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Reflexões sobre Sexo, Morte e Religião: uma introdução conceitual à obra “O Erotismo: o Proibido e a Transgressão”, de Georges Bataille. | Sexualidade by géh

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Géssica Hellmann
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Reflexões sobre Sexo, Morte e Religião: uma introdução conceitual à obra “O Erotismo: o Proibido e a Transgressão”, de Georges Bataille.


por Géssica Hellmann

Martin Sklar - Spirit

Spirit por Martin Sklar

Bataille percorre a presença oculta do erótico na religião e na filosofia relacionando o sexo tanto com a vida como com a morte.

Segundo o autor, a reprodução sexual que, na base, faz intervir a divisão das células funcionais, leva a uma nova espécie de passagem da descontinuidade à continuidade. O espermatozóide e o óvulo são, no estado elementar, seres descontínuos, mas que se unem e, em conseqüência, estabelece-se entre eles uma continuidade que leva à formação de um novo ser, a partir da morte, do desaparecimento dos seres separados. Ou seja, a reprodução está intimamente associada à morte, e é desta relação entre a continuidade e a morte que surge a fascinação que domina o erotismo.

Em suas reflexões sobre continuidade e descontinuidade, Bataille determinou três formas de erotismo existentes no homem: erotismo dos corpos, erotismo dos corações e erotismo sagrado. Nelas, o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser (sua descontinuidade) por um sentimento de continuidade profunda com Deus ou o Universo.

O significado do “erotismo dos corpos” é o de uma violação que beira ao assassínio. O erotismo tem por fim atingir o ser no seu mais íntimo cerne, lá onde pensamentos e palavras são inúteis. A passagem do desejo normal ao desejo erótico supõe em nós a relativa dissolução do ser constituído na ordem descontínua.

O “erotismo dos corações”, aparentemente, se separa da materialidade do erotismo dos corpos; deste procede, mas não passa, na maioria das vezes, de um aspecto do erotismo estabilizado pela recíproca afeição dos amantes. A essência da paixão é a substituição da persistente descontinuidade por uma maravilhosa continuidade entre dois seres. Se é verdade que a posse do ser amado não significa a morte, também é verdade que ela está necessariamente envolvida na busca dele. Se aquele que ama não pode possuir o ser amado, pensa, muitas vezes, em matá-lo, perdê-lo, ou em outros casos, deseja até a própria morte. A paixão arrasta-nos, assim, para o sofrimento, uma presente ameaça de separação.

No “erotismo sagrado”, mesmo quando o objeto do sacrifício não é um ser vivo, a vítima morre, enquanto a assistência participa de um elemento que revela a sua morte. A esse elemento é o que chamamos de “sagrado”, ou seja, uma continuidade a ser revelada que fixa sua atenção na morte de um ser descontínuo. A aprovação da vida na própria morte é um desafio, tanto no erotismo dos corações como nos dos corpos, com a diferença da morte propriamente dita.

O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Para Bataille, o erotismo é a atividade sexual do homem, mas a atividade sexual do homem, em um nível, não é sempre necessariamente erótica, embora o seja em outro nível, porque se diferencia da sexualidade dos animais. Vestígios do período paleolítico comprovariam a mutação pela qual o homem teria se libertado de um “animalismo inicial”, compreendendo que era mortal e passando da “sexualidade inocente” à “sexualidade envergonhada”, de que teria brotado o erotismo.

Para Bataille, o erotismo é chave que desvenda aspectos fundamentais da natureza humana, uma vez que se encontra no limite entre o natural e o social, o humano e o não-humano.

Quando se tratava de erotismo (ou, geralmente, de religião) a experiência interior lúcida era impossível numa época em que permanecia oculta a interdependência da proibição e da transgressão, exigindo assim uma experiência pessoal, igual e contraditória, da proibição e da transgressão. As imagens eróticas, ou religiosas, introduzem essencialmente, para uns, comportamento de proibição, para outros, comportamentos trangressivos. Contudo, a transgressão difere do “retorno à natureza”, residindo aí à força do erotismo e, ao mesmo tempo, a força das religiões. A religião, neste sentido, entre outras funções, envolve a criação de regras e limites de comportamento, ou seja, circunscreve as fronteiras do “proibido”, do “autorizado” e do “obrigatório”.

