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Entrevista com Rocca Stockler | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Entrevista com Rocca Stockler



por Géssica Hellmann

Demos um tempinho na teoria da sexualidade para um papo com Rocca Stockler, uma mulher sexuada sobre… Adivinha!

foto por Por Luiz Carlos de Carvalho

Por Luiz Carlos de Carvalho

Géh: Bissexualidade. O que você tem a dizer?

Rocca Stockler: Não escondo meu desgosto pela libertinagem despersonalizada que vejo nos dias de hoje, mas quem sou eu! Bissexualidade é um rótulo e sou completamente contra qualquer tipo de rótulo. Hoje em dia ser bissexual virou moda, isso retrata tremenda falta de personalidade. A intimidade não teria de ser jorrada, assim como não há motivo de ser escondida. Teria de ser normal, mas a coisa banalizou. Realmente desejo que se busquem elos e não rótulos.

Géh: Como você se define sexualmente?

Rocca Stockler: Concordo com Caio Fernando Abreu, na minha cabeça também há dois tipos de pessoas: as sexuadas e as assexuadas. Sou sexuada!

Géh: Quero abordar mais uma vez o preconceito, mas você falou de modismo, e isso também é interessante. Fazer porque é a onda, e não porque faz parte de si mesmo. No final tornam-se preconceituosos da mesma forma, com os que não seguem o modismo.

Rocca Stockler: Modismo é um preconceito meu. Fato! Perdemos muito conhecimento quando optamos seguir o nada. Modismo é um grande vácuo. Acho triste apenas.

Géh: Você se define como um ser “sexuado”?

Rocca Stockler: Sim. Vejo o corpo humano como uma como uma máquina aberta a todos os estímulos, bons e ruins. Prazer é um bom estímulo, sendo assim quem apertar o botão certo, tocar o corpo, vai me dar prazer, seja homem ou mulher. Fato: o cérebro humano é o único inimigo das diversas formas de encarar os desejos. Nunca me rotulei.

Géh: Como foi sua descoberta da sexualidade?

Rocca Stockler: Descoberta desde os primórdios? (risos)

Géh: Vai conta… Nascemos, crescemos e descobrimos o sexo. É por ai (risos)

Rocca Stockler: Lembro com mais carinho da minha descoberta do desejo entre duas pessoas. Primeiro beijo, num cemitério, foi algo que marcou mais que minha primeira trepada. Eu era muito moleca, jogava basket com irmão mais velho, convivia com amigos dele, nunca desejei me apaixonar e nem pensava em trepar. Depois do beijo, mesmo eu mostrando querer matar o menino, comecei a me olhar no espelho de forma diferente (risos). Já minha primeira experiência sexual foi uma merda.

Géh: Engraçado, mas todos passam por esse momento de quando nos olhamos no espelho e parecemos alguém diferente, algo mudou. Ou, não sou mais criança, mas será que cresci sou mulher?

Rocca Stockler: Eu sentia vergonha por ser muito moleca, como disse. Cresci em dois mundos paralelos: teatro (no qual me formei em expressão corporal, que brinca com o corpo de maneiras completamente lascivas ou brutas) e basket (que era minha vida em casa, e minha casa eram as ruas.). Depois que rolou esse lance, que eu juro: NUNCA HAVIA PENSADO NESSAS PARADAS, comecei a sentir vergonha, parecia que estava devendo alguma explicação pra alguém. Agora sexo e prazer vieram separados na minha vida.

Géh: Qual veio primeiro?

Rocca Stockler: Sexo. Acredito que sempre vem primeiro sexo. Minha primeira trepada foi com um namorado que eu gostava. Ele não sabia me pegar de jeito, assim como eu também não sabia exatamente o que estava rolando. Não houve prazer. Foi muito cru. Éramos assim. Se for relatar ao pé da letra, diria que: exigi camisinha (apologias à parte, sempre fui extremamente chata com assunto segurança), abri a perna, doeu e sangrou. Não teve prazer. Posso até confessar que meu prazer maior foi ter passado a expectativa da primeira vez. Sei lá o que pensava… Acho que nem pensava. Minha primeira trepada foi exatamente isso: ufa até que enfim foi. PONTO! Não teve graça alguma. Aliás, as primeiras, e todas com o mesmo namorado, não tiveram prazer. Troquei de namorado. (gargalhadas)

Géh: A insegurança, o medo, e a falta de conhecimento do próprio corpo nos levam a esse tipo de experiência. A minha também foi uma merda. (risos)

Rocca Stockler: É foda, porque sexo ocupa grande parte do meu gostar de alguém. Se não for bom, não rola. Assim como, se for básico, também não me agrada. Procuro sempre algo que desconheço. Quero que a pessoa que estiver comigo faça o mesmo. É saudável na vida de um casal.

Géh: No seu texto “Complexo de Édipo”, você fala sobre a sua relação familiar, acha que isto influenciou na maneira como você encara a sua sexualidade, seus relacionamentos?

