetivos. Não existe associação entre abuso sexual infantil e disfunções sexuais na vida adulta.

Géh: Recentemente entrevistamos um adepto a Hipoxifilia, denominada por ele como “asfixia erótica”. Quais os perigos dessa prática para a saúde?

Oswaldo: Apenas um perigo: morte.

De uma a duas pessoas a cada milhão de habitantes em grandes cidades morrem a cada ano devido a esta prática. O risco advém do pouco tempo entre a possibilidade de curtir o prazer sexual e o morrer asfixiado. Muitos que morrem ainda são classificados nas delegacias e hospitais como suicidas… o que está muito longe da realidade. Quando morrem foi porque cometeram um erro de avaliação de tempo.

Géh: Na vida real, assim como representações na arte e no cinema, temos exemplos de sadismo e masoquismo. Relembrando a cena do filme “A professora de Piano”, dirigido pelo alemão Michael Hanek, trata de dominação e opressão em relacionamentos – tanto amorosos como familiares. Erika Kohut é uma professora de piano na faixa dos 40 anos que é tratada como uma criança e oprimida pela mãe. Por trás da aparência fria e indiferente, se esconde uma mulher com bizarros fetiches sexuais. As fantasias de Erika vão além do voyeurismo e pensamentos sadomasoquistas. Ela cria seu próprio conceito de amor e chega a se mutilar sexualmente em busca de um prazer. Muitos adeptos ao sadomasoquismo negam ter um problema psicológico. É um problema psicológico ou não? Em caso positivo, como se trata este problema?

Oswaldo: Sempre existe um limite entre o saudável e o doente. Tudo que seja contra a manutenção de vida saudável tem a consideração de doença. Mesmo porque, se uma pessoa deseja mutilar-se e a sociedade compreende que esta mutilação eliminará parte da produtividade desta pessoa, a sociedade considerará isto doença, ou será ilegal.

Alguns praticantes do sadomasoquismo têm apresentações psicológicas problemáticas com as quais não sabe lidar. Muitas vezes, o comportamento sádico ou masoquista se instalou na pessoa (sem a vontade dela exercer escolha) para diminuir o estresse e a ansiedade frente a problemas da vida. Assim, não se resolve o problema e cria-se um comportamento que o evita… Isto sempre foi considerado neurótico… Mas a mesma formulação serve para o uso do álcool, cigarro ou explosões de raiva.

Investir em saúde reprodutiva ajuda no desenvolvimento social

O investimento em serviços de saúde reprodutiva contribui para o fortalecimento do papel da mulher na sociedade pós-moderna e é um forte aliado na construção do desenvolvimento social e econômico sustentável. De acordo com o Programa de Ação da Conferência de Cairo (1994) a saúde reprodutiva tem uma relação intrínseca com estado de completo bem-estar social, mental e físico e o sistema reprodutivo humano. Esse conceito é fruto do amadurecimento das noções de saúde sexual e planejamento familiar.

Experiências mundiais têm demonstrado que a integração dos serviços de planejamento familiar implica o fortalecimento do sistema de saúde como um todo. Isso significa melhorar a coordenação entre as diversas áreas e facilitar o atendimento às necessidades da população. O fato é que, em muitas culturas, a desvalorização da mulher, seu status inferior na escala social, assim como seu baixo poder de decisão sobre a própria sexualidade e capacidade reprodutiva a impede de desfrutar de serviços que poderiam melhorar sua qualidade de vida. Desde adolescente, ela deveria obter informações sobre a transição para a maturidade, livre de gravidez indesejada, DST/AIDS ou aborto inseguro; a prevenção e tratamento de DST e HIV/AIDS; a saúde e mortalidade materna etc.

Dados
* A Aids já atingiu mais de 258 mil pessoas: 73 mil mulheres e 185 mil homens. No inicio dos anos 80 a relação era de 25 homens para cada mulher infectada e agora já é de 1 mulher para cada 2 homens. Entre as mulheres, 55% tem entre 20 a 29 anos, predominando as afrodescendentes e as de camadas mais pobres, segundo o Ministério da Saúde, 2003.
* Anualmente, são realizados cerca de um milhão de abortos, a maior parte deles clandestinos. No país, a interrupção voluntária da gestação é permitida apenas em caso de risco de morte da mãe ou se ela for resultado de estupro, de acordo com o Center for Reproductive, 2004.
* Mais de quatro milhões de mulheres morrem a cada ano na América Latina por complicações causadas por abortos inseguros. Essa prática representa 13% da mortalidade materna nos países da região. (Center for Reproductive; 2004)
* No mundo inteiro, estima-se que uma de cada três mulheres já foi espancada, forçada ao ato sexual ou agredida de outras formas. A violência contra as mulheres e meninas pode ser física, sexual, psicológica ou econômica, porém o sexo forçado e a agressão dentro do matrimônio estão entre suas manifestações mais comuns.
Fonte: http://www.agende.org.br

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