O foco de Bataille, entretanto, é na direção do “proibido”. Sem o primado da proibição, não teria sido possível ao homem alcançar a consciência clara e distinta sobre a qual a ciência se baseia. A proibição eliminaria a violência e os nossos impulsos sexuais. Quando observamos a proibição, submetendo-se a ela, não teríamos consciência desse ato mas, ao transgredi-la, conhecemos a angústia, sem a qual a proibição não existiria: a experiência do pecado. A sensibilidade religiosa uniria sempre estreitamente o desejo e o terror, o prazer intenso e a angústia.

Na visão de Bataille, por oposição o ato trabalho (racional), a atividade sexual é uma violência, enquanto impulso imediato, pois pode perturbar o trabalho: uma coletividade laboriosa não poderia estar à mercê da sexualidade. Somos levados a pensar que, desde a origem, a liberdade sexual teve que ser limitada, e a esse limite podemos dar o nome de “proibição” e, ainda mais, podemos acreditar que inicialmente foi o trabalho que impôs esse limite. Essas restrições variam de acordo com o tempo e o lugar. Nem todos os povos sentiram a necessidade de ocultar os órgãos sexuais, por exemplo.

A nudez, nas civilizações ocidentais, tornou-se objeto de uma proibição bastante vasta. A nudez é objeto de um rito que comunica aos homens sua essencialidade, isto é, seu erotismo. Sua presença retoma especialmente a relação com o sagrado. Para ser “encontrada”, a nudez tem que se apresentar ao sujeito enquanto objeto sagrado e simbólico. A roupa surge assim como o artifício que redimensionaria a nossa relação com o nu. Daí a extraordinária percepção de Bataille: o vestuário seria um meio de se atingir a nudez!

Ao se falar de “proibições”, não podemos deixar de falar de tabus. Nas sociedades arcaicas, a classificação das pessoas segundo a sua relação de parentesco e a determinação dos casamentos proibidos tornou-se uma verdadeira ciência. O autor nos indaga se haveria algo mais firme em nós que o horror do incesto. Quer na sexualidade ou na morte, o foco estaria sempre na violência, ao mesmo tempo aterrorizante e fascinante.

Entre outros tabus relacionados à sexualidade, o autor menciona o sangue menstrual e o sangue do parto. Como o incesto, eles também estariam estreitamente relacionados ao horror da violência. A mancha que o sangue emana, alem do sentido da atividade sexual, é a conseqüência da própria violência.

Segundo o autor, a transgressão não constitui uma negação da proibição, mas ultrapassa-a e completa-a. Só o horror e o terror insensatos poderiam substituir os desmedidos excessos, sendo esta a natureza dos tabus. A violência humana seria conseqüência não de cálculos, mas de estados sensíveis como a raiva, o medo, o desejo, e assim por diante. A transgressão organizada formaria com a proibição um conjunto que define a vida social dos indivíduos.

Bataille (1980, p.60) afirma que “Proibição e transgressão correspondem a dois movimentos contraditórios: a proibição rejeita, mas o fascínio introduz a transgressão. A proibição, o tabu, só se opõem ao divino num sentido, mas o divino é o aspecto fascinante da proibição, é a proibição transfigurada”.

A elaboração do erotismo, nesta obra de Bataille, se faz pela “experiência interior”, como a experiência religiosa. Essa experiência compreende a contradição entre proibido e transgressão, na qual a transgressão não elimina radicalmente a proibição. Pelo contrário, preserva-a no seu seio. O sentido é claro: a religião regularia, essencialmente, a transgressão das proibições!

Referência Bibliográfica:

BATAILLE, Georges. O erotismo: o proibido e a transgressão. Lisboa: Moraes editores, 1980, 2a. ed.

Dica de LeituraO erotismo: o proibido e a transgressão

O erotismo é um ensaio original e perturbador sobre a sexualidade: sua presença oculta na religião e na filosofia e sua relação com vida e morte. Bataille também aborda temas controversos como misticismo e incesto.
Na primeira parte da obra, Georges Bataille explora tabus e transgressões humanas, como orgia, sacrifício e prostituição. Na segunda, o autor examina vários aspectos do erotismo, analisando, inclusive, figuras emblemáticas e polêmicas como o marquês de Sade. O autor apresenta o erotismo como o estado de dissolução do ser constituído que, quando ao encontro do outro, se perde e se reencontra, formando uma nova unidade.

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