Rocca Stockler: Minha relação familiar influenciou bastante no quesito responsabilidade. Sempre fui muito responsável em tudo, inclusive e principalmente sexualmente. Sempre gostei de relacionamentos longos com muita intimidade. Talvez seja por ter essa referência com meus pais, talvez não. Que seja… Não gosto de fodas casuais. Nunca gostei. Acredito que seja um egoísmo meu, pois não abro mão da prioridade de sentir prazer, e quero que façam o mesmo comigo (quem e apenas quem estiver comigo – risos). Não há nem carinho e menos conhecimento ao lado de alguém que, quando muito, você sabe o nome. (risos). Superar limites é algo me agrada muito. A falta de pudor também.

Géh: Por se considerar sexuada, você é aberta a relacionamentos com o mesmo sexo?

Rocca Stockler: Totalmente! A priori nunca procurei me relacionar com uma mulher, muito menos desejei, pelo simples fato de nenhuma mulher ter me despertado tesão. Porém quando aconteceu foi muito bom.

Géh: A questão da bissexualidade é crescente, mas ainda pouco abordada uma vez que a homossexualidade ou a própria heterossexualidade é mais visada e discutida. Em sua opinião, no tocante ao preconceito, os bissexuais sofrem até mais que os homossexuais por não acharem seu espaço?

Rocca Stockler: Na minha grosseira opinião sobre… Afirmo carregar um carinho enorme da minha relação de sete anos, de extrema cumplicidade, com uma mulher qual amo incondicionalmente até hoje, e sempre vou amá-la. Não consigo aceitar rótulos quando o que sempre esteve em questão foi meu instinto.

Géh: “O cérebro humano é o único inimigo das diversas formas de encarar os desejos”. Com essa afirmação você considera o pior preconceito rotular as opções sexuais?

Rocca Stockler: Sem sombra de dúvida! Sou completamente entregue ao amor incondicional. E sei que tive muita sorte por não ter de dar explicação pra ninguém que não eu mesma, ao ter descoberto também gostar de alguém do mesmo sexo. Isso aconteceu num tempo em que família já havia deixado de participar da minha vida e, talvez, minha família tenha passado a ser a mulher que estava comigo. No meu caso sempre vivi de trocas cúmplices, tesão e cuidados com quem está ao lado. Tive sorte.

Géh: Você é uma pessoa que transmite uma energia contagiante. Vou colocar uma definição sobre quem é Rocca dada pela jornalista Carolina Martins: “A Rocca é uma contradição. É quase um homem e ao mesmo tempo é tão fatal quando mulher”. O que você diz sobre isso?

Rocca Stockler: Que responsabilidade! Complicado falar sobre essa afirmação. Diria que me sinto mais como um animal, no melhor sentido da palavra. Quando valorizamos o instinto animal chegamos a lugares que não teriam como ser verbalizados.

A busca sexual, ou descoberta, que seja, é um caminho extremamente egoísta. Quando você se masturba consegue sentir prazer automático. Quando está com alguém o processo é diferente. Sou partidaríssima ao descobrir por inteiro como a pessoa que está comigo sente prazer, como ela se toca, e vice versa. O sexo bom em si é contraditório. Tem de haver uma perfeita química e troca pra atingir o prazer, porém é necessário existir boa dose de egoísmo pessoal, (no bom sentido) pra você por si sentir prazer com o corpo de outra pessoa. Claro que homens e mulheres têm peculiaridades distintas: textura, cheiro, gosto, anatomia. Assim como é distinto e por inteiro quando estou com qualquer um dos sexos. A parada de homem achar que vai se dar bem com o fato da mulher dele também gostar de mulher, comigo sempre foi motivo de piada. Relacionamento é sempre a dois. Trocas são únicas. E é muito comum esse fetiche masculino. (risos)

Géh: Faz um resumo dessa distinção entre o estar com um homem ou com uma mulher?

Rocca Stockler: Eu gosto de mulheres delicadas e homens rudes. Cada um com o devido traço da espécie. Grosso modo, é claro! E ambos decididos sobre o que querem. Não suporto falta de entrega. As mulheres despertam em mim o cuidar de alguém mais frágil. Os homens afloram minha fragilidade, e isso é bom! Meus três casamentos foram com homens. Talvez por mais que o ímpeto animal esteja presente, eu sinta necessidade dessa peculiaridade que os homens conseguem aflorar em mim. Isso me aquieta o tanto que atiça.

Géh: Acho que fechou com chave de ouro!

Dica de Leitura – O Que é Mesmo a Sexualidade?
M.R.S. VILLARES – WALTER SOUSA SONIA CAFE

O que é mesmo a sexualidade? - dica de leitura

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A idéia de que a sexualidade é apenas um dos impulsos primitivos no ser humano tem reduzido enormemente a nossa compreensão do seu sentido mais abarcante e auto-realizador. Na verdade, o que a sexualidade faz por nós, em todos os níveis em que ela possa se expressar e se manifestar, é levar-nos a uma compreensão de que estamos aqui para realizar a tarefa do Amor. Portanto, a sexualidade será tratada aqui no seu sentido mais amplo e profundo, aquele que vai muito além da força que atrai dois seres para um contato físico e sexual.

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