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E agora?
por Maria Antonieta R. Matos
Maria Antonieta é uma CD (Crossdresser). Engenheira e física, é professora e uma das diretoras do BCC (Brazilian Crossdresser Club). Se você quiser saber mais sobre ela acesse o site www.bccclub.com.br e, na página das associadas, encontrará uma biografia da colunista.

Lovers 19 por Nicoletta Tomas Caravia.
Queridos amigos.
Tenho lido em revistas, tenho visto em jornais, na TV e na mídia em geral, uma débâcle feminina. Quando a propalada “Revolução Feminina” – cujos primórdios não vêm, necessariamente, ao caso – ganhou corpo a partir das décadas de 1960/70 para desembocar na realidade atual, nem só de acontecimentos memoráveis vivemos então. É sabido que, mercado de trabalho, é um só. A vaga deverá ser ocupada apenas por um funcionário. Até os anos 1960 não de discutia isto. A vaga era de um homem e pronto.
Mudou… e mudamos todos. Porém nem só de mercado de trabalho vive o homem e a mulher. Existem coisas imutáveis, ao que eu saiba, que a “Revolução Sexual” não alcançou ainda. Vamos exercitar um pouquinho o assunto “maternidade”, que, a meu ver, ainda é exclusividade feminina… risos. Ser mãe… Por milhares de anos ser mãe era, foi, ponto pacífico. O homem “nos enchia a barriga” e lá íamos nós, numa escalada biológica que desembocava na maternidade.
Mas, e agora? Num mundo tão moderno; quando o relógio biológico começa a apitar, escolher entre ser mãe ou não, e aceitar todos os desdobramentos que vêm junto com a maternidade pode ser uma experiência angustiante para a mulher moderna. O engraçado é que quem vê a questão dos dois lados do gênero, como eu, pode ter muita certeza em grande parte do tema e, com um pouquinho de exercício intelectual, completar as lacunas faltantes com grande margem de acerto. As amigas que lerem esta crônica têm toda a liberdade de discordar se quiserem…
Viver tarefas sem-fim de amamentação não raro passa a significar, num nível mais abstrato, o mesmo que apontar uma espada para a, até então, independente e faceira mulher, que orgulhosamente encheu o peito de silicone. Como enchê-los de leite agora? Como substituir o orgulho da ostentação “fake” pela ternura do verdadeiro?
Essa mulher, filha da revolução feminista, percebe que transitar à vontade pelo mundo e disputá-lo centímetro a centímetro com homens e unha a unha com mulheres tem seu preço. No ápice da maturidade é que as filhas da revolução começam a esbarrar em dúvidas maiores, existenciais; percebem a lacuna que o rótulo do feminismo impôs: elas, orgulhosamente, ganharam espaço ao sol, conseguiram bons empregos; mas será que, caso se retirem para dar à luz, o sol continuará a brilhar?
Nesse caso, como a revolucionária pode repousar as armas, descansar e parir tranqüilamente vendo a guilhotina sobre sua cabeça? Tateando um universo repleto de oportunidades e armadilhas e observando o jogo de espelho entre passado e presente, as atuais filhas da revolução enfrentam valentemente tanto a feminilidade quanto o feminismo e assumem as conseqüências de ambos. Dedicam-se ao trabalho ao mesmo tempo em que ouvem as exigências descabidas determinadas pela mídia, que prega juventude eterna, magreza e beleza a todo custo – situação dissonante com a realidade e tão opressora quanto era, no passado, ter um pai ou marido déspota.
Nesse caso, porém, a autoridade passou das mãos do homem para as garras de uma entidade maior, invisível, com a qual também não há a menor possibilidade de diálogo, porque é tirânica por natureza e está a serviço dos interesses do mercado. Estaremos menos oprimidas atualmente porque somos ditas modernas?
Se as filhas da revolução, depois de tanto oscilarem do feminismo para a feminilidade na tentativa de achar um equilíbrio, resolvem ser mães, deparam-se então com outra decisão importante: optar entre parto normal ou cesárea – ponto delicado, já que soa um tanto sádico esperar que elas, na sua maioria sedentárias, engordem apenas doze quilos durante os nove meses, tenham uma musculatura pélvica forte para no final da gestação irem quase correndo à maternidade deixando que a natureza faça sua parte e o bebê escorregue por entre suas pernas.
Assistindo a tudo isso há, em meu modo de ver e do lado feminino, uma platéia que anseia pela estampa de um sorriso plácido, de nossa senhora prestes a parir o menino Jesus, e do feminista uma equipe que exige produção a todo vapor até o último instante. Do lado humano, apenas ela com ela mesma e seu filho prestes a deixar o ventre.
O que parece faltar às filhas da revolução é solidariedade para entender as idiossincrasias próprias da feminilidade, porque, moldadas que foram à imagem e semelhança masculina, tem-se a obrigação de ser, em qualquer circunstância, “normais” — nos moldes masculinos — e o dever de serem produtivas e felizes, interpretando uma segunda natureza, que passou por um processo de aculturamento no qual vale a pena parar e pensar quais foram os ganhos reais para nós, mulheres filhas da revolução. As tentativas de pensar nas mudanças são urgentes, mas a coragem de aplicá-las parece ainda um tanto incipiente.
E agora?
Maria Antonieta R Mattos.










