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Géssica Hellmann
E-mail: geh@gehspace.com
http://redegehspace.gehspace.com
Arte, corporalidade e sexualidade

Mãos - Acrílico sobre papel - Géssica Hellmann
Este artigo é um momento reflexivo sobre o trabalho desenvolvido e apresentado nestas 36 edições. Primeiramente gostaria de abordar um tema que tem sido focalizado nas últimas edições: Arte, Corporalidade e Sexualidade. Em seguida, enfocarei o valor social e cultural das manifestações artísticas, principalmente no que se refere às expressões do “olhar” no contexto das obras aqui apresentadas.
Podemos afirmar que a corporalidade e a sexualidade são fatores decisivos na construção da identidade pessoal, e de certa forma, do equilíbrio emocional. O corpo sente, pensa e expressa.
O ser humano manifesta o que sente através da sua corporalidade. Seja através, do olhar, da forma de ouvir, do falar, enfim em todos os gestos exprimimos os nossos sentimentos, isto é, são expressões corporais do nosso estado de espírito.
A sexualidade também é uma forma de expressão corporal, afetando o ser humano intimamente, de forma tanto positiva como negativa. É altamente dependente de crenças e valores inseridos pela sociedade em que vivemos. Precisamos educar nossa capacidade de expressão corporal e nosso modo de pensar para aprendermos a amar e nos entregar por inteiro. Enfim, o que vimos fazendo é estudar o papel da corporeidade na estruturação dos processos mentais, refletidas nas diversas expressões artísticas, seja na literatura, música ou artes plásticas.
É com o objetivo de manifestar as diversas formas de expressão sexual e combater todos os preconceitos, que desde as primeiras edições procuro dar liberdade à diversidade de idéias, preferências e reflexões neste espaço virtual, oferecendo uma tribuna a autores diversos, principalmente aos que ainda não atingiram voz “na grande mídia”.
Cito agora a idéia de arte e corporalidade na visão de Aguinaldo de Souza (2006): “Estrategicamente, parte-se da percepção do uso funcional que as artes, com suas especificidades, fazem do corpo humano, distinguindo tal uso de duas formas: primeiramente, as que partem da corporeidade, tendo o corpo como imagem, referência ou inspiração, denotado em processos descritivos ou modalidades plásticas que recuperam a imagem do corpo humano, quer figurativamente, quer de modo a diluir, em maior ou menor grau, as referências corporais; e, em segundo lugar, as que assumem um processo de corporificação, buscando a presença física do corpo, a exemplo das artes cênicas (dança, teatro, ópera, circo, musical) e demais modalidades de intervenção em que o corpo do artista é presente cenicamente.”
Ao pensar em arte, podemos afirmar que existem várias definições citadas por vários conhecedores e pensadores da arte. Mas não consigo me ater a uma como única definição; seguindo os passos de Delfin Sardo: “A arte não tem que ser conceptual” pois, quando a conceituamos, lhe damos limites, fronteiras. A arte é o próprio atrevimento, é um pensar além. A arte cria um impacto, no próprio artista, na obra em si e no espectador.
O acervo da seção “eroarte” e da “galeria géh”, assim como as diversas obras que ilustram nossas seções, têm o objetivo de representar a corporalidade humana, além de mostrar as diversas expressões da sexualidade na arte.
Desde o início, sabemos ser esta uma linha tênue. Para tanto tivemos sempre o cuidado de pensar no limite entre arte e pornografia. Mas qual seria este limite? “Arte na minha opinião é uma forma de expressão cultural da beleza. O que inclui o corpo e o ato sexual em si. Já a pornografia, reduz o corpo e o ato sexual a um simples objeto com a única finalidade de masturbação.” (Hellmann, 2006).
Seria ilusão dizer que não existe preconceito quanto à expressão visual do corpo humano, especialmente quando sexualizada. Reconhecemos que muitos podem até olhar os trabalhos aqui apresentados como “pornográficos”. Mas, quem adota essa visão estreita, põe em xeque o trabalho de artistas renomados, com produção extensa e valor social, histórica e até economicamente reconhecidos. Reafirmo a idéia de que é preciso reaprender a “olhar” sem os vieses impostos pelos tabus e preconceitos socialmente impostos. Refletir a beleza do corpo na arte é fundamental para o combate aos preconceitos quanto à sexualidade humana.
Mas neste momento, volto a me perguntar: os meus trabalhos apresentados na galeria podem ser considerados obras de arte? Têm valor artístico? Que valor podem ser atribuídos a eles? Não tenho esta resposta, sei que muito tenho a aprender. Mas não posso deixar de colocar a minha intenção, como autora e pintora, durante esta jornada. A intenção foi refletir meus sentimentos e transmitir um olhar pessoal sobre o corpo humano, principalmente o corpo feminino. Corpo, expressões e gestos, assim como este que ilustra o plano de fundo desta edição. Demonstrar através das “mãos”, o gesto que se materializa quando o pintor assume a paleta descrevendo um discurso interior. Mãos que fazem, que sentem, que brincam, que expressam, mãos que emocionam.
Como conclusão, assumo minha posição militante de combater a todos os tipos de discriminação de gênero, raça e sexualidade. É preciso crescer, e aprender a olhar, e da mesma forma repassar a nossos filhos e às próximas gerações esse novo modo de olhar, disseminando o amor e o respeito ao próximo.
Como presente aos que leram até aqui, deixo estes belos versos do poeta Carlos Drummond de Andrade:
“MISSÃO DO CORPO
Claro que o corpo não é feito só para sofrer,
mas para sofrer e gozar.
Na inocência do sofrimento
como na inocência do gozo,
o corpo se realiza, vulnerável
e solene.
Salve, meu corpo, minha estrutura de viver
e de cumprir os ritos do existir!
Amo tuas imperfeições e maravilhas,
amo-as com gratidão, pena e raiva intercadentes.
Em ti me sinto dividido, campo de batalha
sem vitória para nenhum lado
e sofro e sou feliz
na medida do que acaso me ofereças.
Será mesmo acaso,
será lei divina ou dragonária
que me parte e reparte em pedacinhos?
Meu corpo, minha dor,
Meu prazer e transcendência,
És afinal meu ser inteiro e único.”
Bibliografia:
HELLMANN, Géssica. Pornografia, Erotismo e Arte: onde estão as fronteiras? Disponível em: http://gehspace.com/sexualidade/2008/12/07/pornografia-erotismo-arte-onde-estao-as-fronteiras/ Acessado em: 24/03/2006.
SARDO, Delfim. Disponível em: http://www.c-e-m.org/producao/iniciativas/CEMHORAS/delfim_sardo.htm. Acessado em: 24/03/2006
SOUZA, Aguinaldo de. TEXTO E CENA: OPERAÇÕES TRADUTÓRIAS DA CORPORALIDADE. Disponível em: http://www.conexaodanca.art.br/imagens/textos/artigos/
Opera%E7%F5es%20tradut%F3rias%20da%20corporalidade.htm . Acessado em: 24/03/2006.







